25º TRIBECA FILM FESTIVAL | The Tropic Sun and His Eyes, de Elisee Junior St Preux (Idem, 2026)
- Henrique Debski

- há 2 dias
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Em uma delicada jornada de reflexão, The Tropic Sun and His Eyes discorre sobre perdão a partir de uma viagem pelo interior do Haiti, no contato entre o passado e o presente de uma relação pai e filho.

Sob o sol escaldante do Haiti, Elisee Junior St Preux inicia The Tropic Sun and His Eyes, sua estreia na direção de longas-metragem, com vistas a explorar a situação contemporânea de seu país, enquanto o protagonista Ruben caminha rumo à praia, a fim de chegar em uma embarcação para dar início a uma jornada para o interior. As imagens produzidas oferecem uma contraposição desde cedo muito interessante, ao mesclar a instabilidade da economia local com a riqueza cultural dos haitianos, a partir da música e da dança. Ao mesmo tempo, flashes de um dia de praia no passado são intercalados com essa caminhada no presente, como memórias prestes a serem desbloqueadas, quando nos é revelado que o personagem ruma a encontrar com seu pai, que está doente, no interior do país.
Uma certa frieza no olhar de Stevenson Jean, que interpreta Ruben, é suficiente para compreendermos que não se encontra com o pai há bastante tempo. A tristeza refletida em sua face deve-se a uma mescla de sentimentos estampados desde a primeira cena, entre o arrependimento e a dor, cobertas sob o receio do que pode acontecer durante uma reconciliação, que inevitavelmente, precisará enfrentar para seguir em frente com a própria vida.
Ao longo dessa jornada, Ruben se depara com uma criança de rua, inominada, interpretada graciosamente pelo carismático Blangue Machiny, que atua, espiritualmente, dentro da narrativa, como uma outra face do protagonista, porquanto sozinho e sem família, sorrindo para toda e qualquer pessoa ou situação pela qual se depara à frente. Essa amizade improvável, que culmina em uma jornada guiada, usa da antítese dos personagens como uma alavanca para que se construam em uma caminhada de amadurecimento, cada qual a sua forma. No decorrer do tempo, abrem-se um para com o outro, apresentando o que há de mais frágil em suas personalidades e histórias de vida, e mostrando suas faces mais doloridas, que, ao final, culminam no mesmo ponto, ainda que de maneiras completamente distintas: na falta de uma família, seja pela inexistência desta, ou pela ausência de apoio em suas escolhas de vida.
Ainda que a presença da criança na narrativa seja uma forma de representar uma faceta de Ruben, no plano concreto sua existência é por mais de uma vez reforçada pela mise-en-scène e sua interação com demais pessoas que encontram pelo caminho – esclarecendo que não se trata de uma ilusão do protagonista, mas de uma pessoa real que o acompanha durante a jornada. É o ponto no qual Elisee Junior St Preux se depara com a maior fragilidade do longa, na medida em que todo seu arco, de certa forma secundário, opera através de soluções que beiram o fantasioso e até o irreal, mesmo que não caminhe sempre para este sentido. Torna-se estranha a maneira como se conclui a presença do garoto em cena, muito apressadamente para que o protagonista possa, finalmente, enfrentar seus demônios pessoais ao se reencontrar com a família.
Esse encontro de Ruben com o ambiente familiar faz o clímax de The Tropic Sun and His Eyes muito mais impactante. Habilmente tendo trabalhado os relatos do personagem sobre suas desavenças com o pai, e flashes de alguns dos melhores momentos que os dois viveram juntos, com uma câmera muito próxima de sua versão criança, em uma fotografia de cores intensas, o desenrolar não vai além de um diálogo sincero com a família extensa, e uma troca de olhares com o genitor. A decupagem de St Preux trabalha todo uma relação permeada por trauma e perdão a partir do silêncio, e de uma reconexão que apenas foi possível em razão de toda a experiência acumulada pelo protagonista em sua caminhada através do Haiti para a chegada à casa do pai, e suas trocas com o garoto.
É então um filme que frisa, por diversas oportunidades, a reflexão como o carro-chefe de sua narrativa, e sobretudo do perdão em tempo, para evitar o arrependimento futuro. Tudo isso é permeado com uma atmosfera mística, que valoriza e explora através do ambiente a diversidade e riqueza da cultura haitiana, em um ótimo projeto pessoal de um diretor estreante.
Avaliação: 3.5/5
The Tropic Sun and His Eyes (Idem, 2026)
Direção: Elisee Junior St Preux
Roteiro: Elisee Junior St Preux
Gênero: Drama
Origem: Haiti
Duração: 80 minutos (1h20)
Exibido no 25º Tribeca Film Festival
Sinopse: Viajando a pé, um jovem retorna ao Haiti para se reconectar com seu pai, de quem está afastado. Quando um persistente menino de rua se recusa a parar de segui-lo, Ruben faz um acordo: se o garoto o ajudar a encontrar um atalho e mantiver certa distância, poderá continuar acompanhando-o.
English review
In a delicate journey of reflection, The Tropic Sun and His Eyes explores forgiveness through a voyage across the Haitian countryside, examining the intersection of past and present within a father-son relationship.

