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25º TRIBECA FILM FESTIVAL | Deepfake, de Matt Eames (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 1 dia
  • 7 min de leitura

Em jornada de desespero por atenção, Matt Eames faz de Deepfake uma sátira às redes sociais e a cultura de influencers, colocando em xeque alguns dos piores aspectos de uma sociedade viciada no digital.


 

O cinema, como manifestação cultural e artística, é um produto de seu tempo. Natural, então, em se falar sobre a realidade contemporânea, os assuntos do momento, as temáticas da vez, e debater sobre o caminhar da humanidade por meio de ficções. É notório, ao menos para mim, que o cinema norte-americano, em 2026, vem demonstrando severa preocupação com as redes sociais, e seus efeitos para além da realidade online. Sob as vestes do terror, Appofeniacs, de Chris Marrs Pilliero, debateu os deepfakes como instrumentos de caos social e midiático; e até longas de franquias conhecidas, como Pânico 7 e a nova versão de Faces of Death abordaram a temática em seus próprios universos, como reflexos do presente, com assassinos usando as redes sociais como forma de atrair e manipular suas vítimas.

 

Deepfake, dessa maneira, se desvia do horror, ao tratar do tema através de uma comédia satírica. A protagonista, Jane, não passa de uma pessoa comum – mulher, na casa dos trinta anos, de classe média, buscando por um relacionamento sério e tentando superar o término com o ex-companheiro. Os instantes iniciais são eficazes em explorar sua insegurança, na medida em que, durante quase cinco minutos, a assistimos fazendo tarefas do dia-a-dia, seguindo a rotina, enquanto se apresenta, com uma voz em off. No entanto, ela o faz várias vezes. Entendemos que Jane não se apresenta para nós, espectadores, necessariamente, mas escreve um texto de apresentação para si em aplicativos de relacionamento, recomeçando toda vez que acha não ter ficado legal algo que disse, o que acontece muitas vezes.

 

É então que, vasculhando pela internet, encontra um aplicativo para “contratar” uma amiga para si, quando nem mesmo com seus próprios amigos ela consegue se enturmar. Surge, nessa amizade, uma ideia de repaginada das redes sociais, com vistas a novamente chamar a atenção de seu ex. Então, a bola de neve começa a rolar.

 

Falando como uma pessoa que se envergonha, em partes, da própria geração, desse universo falso, de vídeos curtos, vida perfeita, dancinhas e humilhação por “likes” e engajamento em redes sociais – quando as pessoas não perdem a vida por conta disso, o que acontece com uma frequência inimaginável –, um filme como Deepfake, que explora o processo de nascimento de uma influencer digital, é quase como um filme de terror.

 

Jane, como uma personagem tímida e socialmente deslocada, desesperada por atenção, encontra muito bem no carisma de Jessica DiGiovanni um reforço aos questionamentos propostos pelo roteiro, a partir do momento em que deixa de viver a própria vida em prol das redes sociais, tornando a própria existência uma grande mentira para que outras pessoas sonhem com algo que não é, e nem nunca foi, uma verdade real. O ar dinâmico e acelerado das redes é muito bem emulado a partir da montagem, assinada pelo próprio diretor, mas sem apelar ao estilo “TikTok” de bombardear o espectador com estímulos visuais a todo instante. Trata-se de uma abordagem que acompanha o ritmo corrido da nova rotina da personagem, a qual explora tão somente o próprio corpo nas redes, quando todas as demais funções de sua vida são terceirizadas, inclusive seu trabalho.

 

Há uma crítica construída no entorno dessa narrativa que abraça o absurdo, relacionada ao mau uso das redes sociais, internet e dos aplicativos como forma de conectar pessoas. Enquanto podem fazer muito bem à sociedade, os malefícios se mostram igualmente presentes, por meio de golpes e estelionatos, exploração de subempregos, informalidade e do trabalho de pessoas no outro lado do mundo, residentes em países menos desenvolvidos; e sobretudo, uma completa alienação acerca da vida real, incentivando a “memória curta”, o vício em telas, tudo a partir da crença de que tudo o que se vê nas redes pode ser real, enquanto o espectador torna-se tão ansioso quanto a protagonista no meio do caos que tomou conta de sua vida, apenas para tentar reconquistar seu ex-namorado.

 

É uma pena que Deepfake, em sua reta final, não saiba exatamente onde chegar com sua narrativa. Com uma boa reviravolta próxima dos últimos instantes, e de uma completa visão distinta dos fatos compartilhados pelas pessoas nas redes sociais, há uma perda da verossimilhança que compromete a jornada de Jane, nessa espiral de loucura e ansiedade. De tanto se empolgar com algo cada vez maior, saindo do controle, um aspecto mirabolante faz a obra traçar caminhos absurdos até demais pelo que se propunha, culminando num final abrupto – o que chega a ser engraçado, pelo anticlímax como uma forma de abraçar tudo aquilo que as redes sociais rejeitam, mas por outro lado exagerado pela maneira como se chega naquele ponto. Mesmo assim, não perde o senso de urgência, e até certo aspecto de atualidade, como um bom reflexo para a posteridade do adoecimento virtual do mundo presente.

