CRÍTICA | Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson (One Battle After Another, 2025)
- Henrique Debski

- 29 de set. de 2025
- 6 min de leitura
Em Uma Batalha Após a Outra, Paul Thomas Anderson manifesta sua decepção com a sociedade contemporânea, e explora o comodismo, o conformismo e hipocrisia das gerações, entre seus erros e acertos.

É praticamente impossível sair inerte de um filme assinado por Paul Thomas Anderson, quando um cineasta que não se preocupa apenas com a história sendo contada em tela, mas especialmente em como trabalha a imagem, constrói sentimentos a partir de suas composições, e se reinventa a cada novo projeto a partir de ideias frescas e originalidade, sempre versando sobre temáticas distintas, e com abordagens diferenciadas enquanto transita entre gêneros. Em Uma Batalha Após a Outra, novamente o diretor decide se aventurar na adaptação de uma obra do autor norte-americano Thomas Pynchon, onze anos após o longa mais divisivo de sua carreira, o considerado inadaptável neo-noire Vício Inerente – e um ótimo trabalho, diga-se de passagem.
No entanto, a adaptação no presente projeto é vagamente inspirada pelo livro de Pynchon Vineland (1990), se aproveitando de elementos básicos da obra literária para a construção de uma visão muito própria do diretor acerca da sociedade contemporânea, situando sua narrativa nos tempos presentes, que cai como uma luva ao atual momento vivido pelos Estados Unidos – e pelo próprio mundo como um todo.
Nesse diálogo que estabelece com a atualidade, Paul Thomas Anderson estrutura sua narrativa com dois enfoques distintos, que se encontram não apenas atrelados um ao outro, como simultaneamente sobrepostos ao longo da projeção. Trata-se de um olhar para o conformismo da sociedade diante do que lhes acontece, de lideranças fracas, de pessoas inertes, ideologias vazias e sem atitude, ao mesmo tempo que também trata sobre relações familiares, e a maneira como o passado de uma família, os meios de criação e o próprio espírito acaba, inevitavelmente, passando de pais para filhos, mesmo que de forma inconsciente, quando inerentes às pessoas.
Não há dúvidas de que Uma Batalha Após a Outra é a obra mais política do diretor. Ainda que já houvesse manifestado pontos de vista em outras oportunidades de sua filmografia, como no próprio Vício Inerente e em Licorice Pizza – no qual faz uma ode a seus tempos de infância, na Califórnia dos anos 1970 -, no presente longa o cineasta extravasa uma verdadeira decepção em relação aos rumos que a sociedade – e especialmente, seu país – vem tomando ao longo da última década.
De um prólogo intenso – retratando algum momento entre os anos 2000 e 2010, a uma transição para os tempos atuais -, o longa estabelece uma espécie de enfraquecimento e desgaste do pensamento progressista e “revolucionário”, “anticapitalista”, pelas mãos de seus próprios defensores. Se antes havia interesse em passar uma mensagem, espalhar ideias, e pessoas dispostas a lutar pelos próprios ideais, ao longo dos anos tudo se converteu em constantes “revoluções sociais” vazias, debates puramente acadêmicos, exageradamente técnicos, sem espaço para o diálogo propriamente, encabeçado por verdadeiros ativistas de sofá, que discordam e brigam entre si, manifestações inexpressivas e insignificantes, sem utilidade prática, e especialmente, muita hipocrisia.
Ao mesmo tempo que expõe esse enfraquecimento, porém, reconhece a violência do passado como medida exagerada, um caminho equivocado, e contraproducente na proliferação do debate que o grupo protagonista propõe – e quando trabalha com a ação, jamais apela ao aspecto gráfico, e menos ainda a espetaculariza, bem como não enxerga seus personagens como heróis. Não à toa pune seus personagens quando usam da força de maneira desmedida e desnecessária, e sobretudo a partir dela os aproxima dos verdadeiros inimigos, os vilões, que usam deste fato para se legitimar da violência como meio de combate adequado.
Quando chega ao presente, trabalha com uma realidade completamente transformada. O que os ditos revolucionários foram um dia hoje se limitam a pessoas atrás de um telefone dizendo que os outros precisam conhecer das bases da revolução, sem nunca nada ter feito na vida neste sentido, acomodadas em uma cadeira confortável, embaixo do ar-condicionado, apenas dizendo palavras das quais jamais sonharam em concretizar.