Beneath Haiti's scorching sun, Elisee Junior St Preux opens The Tropic Sun and His Eyes, his feature directorial debut, with an intent to explore the contemporary reality of his country. The protagonist, Ruben, walks toward the shore to board a vessel that will carry him inland. The resulting imagery creates an intriguing contrast from the outset, juxtaposing the instability of the local economy with the cultural richness of the Haitian people through music and dance. At the same time, flashes of a day spent at the beach in the past are intercut with this present-day journey, like memories on the verge of resurfacing, until we learn that Ruben is traveling to visit his ailing father in the countryside.
A certain coldness in the gaze of Stevenson Jean, who plays Ruben, is enough for us to understand that he has not seen his father in a very long time. The sadness reflected on his face stems from a mixture of emotions evident from the very first scene - regret and pain concealed beneath the fear of what may happen during a reconciliation he must inevitably confront in order to move forward with his own life.
Along the way, Ruben encounters an unnamed street child, gracefully portrayed by the charismatic Blangue Machiny. Spiritually speaking, the boy functions within the narrative as another facet of the protagonist - alone and without a family, yet smiling at every person and situation he encounters. This unlikely friendship, which evolves into a shared journey, uses the characters' opposing personalities as a catalyst for mutual growth, each in their own way. Over time, they open up to one another, revealing the most vulnerable aspects of their personalities and life stories, exposing their deepest wounds. Ultimately, both arrive at the same emotional destination, albeit through entirely different paths: the absence of family, whether through its literal nonexistence or through a lack of support for one's life choices.
Although the child's presence in the story serves as a representation of one aspect of Ruben, his existence within the film's reality is repeatedly reinforced through the mise-en-scène and his interactions with other people they encounter on the road - making it clear that he is not a figment of the protagonist's imagination, but a real companion on the journey. It is here that Elisee Junior St Preux encounters the film's greatest weakness, as the boy's somewhat secondary narrative arc occasionally relies on solutions that verge on the fantastical and even the implausible, despite not always moving in that direction. The manner in which his presence ultimately concludes feels somewhat strange and rushed, seemingly designed to allow the protagonist to finally confront his personal demons upon reuniting with his family.
That reunion makes the climax of The Tropic Sun and His Eyes all the more powerful. Having skillfully developed Ruben's accounts of his conflicts with his father, alongside flashes of some of their happiest moments together - captured through a camera that remains close to his childhood self and enhanced by richly saturated cinematography - the resolution unfolds through little more than a heartfelt conversation with his extended family and an exchange of glances with his father. St Preux's shot composition builds an entire relationship shaped by trauma and forgiveness through silence, and through a reconnection made possible only by the experiences Ruben accumulates during his journey across Haiti and his interactions with the boy.
The film consistently emphasizes reflection as the driving force behind its narrative, particularly the importance of forgiveness before it is too late, in order to avoid future regret. All of this is enveloped in a mystical atmosphere that celebrates and explores the diversity and richness of Haitian culture through its environment, resulting in a remarkable personal project from a first-time feature filmmaker.
The Tropic Sun and His Eyes was screened at 25th Tribeca Film Festival.



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