 

Avaliação: 3.5/5

 

Deepfake (Idem, 2026)

Direção: Matt Eames

Roteiro: Matt Eames

Gênero: Comédia, Drama

Origem: EUA, Itália

Duração: 86 minutos (1h26)

Exibido no 25º Tribeca Film Festival (Viewpoints).

 

Sinopse: Após um término de relacionamento, Jane, uma millennial sem rumo, contrata uma equipe de consultores da geração Z para reinventar sua vida. Mas o que começa como uma transformação pessoal logo se transforma em uma afiada sátira das redes sociais, abordando a cultura dos aplicativos, a obsessão pela imagem e o preço de se tornar outra pessoa.

 

English review

 

In a desperate quest for attention, Matt Eames turns Deepfake into a satire of social media and influencer culture, calling into question some of the worst aspects of a society addicted to the digital world.

 

Cinema, as a cultural and artistic expression, is a product of its time. It is only natural, then, for it to engage with contemporary reality, current issues, and the dominant themes of the moment, debating the course of humanity through fiction. It has become particularly noticeable to me that American cinema in 2026 has shown a deep concern with social media and its effects beyond the online sphere. Through the lens of horror, Chris Marrs Pilliero's Appofeniacs explored deepfakes as instruments of social and media chaos; even franchise films such as Scream 7 and the new version of Faces of Death have addressed the topic within their own universes, reflecting the present day through killers who use social media to attract and manipulate their victims.

 

Deepfake, however, moves away from horror and approaches the subject through satirical comedy. Its protagonist, Jane, is an ordinary person - a middle-class woman in her thirties searching for a serious relationship while trying to move on from a breakup with her former partner. The opening moments are highly effective in exploring her insecurities, as for nearly five minutes we watch her perform everyday tasks and follow her routine while introducing herself through voice-over narration. However, she does this repeatedly. We gradually realize that Jane is not introducing herself to us, the audience, but rather writing a personal description for dating apps, starting over every time she feels dissatisfied with something she has written - which happens frequently.

 

While browsing the internet, she discovers an app that allows users to "hire" a friend, at a moment when she cannot even seem to connect with her own circle of friends. Out of this newfound friendship emerges the idea of reinventing her social media presence in an attempt to regain her ex-boyfriend's attention. From there, the snowball begins to roll.

 

Speaking as someone who is, in some ways, embarrassed by my own generation and this world of curated perfection, short-form videos, choreographed dances, and public humiliation in exchange for likes and engagement - not to mention the alarming frequency with which people lose their lives because of it - a film like Deepfake, which explores the birth of a digital influencer, almost feels like a horror movie.

 

As a shy and socially awkward character desperately seeking validation, Jane finds in Jessica DiGiovanni's charisma the perfect vehicle for the screenplay's central questions. The moment she stops living her own life in favor of social media, transforming her existence into a carefully constructed lie so that others may dream about something that neither is nor ever was real, the film's critique becomes particularly sharp. The fast-paced, dynamic atmosphere of online culture is skillfully recreated through the editing, handled by Eames himself, without resorting to the TikTok-style barrage of constant visual stimuli. Instead, the film adopts a rhythm that mirrors Jane's increasingly hectic routine, one in which she reduces herself to her online image while outsourcing virtually every other aspect of her life, including her work.

 

Surrounding this narrative is a critique that fully embraces absurdity, focusing on the misuse of social media, the internet, and digital platforms intended to connect people. While these technologies can certainly benefit society, the film highlights their darker consequences as well: scams and fraud, exploitative labor practices, informal employment, the dependence on workers living in less developed countries, and above all a profound alienation from real life. It examines how social media encourages short attention spans, screen addiction, and the belief that everything presented online must be genuine, while the audience becomes almost as anxious as the protagonist amid the chaos consuming her life - all in pursuit of winning back her former boyfriend.

 

It is unfortunate that Deepfake seems uncertain about where to take its story in its final stretch. Following a strong twist near the conclusion and a radically different perspective on the events people choose to share online, the film loses some of its sense of plausibility, weakening Jane's journey through this spiral of anxiety and madness. In becoming increasingly fascinated by its own escalating premise, an overly elaborate narrative turn pushes the story into territory that feels excessively absurd even by its own standards, culminating in an abrupt ending. This is amusing in a way, thanks to its anticlimactic embrace of everything social media tends to reject, yet it also feels exaggerated because of how the film arrives at that point. Even so, it never loses its urgency or its relevance as a snapshot of the virtual sickness afflicting the modern world, preserving its value as a compelling reflection of the present for future generations.


Deepfake premiéred at 25th Tribeca Film Festival (Viewpoints).

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