50ª MOSTRA DE SP | O Homem Mais Solitário da Cidade, de Tizza Covi e Rainer Frimmel (The Loneliest Man in Town, 2026)

Tizza Covi e Rainer Frimmel mesclam ficção com realidade a partir das experiências de Alois Koch, e exploram a noção de identidade atrelada ao espaço físico.

O desapego a um espaço específico do mundo não é um sentimento fácil para a maior parte das pessoas. Falo até mesmo por mim, sobre quando mudei-me, ainda criança, de um apartamento para outro com meus pais, apenas algumas ruas adiante - tantas memórias restaram para trás, e o olhar vazio para um lugar antes preenchido com tantos móveis, e depósito de tantas boas lembranças enchia meus olhos de lágrimas.
O Homem Mais Solitário da Cidade começa mostrando seu protagonista, Al Cook, sozinho em seu apartamento. Em uma noite como tantas outras, sobe de seu pequeno estúdio musical, localizado no porão do prédio, liga o toca-discos, prepara sua refeição, e passa a noite jantando, solitariamente, ao som de blues. Tudo naquele ambiente aconchegante exala uma atmosfera norte-americana típica do século XX, da mobília, hoje antiquada, à televisão, aparelho de som, vídeo-cassete, e a trilha sonora que coloca sob o fundo. Não demora a descobrirmos, então, que todo aquele espaço preso ao tempo encontra-se fisicamente ameaçado, quando o prédio em que Al reside fora vendido para uma incorporadora, e, para demolí-lo, precisam que se mude para outro lugar.
Para o protagonista, aquele não é apenas um apartamento, mas sim o local no qual nascera, e viveu durante toda a vida, de criança ao seu momento presente, viúvo, aos oitenta anos. A resistência não se dá por comodidade, mas por apego a lembranças de oitenta anos de vida, e de tempos que não voltarão mais. É uma resistência que visa proteger a sua identidade, a partir do espaço físico. Quando a câmera se posiciona atrás de Al, e o filma assistindo ao prédio da frente sendo demolido, não apenas o espectador se compadece, como compreendeu o sentimento por ele partilhado através da imagem.
Em uma obra ficcional, inspirada pela realidade, a dupla de diretores Tizza Covi e Rainer Frimmel não buscam por uma biografia e tampouco um documentário, mas se baseiam em eventos reais vividos por Alois Koch, que dá vida ao protagonista Al, para explorar a maneira como identidades, muitas vezes, também estão atreladas a espaços físicos, cuja destruição torna-se uma forma de morte, ou supressão, de parte dessas pessoas no plano real. É o caso tanto do ator quanto do personagem, que justamente passaram por tal circunstância, que não é nenhuma novidade ao cinema, visto que Up - Altas Aventuras e Aquarius já transitaram pelo mesmo terreno, sob diferentes abordagens.
A câmera estática em locais específicos fortalece esse aspecto de melancolia inerente a narrativa, substituído, no decorrer da obra, por uma decisão de reinvenção da própria vida por parte do personagem, que nos permite, então, nos aprofundarmos ainda mais em seus sentimentos, especialmente quando volta seu olhar ao passado.
A paixão pelo blues norte-americano, que transformou em profissão, e que o acompanhou durante toda a vida, novamente surge para salvar Al do apagamento no mundo material, enquanto encontra uma oportunidade de manter-se ativo tocando onde mais gostaria. Ao vender seus pertences, e desmontar o apartamento - depois de pressões por parte da incorporadora, representadas de maneira bem-humorada, por meio do absurdo -, conhecemos quem fora no passado, e o que ainda tem para oferecer ao mundo.
Esse aspecto de observação com o qual trabalha a direção, em uma decupagem de poucos cortes e sem movimentar a câmera, bem serviu como representante ao marasmo e a lentidão da vida de Al, antes da circunstância inesperada o fazer decidir embarcar em uma jornada de transformação. E O Homem Mais Solitário da Cidade não se preocupa com a jornada posterior, mas com o presente, aqui e agora, enquanto lança o olhar à manifestação da identidade a partir do espaço físico. Tamanha é a delicadeza, tanto dos diretores quanto da composição de Kock, que saí da sessão com o coração aquecido, e com um gostinho de “quero mais”, agora da jornada de Al no berço do blues.
Avaliação: ★★★★
O Homem Mais Solitário da Cidade (The Loneliest Man in Town, 2026)
Direção: Tizza Covi, Rainer Frimmel
Roteiro: Tizza Covi
Gênero: Drama, Comédia
Origem: Áustria
Duração: 86 minutos (1h26)
50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Sinopse: Al Cook, um músico de blues vienense, vive cercado por lembranças em seu apartamento, repleto de livros, fitas VHS e discos de vinil. Viúvo e cada vez mais deslocado em sua própria cidade, ele encontra na música um elo com o passado. Quando uma imobiliária decide demolir sua casa, Al é forçado a se desfazer dos objetos que preservam suas memórias e a confrontar a possibilidade de recomeçar a vida, mesmo quando tudo parece ter ficado para trás.
English review
Tizza Covi and Rainer Frimmel blend fiction with reality through Alois Koch's experiences, exploring the notion of identity as tied to physical space.

