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50ª MOSTRA DE SP | London, de Márcio Picoli e Victor Di Marco (Idem, 2026)

Foto do escritor: Henrique Debski
Henrique Debski
há 18 horas
6 min de leitura

Vencedor do Queer Lion de Veneza, London é um drama intimista sobre se perder na própria identidade, e não encontrar-se preso a diagnósticos, rótulos ou mesmo ao corpo. 



Pouco antes da sessão de London se iniciar, virei para uma amiga que estava comigo e mencionei um pensamento: por que ninguém está falando sobre o filme brasileiro que conquistou o Queer Lion do Festival de Veneza, prêmio dedicado ao melhor filme de temática queer do festival, eleito por júri próprio, que pode selecionar qualquer obra que verse sobre o tema dentre todas as mostras competitivas? Embora seja uma seleta lista de filmes, não se trata de uma conquista a ser descartada ou reduzida - pelo contrário, é mais uma vitória ao cinema brasileiro, com reconhecimento em um dos mais antigos e tradicionais festivais do mundo.


Após um breve monólogo inicial que exprime parte das angústias do protagonista London, preso a um mundo e uma vida sem saber quem é, como ou o que o define enquanto pessoa, acompanhamos um longo plano adentro de uma boate fetichista. O ambiente labirintico pelo qual transita a câmera, e no qual o personagem trabalha como profissional do sexo e áreas correlatas, é como um acesso direto à sua mente e ao seu mundo. Passamos a enxergar a vida como London, na qual, embora cercado por amigos, se sente espiritualmente solitário. 


Ele caminha para casa sozinho; retorna igualmente só. Ao chegar em seu prédio, olha para cima e se depara com crianças o observando nas escadarias. O peso do passado não o deixa em paz para seguir em frente, adiante em uma vida na qual nunca conseguiu efetivamente se encaixar, como parte de algo. Também enquanto pessoa com deficiência física, sente a sombra de um diagnóstico o perseguindo. É o que estremece sua relação com a família - especialmente a mãe -, e com parte do mundo ao redor, como se apenas seu corpo o representasse como quem é, considerando-o incapaz de se virar por conta própria.


A dupla de roteiristas e diretores Márcio Picoli e Victor Di Marco evita, criativamente, uma abordagem dessa crise identitária que transcorra tão somente pela verbalização dos sentimentos do protagonista. Na contramão desse caminho que soaria cansativo, para além de conversas com amigos de trabalho bastante naturais, e na companhia de outras pessoas de seu círculo social, London se aproveita de assombrações (como a figura das crianças, memórias de um olhar julgador e inquieto destas para seu corpo; e de exames médicos surgindo pela porta do apartamento) para reforçar um pensamento que, em sua situação de vida, nunca desaparece da mente por completo.


Em outras oportunidades, o prazer encontra espaço no decorrer da narrativa como uma válvula de escape, em passagens nas quais os cineastas fazem uso de experimentações visuais como o excesso da iluminação neon na boate, fruto da ótima fotografia assinada por Bruno Polidoro, acompanhadas por batidas de música eletrônica, na contraposição aos tons neutros e monocromáticos nas circunstâncias em que o personagem encontra-se em locais que considera hostis, como no hospital e até mesmo na escola em que estudou quando jovem, na qual segue para conversar sobre o processo de aprendizagem da irmã mais nova, também pessoa com deficiência; e até uma sequência inteira filmada com o uso de infravermelho.


Inclusive, quando reflete acerca do processo de amadurecimento enquanto aluno de uma escola tradicional, o próprio filme também levanta um debate sobre o significado da ideia de inclusão, como um reflexo de tempos e sociedades distintas entre si e a irmã mais nova, ainda criança, quando sugerido que ela seja encaminhada a uma escola adaptada ao atendimento de pessoas com deficiência.


Nisso, a experiência de London apenas se fortalece a partir da assunção do papel principal por um dos diretores, Victor Di Marco, que constrói esse personagem com sensibilidade através de um olhar de compaixão e verdade. O nome do protagonista, e título do filme, acaba representando uma ironia, enquanto a marca de uma cidade grande nomeia um homem que se sente só no mundo. No fundo, a identidade é um grande processo individual de autodescobrimento, que varia de uma pessoa para outra. Com cuidado para não reduzir a jornada a caricaturas, tem-se um drama envolvente que constrói muito sobre o que é decidir o que é, e ser quem é. Como bem disse um dos diretores antes da sessão começar, é “sobre permitir-se a se perder na própria identidade”. 


