50ª MOSTRA DE SP | Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha, de Janaína Marques (Idem, 2026)

Janaína Marques constrói sua narrativa no vale entre a realidade e a fantasia, em um ‘road movie’ de acerto de contas familiares, apartando a distância entre mãe e filha.

A metáfora inicial por detrás de Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha, de certa maneira pensada como uma reviravolta a ser explorada no decorrer da narrativa, não consegue necessariamente esconder o que está acontecendo de fato. Creio que essa também nem fosse a intenção do filme, quando seu objetivo central, desde os primeiros instantes, se revela o tráfego por um espaço de características oníricas, entre memória, lembranças e sentimentos desenvolvidos no caminhar por uma estrada, permeada pela viagem de reconciliação entre mãe e filha.
A direção de Janaína Marques nos surpreende na reta inicial, a partir de uma mudança drástica de ambiente - da escura máquina de ressonância para o interior de um carro, estacionado em um posto de gasolina localizado em alguma estrada pelo Brasil, atravessando uma região desértica. O som de tiros acertando a lataria assusta a protagonista - e também o público -, seguido pela entrada da mãe no veículo, e da arrancada rápida, em uma fuga desesperada.
O afastamento entre as duas é estabelecido pela distância, física e de intimidade, trabalhada já dentro do próprio carro. Não demora a compreendermos que Dalva, a mãe da protagonista Rosa - ambas muito bem interpretadas por Luciana Souza e Veronica Cavalcanti -, a “abandonou” ainda criança com o pai, quando foi presa. A viagem, que surge “do nada”, seria uma forma de ambas se conciliarem após tantos anos, alternando entre momentos de diálogo sincero, descontração e a criação de memórias em conjunto.
No entanto, esse aspecto onírico sobre o qual a jornada se constrói suscita dúvidas verdadeiras em relação ao que de fato acontece no filme. Ao longo do caminho, entre as conversas e diálogos sinceros, uma semelhança entre as duas começa a se fortalecer diante do público, como se ambas as personagens se fundissem uma à outra, mãe e filha - afinal, o fruto não cai longe do pé - justamente como uma reunião familiar, e de características reconhecidas. É algo que ultrapassa a personalidade, e atinge também o aspecto físico, porquanto se vestem de maneiras semelhantes, usam o cabelo com a mesma cor, e até na maneira de reagir às situações que enfrentam.
A câmera estática de Janaina Marques, e a encenação quase teatral fortalecem a atmosfera de fantasia, caminhando constantemente de um espaço inicialmente realista em direção a um lugar que flerta com a ideia de sonho, entre as passagens repentinas, mudanças de cenário e uma direção de arte cada vez mais colorida e atenciosa aos detalhes, que articula idas e vindas do presente ao passado, e do passado ao futuro, a partir dos objetos que preenchem a cena, sempre atrelados aos próprios personagens, que não necessariamente precisam estar em frente à câmera para se fazerem de toda forma presentes.
Enquanto se desenvolve, e torna cada vez mais claro o espaço pelo qual transita, o título Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha passa a fazer sentido através dos efeitos que essa ausência materna surtiu no decorrer da vida da protagonista, em um eterno sentimento de questões inacabadas que sempre permearam toda a sua existência, dos relacionamentos amorosos com outras pessoas à uma certa amargura proposta pelo abandono de uma figura a quem tanto admirava enquanto criança.
(Spoilers) Através desse universo que não se preocupa em fixar-se com os pés sobre a realidade concreta, e um formalismo estético que impulsiona o espectador rumo à fantasia, a sensibilidade reina diante de necessários diálogos que nunca aconteceram de verdade. Essa viagem sobre o inconsciente se torna na mesma medida doce e dolorosa a partir desse ajuste da protagonista consigo, dessa tentativa de preencher um buraco no próprio coração, e na própria história. A dúvida do que é real e o que é ilusão não é completamente sanada com os créditos finais, e torna a experiência mais profunda ao passo que saímos da sessão refletindo acerca da jornada.
Avaliação: ★★★½
Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha (Idem, 2026)
Direção: Janaína Marques
Roteiro: Xenia Rivery, Taís Monteiro, Pablo Arellano, Pedro Cândido e Janaína Marques
Gênero: Drama, Comédia, Fantasia
Origem: Brasil
Duração: 92 minutos (1h32)
50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Sinopse: Durante uma ressonância magnética, Rosa, uma mulher de cinquenta anos, é orientada a evocar uma lembrança feliz. A experiência a conduz por uma viagem onírica ao próprio subconsciente, na qual reencontra sua mãe, Dalva, uma mulher irreverente que foi presa após matar um homem prestes a cometer feminicídio. Crescida na ausência materna, Rosa carrega as marcas dessa história e imagina uma travessia que nunca aconteceu, inventando memórias felizes em busca de cura e reconciliação.
English review
Janaína Marques constructs her narrative in the space between reality and fantasy in I Built a Rocket Imagining Your Arrival, a ‘road movie’ about settling family scores and bridging the distance between mother and daughter.

