30º FANTASIA FILM FESTIVAL | The Specials, de Eiji Uchida (スペシャルズ, 2026)

Como um aceno ao cinema de máfia tradicional, Eiji Uchida propõe uma disrupção aos mafiosos violentos em The Specials, através de uma reconexão com as próprias humanidades por meio da arte.

Via de regra, o retrato oferecido pelo cinema às organizações mafiosas costuma ser permeado por seriedade e um ar de temor. Nas formas de homens violentos e impiedosos, não há espaço para compaixão. Se o jogo político estatal costuma ser polido nas disputas de poder pela vontade da maioria, no submundo criminosos tudo se resolve explicitamente através de violência, em guerras veladas da sociedade que costumam custar as vidas de pessoas inocentes enquanto grupos rivais lutam por poder, em tramas que envolvem lealdade, conspirações e traições para todos os lados.
Até certo ponto, não é muito distante a proposta de The Specials, enquanto assassinos profissionais precisam deixar de lado suas diferenças quando, por uma vultuosa soma em dinheiro, são oferecidos ao trabalho de formarem uma equipe de dança para, na etapa final de um popular concurso, assassinarem o chefe criminoso de uma organização rival, um sujeito recluso e de raras aparições em público. Reunidos justamente por suas habilidades com a arte no passado, enquanto treinados por uma criança, aos poucos abrem parte de seus corações, e expõem suas vulnerabilidades em prol dessa relação construída, cada vez mais forte, levando a questionamentos acerca das próprias vidas.
A partir de personagens muito distintos, e atores em idades diferentes, tanto novatos (inclusive cantores e dançarinos de bandas musicais, como Daisuke Sakuma e Yuta) quanto veteranos (como Kippei Shiina e Hitoshi Ozawa) representando diferentes gerações, o roteiro escrito por Eiji Uchida consegue trabalhar sob contornos superiores ao que se espera de uma narrativa como tal. Enquanto se preparam para participar do campeonato, pegam gosto pelo mundo da dança, ao mesmo tempo que revivem memórias dos próprios passados e questionam até que ponto seus corpos podem se manter ativos, nessa linha de trabalho onde o envelhecimento se torna um verdadeiro inimigo.
Nem todos os integrantes do grupo, entretanto, recebem o mesmo destaque pela narrativa. Como os grandes elos para união entre eles, Kumashiro (vivido por Shiina) reúne o grupo, e fixa-se como contato permanente com o chefe da Yakuza para o qual trabalham, e Daiya (vivido por Sakuma), um assassino aposentado que trabalha em um orfanato, enfrenta seus demônios ao aceitar a ajuda da jovem Asuka, ainda criança, para vencer o campeonato. Aos poucos, a relação entre eles revela conflitos morais acumulados em anos de trabalho no submundo criminoso, para colocar em xeque noções estabelecidas de lealdade e família. É também, por outro lado, onde o filme se excede na quantidade de subtramas, e ao tentar aprofundar em excesso o passado de Daiya, que leva apenas a uma boa cena de ação, que não surte qualquer consequência no desenrolar da narrativa, como algo perdido e isolado.
Para alguns, a veia melodramática de caráter exagerado empregada pela direção de Uchida pode soar como elemento incômodo, mas se torna o trunfo para tornar a ideia absurda do roteiro mais divertida e funcional. É fato que o excesso de sentimentalismo leva The Specials para um lugar piegas, mas o espectador facilmente consegue comprar a ideia a partir da mescla equilibrada que se faz entre o drama, a comédia – mais imersa na proposta e em reações pontuais do que propriamente no aspecto físico – e na ação bem coreografada, que prova conhecer do espaço que dispõe para valer-se dos combates armados, em sequências que flertam com a própria dança praticada, alguns dos melhores momentos do longa.
Evidentemente sem um orçamento vultuoso, mas muito bem aproveitado, Eiji Uchida acena para o cinema de Takeshi Kitano, e subverte a imagem tradicional de máfia através de personagens sensíveis que se reconectam com as próprias humanidades por meio da arte. Com espaço para sequência, e um elenco com química enquanto um conjunto, faz de The Specials em uma surpresa divertida na seleção do Fantasia Film Festival deste ano.
Avaliação: ★★★½
The Specials (スペシャルズ, 2026)
Direção: Eiji Uchida
Roteiro: Eiji Uchida
Gênero: Ação, Comédia
Origem: Japão
Duração: 111 minutos (1h51)
Exibido no 30º Fantasia Film Festival
Sinopse: O ex-assassino Daiya abandonou há muito tempo o mundo do crime, mas decide aceitar a missão de matar o líder de uma gangue rival em troca de uma generosa recompensa. O problema é que, para eliminar seu alvo durante um show de talentos, ele terá de se infiltrar e se apresentar em um grupo de dança pop.
English review
As a nod to traditional gangster cinema, Eiji Uchida offers a disruption of the violent gangster archetype in The Specials, reconnecting criminals with their own humanity through art.

