30º FANTASIA FILM FESTIVAL | Attack on Paradise, de Bob Colaers (Idem, 2026)
- Henrique Debski

- há 23 horas
- 7 min de leitura
Com estética narrativa inspirada em videogames, Attack on Paradise valoriza as coreografias em ação frenética, carregadas de dramas morais e desconstruções de realidades opostas.

Logo na primeira cena, Attack on Paradise, que fez sua première mundial nesta edição do Fantasia, já demonstra interesse na abordagem por um conflito que, de certa maneira, torna-se cada vez mais inflamado ao redor do mundo através das redes sociais, discursos políticos e extremismos para todos os lados. Trata-se do protagonista, Soleyman, um homem de origem marroquina, nascido e criado na Bélgica, sendo violentamente abordado por policiais em uma noite nas ruas de uma cidade de seu próprio país. Depois de quase ser atropelado pela viatura enquanto atravessava a rua, com os ânimos um tanto exaltados, retornando para casa a fim de levar um medicamento para sua mãe, já idosa e doente, perde a razão ao reagir com mais intensidade à violência a qual o submetem, levando a morte (ou graves ferimentos, não fica exatamente claro) os dois oficiais.
O filme, porém, não enxerga Soleyman como um herói – ao menos não por isso. Apesar da reação à situação vexatória e injusta, evidentemente desproporcional aos olhos do próprio personagem, fruto de um momento de fúria e preocupação, não são seus sete anos encarcerado que o fazem se arrepender do ocorrido. Através de uma veia dramática, sua saída da prisão, e jornada ao longo da narrativa, trabalha as perdas que tivera em sua família por não se encontrar próximo a eles nestes anos, quando mais precisaram de apoio. É algo que a ótima atuação de Saïd Boumazoughe na pele do personagem ilustra com precisão, em seu olhar dotado de uma tristeza muito singular, que complementa um certo excesso de exposição contida no roteiro quando explora esse passado e sentimentos em meio à ação e urgência da narrativa.
De outro lado, a policial Yasmine, vivida por Clara Cleymans, oferece um contraponto à situação apresentada na primeira cena. Parte da equipe de operações especiais, deixa sua filha na escola e segue para o trabalho, em sua primeira missão, na qual duas equipes são designadas para atacar o prédio Paradise, dominado por uma organização criminosa liderada justamente por um homem de origem árabe.
Naturalmente, Soleyman e Yasmine acabarão se encontrando no caminho, quando o protagonista se vê preso em meio ao fogo cruzado, ao visitar sua mãe, que reside no prédio invadido. O olhar da direção volta-se à violência que entorna o lugar, um bairro de classe média baixa, cujo edifício, antes seguro, agora se mostra um local hostil para viver, no qual cada andar representa uma frente criminosa diferente na qual o grupo opera – de armas, drogas até tráfico de pessoas e gerenciamento sexual.
Os conflitos morais que envolvem os personagens funcionam como uma espécie de espelho: na superfície, e no que tange à sobrevivência, ambos são responsáveis pelas próprias famílias, como as únicas pessoas a quem podem recorrer (seja a mãe, no caso dele; e a filha, no caso dela). Mais profundamente, em uma segunda camada, desconstroem noções acerca dos grupos opostos, e ao olhar um para o outro, abandonam estereótipos consolidados internamente. No caso de Soleyman, vê que nem todo policial é necessariamente violento; e no caso de Yasmine, que nem todo árabe é criminoso. No entanto, em uma terceira camada, assistem e reagem às próprias realidades, quando a violência policial se manifesta entre civis, mortos pelas forças especiais na invasão do prédio, sem qualquer preocupação; e que a existência da organização criminosa instalada no condomínio o tornou um local insalubre, submetendo pessoas inocentes e pessoas de baixa renda à violência, sem opção de escapatória, quase como verdadeiros refugiados em suas próprias residências.
A ação, nesse sentido, é a forma como Attack on Paradise encontra para trabalhar essa reação. Sob uma estética que nos remete a jogos de videogame, no decorrer da narrativa, na medida em que os protagonistas sobem no prédio, mudam as ameaças, assim como tornam-se também mais desafiadoras, cada qual adaptada às suas habilidades e portes físicos. Bob Colaers filma os combates com inspirações em John Wick, da fotografia com tonalidades neon ao uso de objetos inusitados como arma, com ênfase nas boas e elaboradas coreografias e na própria violência – uma boa evolução em relação ao seu trabalho anterior, Trizombie, agora com mais orçamento e planos mais abertos, drones e com uma câmera sem tanta restrição no movimento, a qual mantém os planos inclinados e balanços para representar ameaça, sobretudo com o vilão Prince em cena, personagem detestável bem vivido por Achmed Akkabi.
Dessa forma, Attack on Paradise, ainda que de estrutura óbvia e a partir de referências batidas, é muito eficaz não apenas como filme de ação, criativo no desenrolar e no bom trabalho com o ambiente, mas também nos embates morais que coloca em frente a tela. Ainda que organizações criminosas comandadas por pessoas de origem não europeia existam, tal qual a violência policial, não podem levar a generalizações. Em tempos inflados, levanta uma bandeira de pacificação no subtexto narrativo, e se prova um ótimo exemplar do cinema de ação belga, em constante ascensão e fortalecimento.
Avaliação: ★★★★
Attack on Paradise (Idem, 2026)
Direção: Bob Colaers
Roteiro: Said Boumazoughe, Sven Huybrechts e Salahdine Ibnou Kacemi
Gênero: Ação, Thriller
Origem: Bélgica, Holanda
Duração: 96 minutos (1h36)
Exibido no 30º Fantasia Film Festival
Sinopse: Após passar sete anos na prisão, Suleyman é libertado e está determinado a reconstruir sua vida. Durante seu encarceramento, seu lar, o conjunto habitacional conhecido como "Paradise", foi tomado por gangues e traficantes. Quando a polícia decide invadir o local, Suleyman acaba preso em meio à violência, com apenas um objetivo: chegar até sua mãe e levá-la para um lugar seguro. Ao lado da policial novata Yasmine, ele luta para subir andar por andar em meio ao caos.
English review
With a narrative aesthetic inspired by video games, Attack on Paradise prioritizes elaborate choreography through relentless action driven by moral conflict and the deconstruction of opposing realities.