Nesse sentido, é como se o personagem de Leonardo DiCaprio, em mais uma grande atuação de sua carreira, representasse, também, a face de um espírito revolucionário que se perdeu com o tempo. Diferentemente do sujeito ao telefone, trata-se de alguém que, para além de um comodismo, e sobretudo, preocupação e cuidado com a família (na contramão da personagem de Teyana Taylor, motivo esse que talvez o tenha levado para esse caminho, em um quase completo antônimo), aposentou-se da vida que levara um dia, mas em momento algum deixou a própria chama se apagar – vide sua filha na obra, muito bem vivida por Chase Infiniti, que prova estar o espírito dos pais guardado dentro de si, afinal, o fruto não cai longe da árvore.
Na mesma medida, representa no personagem de Benicio Del Toro os novos tempos, de revoluções silenciosas, medidas sem alarde, quietas e humanitárias, cujas ações em si pelos outros são, no presente momento, mais valorizadas do que uma mensagem espalhafatosa, caótica e até contraditória.
E ao mesmo tempo, o perigo do mundo moderno fica sarcasticamente estampado na face do Coronel Lockjaw (ou “mandíbula travada”), vivido brilhantemente por Sean Penn, enquanto ideologicamente um fascista, é incapaz de crer em suas próprias ideologias quando um verdadeiro poço de contradições e também de constantes autoafirmações, em uma pose séria facilmente desconstruída em um encontro com a personagem de Infiniti, sobretudo pela maneira como Anderson inverte o duelo a partir da própria imagem, das posições na mise-em-scene, e os colocando sobre o mesmo nível na medida em que o diálogo avança.
E mais do que apenas isso, os demais momentos nos quais as ambições de Lockjaw são expostas – o que motiva todo o caos da narrativa –, é como se víssemos os verdadeiros planos de uma face neonazista da sociedade se esgueirando por debaixo dos panos, sem assumir o rótulo. Não são muitos, mas representam um perigo a depender de suas posições no tabuleiro do mundo. Claramente, apesar da seriedade da ameaça, o diretor também os retrata de maneiras patéticas, e regado a ironias e cafonices.
Toda essa guerra silenciosa estabelecida por Paul Thomas Anderson se constrói através de uma estética não apenas autoral, e típica do cineasta, mas com uma mistura de gêneros que prova muito da vitalidade de seu cinema. Na mesma medida em que se imerge em um drama revolucionário e familiar, com o passado batendo à porta do presente, a atmosfera caótica se constitui na base de um western contemporâneo (em uma das melhores cenas de perseguição dos últimos anos, com a fotografia retratando os altos e baixos da estrada tortuosa e, junto da montagem, potencializando o suspense, junto da trilha, sempre muito presente), sob as rédeas de um duelo embebido à vingança e até uma espécie de queima de arquivo, enquanto debate o mundo da geração Z e ligado às redes sociais sem nem sequer mencioná-las, mas através das atitudes tomadas por uma realidade dotada de comodismo e conformismo.
E ainda, enquanto drama familiar propriamente, Uma Batalha Atrás da Outra não apenas funciona pela relação que se estabelece entre pai e filha, com o carinho e cuidado manifestados em cena a todo tempo, como também realça os valores da criação, que os verdadeiros pais são aqueles presentes a todo momento, e que, inevitavelmente, tendemos a aprender com seus erros, ou tentar repará-los em nossas próprias vidas e destinos, mas dificilmente somos capazes de nos afastar de quem foram – e são – nossos pais.
Curiosamente, na manhã seguinte à que assisti ao filme, estava na academia quando começou a tocar Como Nossos Pais, música composta por Belchior, também cantada – e popularizada – por Elis Regina, e que totalmente sintetiza ideias que Paul Thomas Anderson trouxe em sua mais nova obra-prima, Uma Batalha Após a Outra – percepção essa que pelo visto não foi só minha, quando notei relações semelhantes feitas por colegas também no Letterboxd. Com certeza um dos melhores filmes do ano, e quiça da década – simplesmente inesquecível, tal como o também deste ano Pecadores, de Ryan Coogler. Que ano!
Avaliação: 5/5
Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another, 2025)
Direção: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson, vagamente adaptado e inspirado em Thomas Pynchon (livro).
Gênero: Thriller, Drama, Comédia
Origem: EUA
Duração: 161 minutos (2h41)
Disponível: Cinemas
Sinopse: Bob é um revolucionário decadente que vive em estado de paranoia e chapado, sobrevivendo fora do sistema com sua filha Willa, espirituosa e independente. Quando um inimigo ressurge e Willa desaparece, o ex-radical se desespera para encontrá-la, enquanto pai e filha enfrentam as consequências do passado.
“Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais”
("Como Nossos Pais", 1976, composta por Belchior).



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