The initial metaphor behind I Built a Rocket Imagining Your Arrival, conceived in a way as a twist to be explored throughout the narrative, does not necessarily manage to hide what is actually happening. I believe this was not even the film's intention, as its central objective, from the very first moments, reveals itself to be a journey through a space with dreamlike qualities, between memory, recollections, and feelings developed along the way, permeated by a journey of reconciliation between mother and daughter.
Janaína Marques's direction surprises us in the opening stretch, through a drastic change of setting - from the dark MRI machine to the interior of a car, parked at a gas station somewhere along a road in Brazil, crossing a desert region. The sound of gunshots hitting the car's metal body frightens the protagonist - and the audience as well - followed by the mother's entrance into the vehicle and their rapid departure in a desperate escape.
The distance between the two is established through both physical separation and a lack of intimacy, already apparent inside the car itself. It does not take long for us to understand that Dalva, the mother of protagonist Rosa - both portrayed very well by Luciana Souza and Verônica Cavalcanti - "abandoned" her as a child with her father when she was arrested. The journey, which comes seemingly "out of nowhere," would be a way for the two to reconcile after so many years, alternating between moments of sincere dialogue, lightheartedness, and the creation of shared memories.
However, the dreamlike aspect upon which this journey is built raises genuine questions about what actually happens in the film. Along the way, amid conversations and sincere exchanges, a resemblance between the two begins to grow stronger before the audience, as though the two characters were merging into one another, mother and daughter - after all, the apple doesn't fall far from the tree - in precisely the way a family reunion brings together familiar traits. This goes beyond personality and also reaches the physical aspect, as they dress similarly, wear their hair in the same color, and even share similar ways of reacting to the situations they face.
Janaína Marques's static camera and the almost theatrical staging reinforce the atmosphere of fantasy, constantly moving from an initially realistic space toward a place that flirts with the idea of a dream, through sudden transitions, changes in setting, and an increasingly colorful art direction attentive to detail. It articulates movements back and forth from the present to the past, and from the past to the future, through the objects that fill the scenes, always connected to the characters themselves, who do not necessarily need to be in front of the camera to make their presence felt in every way.
As it unfolds and the space through which the journey takes place becomes increasingly clear, the title I Built a Rocket Imagining Your Arrival begins to make sense through the effects this maternal absence has had on the protagonist's life, in an eternal feeling of unresolved issues that have always permeated her entire existence, from romantic relationships with other people to a certain bitterness stemming from the abandonment by someone she admired so much as a child.
(Spoilers) Through this universe, which makes no effort to remain grounded in concrete reality, and an aesthetic formalism that propels the viewer toward fantasy, sensitivity reigns through necessary conversations that never actually took place. This journey through the unconscious becomes equally sweet and painful through the protagonist's attempt to come to terms with herself, in an effort to fill a hole in her own heart and in her own story. The question of what is real and what is an illusion is never entirely resolved by the end credits, making the experience deeper as we leave the screening reflecting on the journey.
★★★½



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