From its very first scene, Attack on Paradise, which had its world premiere at this year's Fantasia Festival, makes its interest in a conflict immediately clear - one that has become increasingly inflamed around the world through social media, political discourse, and extremism from every direction. The film opens with its protagonist, Soleyman, a man of Moroccan descent born and raised in Belgium, being violently confronted by police officers one night on the streets of his own country. After nearly being struck by their patrol car while crossing the street, tensions quickly escalate. On his way home to deliver medication to his elderly, ill mother, he loses control and reacts far more violently to the abuse inflicted upon him, leaving the two officers either dead or gravely injured - the film deliberately leaves their fate somewhat ambiguous.
The film, however, does not portray Soleyman as a hero - at least not because of that act. Although his reaction to such a humiliating and unjust situation is clearly disproportionate even in his own eyes, born out of a moment of rage and desperation, it is not the seven years he spends in prison that lead him toward regret. Through a dramatic lens, his release and subsequent journey focus instead on everything he lost within his family by not being there for them during the years when they needed him most. Saïd Boumazoughe delivers an outstanding performance, conveying this burden through a gaze marked by a uniquely profound sadness, compensating for moments when the screenplay leans somewhat too heavily into exposition while exploring his past amid the urgency of the action.
On the opposite side stands police officer Yasmine, portrayed by Clara Cleymans, who provides a counterbalance to the events of the opening scene. A member of a special operations unit, she drops her daughter off at school before reporting for her very first mission, during which two tactical teams are assigned to storm the Paradise apartment building, now controlled by a criminal organization led by a man of Arab descent.
Naturally, Soleyman and Yasmine's paths eventually intersect when the protagonist finds himself trapped in the middle of the crossfire while visiting his mother, who still lives inside the building under siege. The filmmakers focus their attention on the violence consuming this lower-middle-class neighborhood, where a residential building that once represented safety has become an openly hostile place to live, with each floor functioning as the headquarters for a different branch of the criminal operation - from weapons trafficking and drug distribution to human trafficking and sexual exploitation.
The moral conflicts surrounding these characters function as a mirror. On the surface, and in terms of simple survival, both are driven by responsibility toward the only family members they can truly rely upon - his mother in Soleyman's case, and her daughter in Yasmine's. On a deeper level, however, they begin dismantling their preconceived notions about the groups they represent, gradually abandoning stereotypes they had long internalized. Soleyman realizes that not every police officer is inherently violent, while Yasmine comes to understand that not every Arab is a criminal. Yet the film introduces a third layer as both are forced to confront the realities surrounding them: police brutality manifests itself when civilians are casually killed during the building's assault by special forces with little apparent concern, while the criminal organization occupying the complex has transformed it into an unlivable environment, trapping innocent, low-income residents in constant violence with virtually no possibility of escape, rendering them refugees inside their own homes.
Action becomes the film's primary means of expressing these ideas. Embracing an aesthetic that frequently evokes video games, the narrative gradually transforms as the protagonists ascend floor by floor through the building, with each level introducing new threats that become progressively more dangerous, each specifically adapted to the physical abilities and fighting styles of those involved. Bob Colaers stages the combat with clear inspiration drawn from John Wick, from the neon-soaked cinematography to the creative use of unconventional objects as weapons, placing strong emphasis on elaborate choreography and visceral violence. It represents a significant evolution from his previous film, Trizombie, benefiting from a larger budget, wider compositions, drone photography, and a camera far less restricted in its movement, while still employing Dutch angles and constant motion to emphasize danger, particularly whenever the despicable villain Prince - effectively portrayed by Achmed Akkabi - enters the frame.
In the end, Attack on Paradise, despite its straightforward structure and familiar influences, proves remarkably effective not only as an action film, thanks to its inventive progression and excellent use of its setting, but also through the moral confrontations it places at the center of its narrative. While criminal organizations led by people of non-European origin undeniably exist, just as police brutality undeniably exists, neither reality should become an excuse for sweeping generalizations. At a time marked by increasing polarization, the film quietly advocates for reconciliation beneath its action-driven surface, establishing itself as another strong example of Belgian action cinema, a national industry that continues to grow both in ambition and quality.
★★★★
Attack on Paradise premièred at 30th Fantasia Film Festival.



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