25º TRIBECA FILM FESTIVAL | Sad Girlz, de Fernanda Tovar (Chicas Tristes, 2026)
- Henrique Debski

- há 1 dia
- 6 min de leitura
Em drama delicado, Sad Girlz trabalha as fragilidades de duas adolescentes obrigadas a amadurecer precocemente, explorando sentimentos através da imagem, em realidade mais preocupada em rotulá-las do que oferecer apoio.

É curioso o fato de que, neste ano, Sad Girlz é o segundo longa mexicano que assisto a abordar a delicada temática da gravidez na adolescência, em circunstâncias indesejadas, ocorridas sob alguma forma de violência. Quince, dirigido pela dupla Jack e Yossy Zagha, que assisti no Fantaspoa, versou sobre essas ideias em uma abordagem voltada ao terror, com inspirações que misturam clássicos do gênero para uma história sobre monstros, amizade e maternidade precoce em meio às tradicionais festas de quinze anos, com alguns contornos bastante problemáticos.
De maneira completamente oposta, Fernanda Tovar explora o mesmo eixo temático a partir de um drama de amadurecimento, com a delicadeza que suas personagens demandam enquanto adolescentes se preparando para a vida. A temática central da narrativa se faz bastante clara desde os primeiros instantes, quando acompanhamos as melhores amigas Maestra e Paula (muito bem vividas pelas jovens Rocio Guzman e Darana Alvarez, respectivamente) conversando, por diversas oportunidades, sobre garotos, seus interesses românticos e aspirações ao primeiro ato sexual de suas vidas. Tudo se constrói em um ambiente escolar, no qual ambas integram a equipe de natação, e em breve terão a oportunidade de viajar ao Brasil para uma competição.
No entanto, de um instante para outro, tudo muda. Em uma festa, uma ida rápida de Paula ao banheiro, acompanhada de seu interesse romântico, como um flash, a faz repensar as escolhas feitas. Inicialmente quieta, demora a revelar para a amiga, no dia seguinte, meio sem graça, que a perda da virgindade não foi um momento memorável e tampouco especial. Pelo contrário, não havia consentimento expresso de sua parte; e, para piorar, agora enfrenta sintomas que podem sugerir uma possível gravidez.
Não é um cenário fácil para lidar. Na escola, impossível tratar do assunto sem ficar com o estigma; dentro de casa, reside o medo da reação do pai. Resta apenas uma amizade para definir, com certeza, os passos seguintes, e enfrentar este mar turbulento com a cabeça erguida.
Em tempos de um cinema cada vez mais ágil, interessado em finalidades, para acompanhar a velocidade das redes sociais, um filme como Sad Girlz, mais preocupado com o meio do que com o fim, tem se tornado fato raro. A direção de Tovar pouco se interessa pelo resultado final – ainda que o mesmo exista -, e faz do processo de tomada de decisão das personagens o seu verdadeiro objeto de olhar, cuja câmera busca, a todo tempo, refletir seus sentimentos.
Tendo a natação como um dos muitos elos comuns entre Maestra e Paula – tanto como um objeto de conflito, quando o garoto responsável pelo ato também integra o time –, os momentos dentro da piscina refletem seus estados de espírito, tal como usam do meio aquático, e do próprio treino, como forma de extravasar as ansiedades, tanto praticando, ou deixando de, e até se escondendo ao fundo da piscina, como o faz em determinado momento. Mais do que isso, Tovar deixa sua maior marca ao refletir a imagem das personagens sob um espelho quebrado ao chão, em diversos pedaços. É o retrato da fragmentação de adolescências, rompidas pela violência de gênero, atreladas a um aspecto de impunidade do agressor (não vilanizado pela narrativa, e tampouco pela direção, retratado como alguém que sequer consegue reconhecer o próprio erro, em um aspecto ambíguo, entre a malícia e a própria falta de noção, efeito de um sintoma social infinitamente mais grave), obrigadas a amadurecer precocemente e pensar como adultas, em um meio mais disposto a julgá-las e rotulá-las do que estender a mão para oferecer apoio.
Acompanhado por uma trilha que evoca canções brasileiras (no caso, Meu Lugar, de Arlindo Cruz, em momento importante da trama) até como forma de colocar em mente a proximidade da competição no Rio de Janeiro, Sad Girlz revela uma sensibilidade ímpar em seu olhar de compaixão às personagens, fragilizadas por uma necessidade de amadurecimento precoce em um meio tão áspero, até mesmo no interior das próprias residências. Ao invés de se deleitar no retrato dramático da dor, como tantos filmes habitualmente o fazem, Fernanda Tovar abraça suas personagens com o coração, e as retrata com a ternura e delicadeza no enfrentamento desse momento de dificuldade, imprimindo em tela seus sentimentos, através da imagem, ao mesmo tempo que incomoda positivamente o espectador nesse retrato sincero de uma realidade dolorosa, como forma de nos colocar em seus lugares.
Avaliação: 4.5/5
Sad Girlz (Chicas Tristes, 2026)
Direção: Fernanda Tovar
Roteiro: Fernanda Tovar
Gênero: Drama
Origem: México, Espanha, França
Duração: 90 minutos (1h30)
Exibido no 25º Tribeca Film Festival
Sinopse: Dois nadadoras adolescentes no México se preparam para uma grande competição no Brasil, enquanto lidam com um trauma que transforma suas vidas.
English review
In a delicate coming-of-age drama, Sad Girlz explores the fragility of two teenage girls forced to grow up too soon, expressing their emotions through imagery in a reality more concerned with labeling them than offering support.