As a rule, the portrayal of criminal organizations in cinema tends to be permeated by seriousness and an air of menace. In the form of violent and ruthless men, there is no room for compassion. While the political game of the state is often polite in its struggles for power through the will of the majority, in the criminal underworld everything is resolved explicitly through violence, in the covert wars of society that often cost innocent lives as rival groups fight for power, in stories involving loyalty, conspiracies, and betrayals on all sides.
To a certain extent, The Specials is not far removed from this premise, as professional assassins must put aside their differences when, in exchange for a substantial sum of money, they are hired to form a dance team and, during the final stage of a popular competition, assassinate the criminal boss of a rival organization, a reclusive man rarely seen in public. Brought together precisely because of their artistic abilities in the past, and trained by a child, they gradually open their hearts and expose their vulnerabilities in service of the relationship they build, which grows increasingly stronger and leads them to question their own lives.
Through a group of very different characters and actors of different ages, both newcomers (including singers and dancers from musical groups, such as Daisuke Sakuma and Yuta) and veterans (such as Kippei Shiina and Hitoshi Ozawa) representing different generations, the screenplay written by Eiji Uchida manages to operate on a level beyond what one might expect from such a narrative. As they prepare to compete in the championship, they gradually develop a genuine appreciation for the world of dance while simultaneously reliving memories from their pasts and questioning how long their bodies can remain active in this line of work, where aging becomes a genuine enemy.
Not all members of the group, however, receive the same amount of attention from the narrative. As the main links holding them together, Kumashiro (played by Shiina) brings the group together and establishes himself as their permanent contact with the Yakuza boss they work for, while Daiya (played by Sakuma), a retired assassin who now works at an orphanage, confronts his demons by accepting the help of the young Asuka, still a child, to win the competition. Their relationship gradually reveals moral conflicts accumulated over years spent working in the criminal underworld, putting established notions of loyalty and family into question. It is also where the film becomes somewhat excessive in the number of subplots it introduces, particularly when it tries to delve too deeply into Daiya's past, ultimately leading only to a good action sequence that has no consequences for the development of the narrative, standing as something isolated and disconnected.
For some viewers, the exaggerated melodramatic streak employed by Uchida's direction may feel uncomfortable, but it becomes precisely what allows the screenplay's absurd premise to become more entertaining and functional. It is true that the excess of sentimentality pushes The Specials into somewhat saccharine territory, but the audience can easily buy into the concept thanks to the balanced combination of drama, comedy - more immersed in the premise and specific reactions than in physical humor - and well-choreographed action. The latter demonstrates a strong understanding of the space available for armed combat, with sequences that flirt with the dance being performed, resulting in some of the film's finest moments.
Clearly made without a massive budget, but making very good use of the resources available, Eiji Uchida nods toward the cinema of Takeshi Kitano and subverts the traditional image of the mafia through sensitive characters who reconnect with their own humanity through art. With room for a sequel and a cast whose chemistry works remarkably well as an ensemble, The Specials becomes a delightful surprise in this year's Fantasia Film Festival selection.
★★★½
The Specials was screened at 30th Fantasia Film Festival.



Comentários