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CRÍTICA | Valor Sentimental, de Joachim Trier (Sentimental Value, 2025)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • 27 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Em Valor Sentimental, Joachim Trier transforma o cinema em terapia, e a arte como forma de aproximação entre pai e filhas, cicatrizando feridas em uma jornada de arrependimento e perdão.

 


As relações familiares nem sempre são da maneira como desejamos, e poucas famílias reproduzem a dinâmica típica do comercial de margarina, na qual todos se sentam, juntos, felizes e alegremente interagindo entre si, como se não houvesse problemas. Não somos responsáveis, e a nós definitivamente não cabe a escolha do lugar em que nascemos, mas podemos, por outro lado, decidir o que fazer com isso na formação de nossa personalidade. E ainda que exista um distanciamento, nada impede que, com o passar dos anos, pais e filhos possam finalmente se entender, com o amadurecimento, diálogo e uma busca pela compreensão dos sentimentos por ambas as partes.

 

É o caso, em Valor Sentimental, das irmãs Nora e Agnes, filhas do veterano e premiado diretor de cinema Gustav Borg, que acabaram de perder a mãe, e agora veem uma tentativa de reaproximação do pai, sempre distante, de volta às vidas delas. Ainda que de maneira mínima pudessem ter mantido, ao longo dos anos, algum contato com ele, é muito difícil para ambas aceitá-lo enquanto simplesmente busca retornar quando por anos o abandono afetivo foi o sentimento mais forte nessa relação familiar.

 

Mais ainda do que isso, Gustav sempre foi também uma pessoa difícil de lidar - e continua sendo. Muito centrado em si, e em seu próprio universo, com certo egoísmo, ele deseja que Nora, atriz de teatro, possa protagonizar o que talvez seja o seu último filme da carreira. O convite não aceito, pontapé inicial do grande conflito estabelecido pela narrativa, é justamente o que leva os personagens, tanto quanto o espectador, em uma jornada rumo ao cinema como forma de terapia, e a arte, um instrumento de verdadeira aproximação.

 

A construção desse valor sentimental ao qual o título se refere constitui-se a partir de várias frentes no decorrer da narrativa, com habilidade e, especialmente, sensibilidade. A casa, por exemplo, apresentada em um excelente monólogo nos instantes iniciais, é trabalhada como um verdadeiro personagem, enquanto testemunha silenciosa de gerações de uma mesma família. Na medida em que conhecemos essas histórias, nos é oferecida uma compreensão maior também daqueles que nela residiram, e sobretudo, do filme a ser gravado dentro do filme, e da escolha de Gustav pela escalação da filha ao papel de protagonista.

 

Na mesma medida, Nora também sofre de um dilema moral - e quiçá social -, entre aceitar o personagem e trabalhar com o pai, e o incômodo dessa reaproximação forçada após anos de “negligência”. Sua ansiedade, o “medo” de atuar, e os sentimentos envolvidos são como antigas feridas nunca cicatrizadas, que de tempos em tempos abrem-se novamente, e voltam a sangrar, desestabilizando-a.

 

Em que pese um verdadeiro descompasso colocado diante da tela ao espectador, aos poucos essas relações se ajustam enquanto os personagens refletem acerca das próprias escolhas que fazem - e sobretudo, do filme que será filmado dentro do filme, e do peso que aquele roteiro escrito por Gustav apresenta em cima daquela família, dos motivos para o qual será filmado naquela residência específica, e das razões pelas quais talvez apenas Nora seja capaz de sentir o peso necessário para interpretar aquela protagonista, a qual a atriz convidada, bem vivida por Elle Fanning, se mostra incapaz de compreender em longas discussões com o diretor, o que ela mesma reconhece, e incomoda.

 

A direção de Joachim Trier é habilidosa nos indícios que coloca sobre o valor sentimental espalhado por toda aquela situação. Não à toa, quando trata sobre o passado, utiliza os mesmos atores para interpretar a família em flashes, justamente a demonstrar a influência que as gerações anteriores tiveram à formação de quem os personagens do presente efetivamente são. É sobre o peso de viver naquela família, de andar pelos corredores daquela casa que ecoam gerações, vivências e sentimentos entre o passado-presente-futuro, como se intimamente conhecesse cada uma daquelas pessoas, e mais do que a si mesmas, as compreendesse intimamente.

 

As escolhas de decupagem de Trier também potencializam a construção das pessoas que retrata, e sobretudo, abraça as críticas de seu próprio personagem Gustav, ao direcionar sua câmera aos olhares, e encontrar na profundidade da interpretação de Renate Reinsve um misto de melancolia e decepção nessa relação com o pai, e na encruzilhada sentimental em que se encontra, sobretudo na relação com a irmã, também excelente na pele de Inga Ibsdotter Lilleaas, com a qual demonstra uma intensa fraternidade. Da mesma maneira, vale também a rigidez da atuação de Stellan Skarsgård, incorporando um homem egoísta, com certo tom de arrependimento por quem foi ao longo da vida, mas orgulhoso demais para admitir.

 

Dessa maneira, Valor Sentimental vai muito além da metalinguagem, ao usar o cinema como instrumento de terapia pessoal, compreensão e reaproximação, a fim de se (re)atarem nós familiares, construindo o filme dentro do filme como reflexo de seus personagens, e de um legado familiar delicado, manifestando-se na casa, na passagem do tempo, nas atuações do próprio elenco, e na jornada sobre perdão. Nada que o diretor apresenta em frente à câmera é em vão, e cada uma das escolhas feitas, das inseguranças pessoais de Nora ao alcoolismo de Gustav, e a relação entre as irmãs os trabalha como humanos, e parte de uma mesma família, que agora, talvez, possa, ainda que tardiamente, se unir de verdade.

 

Avaliação: 5/5

 

Valor Sentimental (Sentimental Value / Affeksjonsverdi, 2025)

Direção: Joachim Trier

Roteiro: Joachim Trier e Eskil Vogt

Gênero: Drama

Origem: Noruega, Alemanha, Dinamarca, França, Suécia, Reino Unido, Turquia

Duração: 133 minutos (2h13)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: O reencontro das irmãs Nora e Agnes com seu pai distante, o carismático diretor Gustav, é marcado por uma proposta: Nora é convidada a estrelar o que seria o filme de retorno do outrora renomado cineasta. Quando Nora declina o papel, ela descobre que Gustav o entregou a uma jovem estrela de Hollywood, ambiciosa e cheia de entusiasmo. As duas irmãs são, então, obrigadas a lidar com a complicada relação paterna, agora intensificada pela presença inesperada dessa atriz americana inserida bem no centro de suas complexas dinâmicas familiares.

 
 
 

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