It is interesting that Sad Girlz is the second Mexican film I have seen this year to address the sensitive subject of teenage pregnancy resulting from unwanted circumstances connected to some form of violence. Quince, directed by Jack Zagha and Yossy Zagha, which I watched at Fantaspoa, approached similar ideas through horror, blending inspirations from genre classics into a story about monsters, friendship, and early motherhood amidst the traditional fifteen-year-old birthday celebrations, with some rather problematic undertones.
In a completely different fashion, Fernanda Tovar explores the same thematic territory through a coming-of-age drama, treating her characters with the delicacy demanded by adolescents preparing to enter adulthood. The central concern of the narrative becomes apparent from the very beginning, as we follow best friends Maestra and Paula - beautifully portrayed by Rocio Guzman and Darana Alvarez, respectively - discussing boys, romantic interests, and their expectations surrounding their first sexual experiences. Everything unfolds within a school environment where both girls belong to the swim team and are preparing for an upcoming competition in Brazil.
Then, in an instant, everything changes. At a party, Paula briefly goes to the bathroom accompanied by her romantic interest and, in what feels like a flash, finds herself reevaluating the choices she made. Initially withdrawn, she hesitates before admitting to her friend the next day, somewhat awkwardly, that losing her virginity was neither memorable nor special. On the contrary, there was no clear consent on her part; and, to make matters worse, she now faces symptoms that suggest a possible pregnancy.
It is not an easy situation to navigate. At school, discussing the issue means risking social stigma; at home, she fears her father’s reaction. In the end, friendship becomes her only certainty, helping her determine the next steps and face this turbulent moment with courage.
At a time when cinema increasingly prioritizes outcomes and immediacy, often mirroring the speed of social media, a film like Sad Girlz - more interested in the journey than the destination - feels increasingly rare. Tovar shows little concern for the final outcome, even though one certainly exists, and instead turns the characters’ decision-making process into the true focus of her gaze, with a camera constantly seeking to reflect their emotional states.
Swimming serves as one of the many bonds connecting Maestra and Paula - and eventually as a source of conflict, since the boy involved in the incident is also a member of the team. The sequences in the pool mirror their emotional landscapes, as water and training become outlets for anxiety, whether through participation, withdrawal, or even moments of hiding beneath the surface, as one of the girls does at a crucial point in the film. More importantly, Tovar leaves her strongest visual mark through recurring images of the girls reflected in shattered mirrors scattered across the floor. It is a powerful representation of adolescence fractured by gender-based violence, tied to the aggressor’s relative impunity. Neither the narrative nor the direction transforms him into a conventional villain; instead, he is portrayed as someone incapable of fully recognizing his own wrongdoing, occupying an ambiguous space between malice and ignorance - itself a symptom of a far deeper social problem. Meanwhile, the girls are forced into premature adulthood, compelled to think and act like grown women within a society more willing to judge and label them than to offer support.
Accompanied by a soundtrack that evokes Brazilian music - most notably through the use of “Meu Lugar” by Arlindo Cruz during a pivotal moment in the story - and serving as a reminder of the upcoming competition in Rio de Janeiro, Sad Girlz reveals a remarkable sensitivity in its compassionate gaze toward its characters, whose vulnerability stems from the need to grow up too quickly within such a harsh environment, even within the confines of their own homes.Rather than dwelling on pain for dramatic effect, as so many films often do, Fernanda Tovar embraces her protagonists with genuine empathy, portraying them with tenderness and care as they confront this difficult chapter of their lives. Through its imagery, the film externalizes their emotions while simultaneously challenging viewers through its honest depiction of a painful reality, inviting us to step into their shoes and experience the world from their perspective.
Sad Girls was screened at 25th Tribeca Film Festival.



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