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CRÍTICA | Vitória, de Andrucha Waddington (Idem, 2025)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • 19 de mar. de 2025
  • 3 min de leitura

Com Fernanda Montenegro brilhando em frente às câmeras, Vitória perde a oportunidade de um discurso mais eloquente.



Uma das maiores atrizes brasileiras – senão a maior de todas -, Fernanda Montenegro retorna às telas dos cinemas, depois de um hiato que se iniciou em 2020 (e sem considerar seus poucos minutos de tela de Ainda Estou Aqui), para Vitória, a história de uma senhora octogenária que, em 2005, ajudou a desmantelar uma organização criminosa de traficantes no Rio de Janeiro apenas filmando suas atividades da janela de seu apartamento.

 

Toda a produção foi pensada muito antes da verdadeira figura de Vitória ser conhecida, cuja identidade, Joana da Paz, só fora revelada depois de seu falecimento, em 2023, quando o filme, além de filmado, já tinha Fernanda Montenegro como protagonista. A produção, às cegas, baseada na obra do jornalista Fábio Gusmão, que acompanhou o caso de perto à época, e é representado no longa através do personagem vivido por Alan Rocha, inicialmente seria dirigido por Breno Silveira, que assinou o roteiro ao lado de Paula Fiuza. No entanto, em razão de seu falecimento precoce, a direção foi assumida por Andrucha Waddington.

 

Ao longo dos primeiros minutos da projeção, acompanhamos a rotina comum e pacata da protagonista, em seus afazeres diários e com tranquilidade, logo interrompida pela violência advinda da organização criminosa que lidera a comunidade vizinha, cuja porta de entrada se situa a sua frente, do outro lado da rua.

 

Através do próprio apartamento da protagonista, exposto às balas perdidas e com uma visão ‘privilegiada’ de um ambiente permeado pelas drogas ilícitas e pela violência, a câmera de Waddington, ao aproximar-se do rosto de Montenegro, busca por uma experiência sensorial ao espectador, enquanto se esforça para que sinta na pele o medo e apreensão da personagem em viver naquele local que, cada vez mais, torna-se hostil. A escalação da atriz, então, se prova como um dos maiores trunfos da produção, pois é através de suas feições que não apenas nos simpatizamos, mas nos preocupamos com ela, sentindo aquilo que ela sente, o que justifica sua jornada de embarcar em uma “Janela Indiscreta à brasileira”.

 

Além do mais, toda a metáfora elaborada no entorno da xícara se mostra uma maneira criativa de responder à sua realidade com os atos praticados pela personagem, em prol daquilo que acredita e decide combater, através de uma rima narrativa interessante enquanto materializa consequências no plano da imagem.

 

No entanto, apesar desse esforço em construir uma experiência sensorial e angustiante a partir de um sentimento claustrofóbico e de aprisionamento, quanto mais se encaminha para o fim mais o longa parece abandonar essa ideia. São algumas situações forçadas, que objetivam o estabelecimento de vínculos entre todos os personagens envolvidos na teia e conectados, entre as funções alegóricas da imprensa, da polícia militar, civil e do próprio crime organizado que parece não se adequar perfeitamente à proposta. Em algumas oportunidades, é plenamente compreensível enquanto as ameaças se direcionam diretamente à protagonista, mas em outras, uma quebra para alívio cômico, por exemplo, mais atrapalha na atmosfera que se tenta construir do que efetivamente colabora.

 

Dessa maneira, por vezes Vitória parece um filme que não sabe exatamente quais passos deseja tomar, e nem sob quais perspectivas pretende debater os assuntos que coloca na mesa, entre os efeitos das drogas ilícitas, o envolvimento de crianças no crime, a ineficiência dos órgãos de segurança pública, corrupção, burocracia, o preconceito (manifestado no condomínio) ou até mesmo, de maneira mais complexa, o como a personagem conseguiu desmantelar e expor toda a organização criminosa, algo que parece simplificado demais para um filme que deseja explorar essa história real com tons de maior realismo, quando as vezes nem mesmo um tom de ameaça convincente consegue criar na reta final, apressada e até um tanto convencional demais nas escolhas criativas, em relação ao restante da obra.

 

Assim, creio que Vitória não deixe de dizer a que veio, mas perde a oportunidade de aprofundar seus debates e de se engajar mais dentro de todo um contexto político no qual está indiscutivelmente envolvido. E não é uma questão de partidarismo ou preferência de governo, mas sobre a eficiência do Estado em si e de suas funções, trabalhadas superficialmente ao dar preferência à veia dramática e ao próprio thriller, simplificando e escanteando boas oportunidades de trazer discussões à tona, que se em 2005, quando a narrativa se situa, já eram problema, hoje são ainda mais.

 

Avaliação: 3/5

 

Vitória (Idem, 2025)

Direção: Andrucha Waddington

Roteiro: Breno Silveira e Paula Fiuza, adaptado de Fábio Gusmão (livro)

Gênero: Drama, Thriller

Origem: Brasil

Duração: 112 minutos (1h52)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: Baseado em uma história real, Vitória conta a história de uma senhora de 80 anos que, sozinha, desmantelou um esquema de tráfico de drogas em Copacabana apenas filmando as atividades criminosas através de sua janela.

(Fonte: IMDB - Adaptado)

 
 
 

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