Letting go of a particular place in the world is not an easy feeling for most people. I can even speak from personal experience, remembering when I moved, as a child, from one apartment to another with my parents, just a few streets away - so many memories were left behind, and the empty sight of a place once filled with so much furniture, and which held so many fond memories, brought tears to my eyes.
The Loneliest Man in Town begins by showing its protagonist, Al Cook, alone in his apartment. On a night like so many others, he comes up from his small music studio, located in the building's basement, turns on the record player, prepares his meal, and spends the evening dining alone to the sound of blues. Everything in that cozy environment exudes a typical 20th-century North American atmosphere, from the now-antiquated furniture to the television, stereo, VCR, and the music he puts on in the background. It does not take long for us to discover, then, that this entire space frozen in time is physically under threat, as the building where Al lives has been sold to a real estate developer, who needs him to move somewhere else in order to demolish it.
For the protagonist, that is not merely an apartment, but the place where he was born and lived his entire life, from childhood to the present day, as an eighty-year-old widower. His resistance is not rooted in convenience, but in his attachment to memories of eighty years of life and to times that will never return. It is a form of resistance intended to protect his identity through physical space. When the camera positions itself behind Al, filming him as he watches the building across the street being demolished, the viewer not only feels sympathy for him, but also understands the feeling he conveys through the image.
In this fictional work inspired by reality, directors Tizza Covi and Rainer Frimmel do not seek to make a biography or a documentary. Instead, they draw on real events experienced by Alois Koch, who plays the protagonist Al, to explore how identities are often tied to physical spaces, whose destruction becomes a form of death or the suppression of a part of these individuals in the real world. This is true of both the actor and the character, who have gone through precisely this circumstance. It is hardly a new subject in cinema, given that Up and Aquarius have already explored similar territory, albeit through different approaches.
The static camera in specific locations reinforces this aspect of melancholy inherent to the narrative, which is gradually replaced by the character's decision to reinvent his own life, allowing us to delve even deeper into his feelings, especially when he turns his gaze toward the past.
His passion for American blues, which he turned into a profession and which accompanied him throughout his life, once again emerges to save Al from being erased from the material world, as he finds an opportunity to remain active by playing where he would most like to. By selling his belongings and dismantling the apartment - after facing pressure from the developer, portrayed humorously through absurdity - we learn who he was in the past and what he still has to offer the world.
The observational approach adopted by the directors, with an editing structure featuring few cuts and no camera movement, serves well to convey the stagnation and slowness of Al's life, before an unexpected circumstance leads him to embark on a journey of transformation. And The Loneliest Man in Town is not concerned with the journey that follows, but with the present, here and now, as it turns its gaze toward the manifestation of identity through physical space. Such is the delicacy of both the directors and Kock's performance that I left the screening with a warm heart and wanting more, now eager to follow Al's journey in the cradle of blues.
★★★★



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