Avaliação: ★★★★

 

London (Idem, 2026)

Direção: Victor Di Marco e Márcio Picoli

Roteiro: Victor Di Marco e Márcio Picoli

Gênero: Drama, Romance

Origem: Brasil

Duração: 90 minutos (1h30)

50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 


Sinopse: London é um jovem queer com deficiência que construiu sua vida em torno da independência e da liberdade sobre o próprio corpo. Ele trabalha realizando performances eróticas em uma casa de fetiches, cercado por amigos e por uma comunidade que compartilha suas experiências. Quando surge a oportunidade de compreender melhor sua condição por meio de um exame médico, London precisa decidir se deseja obter respostas ou se teme que um diagnóstico reduza sua identidade a uma definição clínica.


English review


Winner of Venice's Queer Lion, London is an intimate drama about losing oneself in one's own identity, and not finding oneself trapped by diagnoses, labels, or even one's own body.



Shortly before the screening of London began, I turned to a friend who was with me and shared a thought: why is nobody talking about the Brazilian film that won the Venice Film Festival's Queer Lion, an award dedicated to the festival's best queer-themed film, selected by its own jury, which can choose any work dealing with the subject from among all the competitive sections? Although it is a select list of films, this is not an achievement to be dismissed or downplayed - on the contrary, it is another victory for Brazilian cinema, recognized at one of the oldest and most traditional festivals in the world.


After a brief opening monologue expressing some of protagonist London's anguish, trapped in a world and a life without knowing who he is, or how or what defines him as a person, we follow a long take inside a fetish club. The labyrinthine environment through which the camera moves, and where the character works as a sex worker and in related fields, offers direct access to his mind and his world. We begin to see life as London does, in which, although surrounded by friends, he feels spiritually alone.


He walks home alone; he returns equally alone. Upon arriving at his building, he looks up and encounters children watching him from the staircases. The weight of the past will not leave him in peace to move forward, to continue with a life in which he has never truly managed to fit in or feel part of something. As a person with a physical disability, he also feels the shadow of a diagnosis pursuing him. This is what shakes his relationship with his family - especially his mother - and with part of the world around him, as though his body alone represented who he is, leading others to consider him incapable of managing on his own.


Screenwriters and directors Márcio Picoli and Victor Di Marco creatively avoid approaching this identity crisis solely through the protagonist's verbalization of his feelings. Moving away from a path that would feel exhausting, beyond the quite natural conversations with his coworkers and the company of other people in his social circle, London makes use of hauntings (such as the figures of the children, memories of their judgmental and restless gaze upon his body, and medical tests appearing through the apartment door) to reinforce a thought that, given his circumstances, never completely disappears from his mind.


At other moments, pleasure finds room within the narrative as an escape valve, in passages where the filmmakers experiment visually, such as through the excessive neon lighting in the club, the result of Bruno Polidoro's excellent cinematography, accompanied by electronic music beats. These are contrasted with the neutral, monochromatic tones of situations in which the character finds himself in places he considers hostile, such as the hospital and even the school he attended when he was young, where he goes to discuss the learning process of his younger sister, who also has a disability. There is even an entire sequence filmed using infrared.


Furthermore, when reflecting on the process of growing up as a student in a traditional school, the film itself raises a discussion about the meaning of inclusion, as a reflection of the different times and societies experienced by him and his younger sister, who is still a child, when it is suggested that she be transferred to a school adapted to accommodate people with disabilities.


In this respect, the experience of London is further strengthened by one of the directors, Victor Di Marco, taking on the lead role and building this character with sensitivity through a compassionate and truthful perspective. The protagonist's name, which is also the film's title, ultimately represents an irony, as the name of a major city is given to a man who feels alone in the world. Deep down, identity is a great individual process of self-discovery that varies from one person to another. Taking care not to reduce this journey to caricatures, the result is an engaging drama that explores what it means to decide what one is and to be who one is. As one of the directors aptly said before the screening began, it is "about allowing yourself to get lost in your own identity."


★★★★


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