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50ª MOSTRA DE SP | A Professora de Francês, de Ricardo Alves Jr (Idem, 2026)

Foto do escritor: Henrique Debski
Henrique Debski
há 3 horas
7 min de leitura

A Professora de Francês constrói-se a partir da claustrofobia de um aprisionamento invisível, através de lavagens cerebrais e homofobia promovida por um culto conservador, em ótima jornada de horror protagonizada por Grace Passô.



Em uma filmagem da cidade de Belo Horizonte ao alto, ao som de uma música instrumental e com a passagem dos créditos iniciais em tela, Ricardo Alves Jr flerta com referências que remetem o espectador diretamente ao cinema de horror europeu das décadas de 70 e 80, até como um aceno ao italiano Dario Argento e outros cineastas que marcaram o período, e ajudaram a moldar o gênero para a posteridade. A atmosfera dentro do carro conduzido por Graça, uma mulher negra, lésbica, de classe média, e sua namorada francesa Clara, em meio a um temporal, já é denso desde o princípio, quando atolam em um buraco, e são auxiliadas por estranhos com comportamentos igualmente suspeitos, que ficam para trás enquanto seguem viagem.


A proposta de estranhamento se estende de vez quando chegam ao bairro onde reside o pai de Graça, já idoso, a quem visita constantemente. Residindo há décadas na mesma casa, eles contam com o apoio dos vizinhos e da comunidade religiosa ao seu entorno para as emergências. Inicialmente a direção de Ricardo Alves Jr aproveita desta mão auxiliadora dos moradores da casa ao lado, e das demais pessoas da região, como um gesto de altruísmo desses bons cidadãos, a quem conhece desde os tempos de infância. Quando a protagonista decide, então, passar alguns dias na casa do pai, após uma recaída em seu quadro de saúde, o cenário começa a se alterar.


Em um primeiro momento, acaba participando das rodas de oração dessa comunidade, a quem o pai parece muito confiar. Os olhares passam a voltar-se à sua pessoa, uma forasteira; a palavra parece sempre direcionada a si, em tons cada vez mais desafiadores e enigmáticos, com previsões e possíveis ameaças imersas em metáforas bíblicas, disfarçadas de “auto-ajuda”. Depois, os vizinhos a observam muito atentamente, sempre procurando formas de impedir que deixe o bairro. Graça vai se tornando prisioneira de seu próprio espaço, em sua própria casa, sem que consiga lutar contra essas forças muito mais fortes do que ela. A presença de Clara sempre é demonstrada como incômoda pelos locais, e a relação entre ambas nesse ambiente hostil se manifesta às escondidas, mesmo que todos saibam sobre este vínculo afetivo.


O que se estabelece no início como um reencontro com antigos vizinhos, e até amigos de infância, a quem Graça não via durante um longo período, se transforma em um verdadeiro cenário de repressão e aprisionamento, construído socialmente, sem o uso de grades ou quaisquer ferramentas do plano físico, senão a presença de uma comunidade intolerante, que usa da presença, perseguição e da claustrofobia para ameaçar a personagem. 


Grace Passô, na pele de Graça, prova-se mais uma vez como uma das grandes forças do cinema brasileiro contemporâneo, enquanto atriz e também como diretora. Não apenas sua interpretação introvertida dessa personagem atormentada por uma comunidade conservadora já exala um desespero e incômodo que se estendem facilmente para fora da tela, como boa parte de seus diálogos são recitados em um francês fluente e natural, sobretudo quando contracena com Jehnny Beth, cuja relação torna-se incrivelmente orgânica. A própria língua francesa é bem aproveitada no decorrer do filme na medida em que, instrumento de trabalho da protagonista enquanto professora, é utilizada como arma e provocação contra a própria. 


Esse ambiente conservador, por outro lado, é representado com muita eficácia por Tomás, o jovem líder do culto interpretado por Pedro Goifman. Em seu jeito simpático, aparentemente pacífico, de olhar calmo, aparência tranquila, fala e sutileza nas pregações, esconde por detrás dos discursos proferidos uma homofobia latente, que emerge a cada novo encontro com Graça, de maneira mais explícita. Sem um ambiente comunitário formal, representa todo um cenário de “cura gay” ainda comum em movimentos conservadores e religiosos, que esboçam sorrisos no rosto e discursos de apoio como meios para lavagens cerebrais.


Ainda que à’Professora de Francês falte um pouco de tensão em determinadas passagens, e especialmente aos instantes finais, em que parece hesitar aprofundar-se de vez ao cinema de gênero, a abordagem de Ricardo Alves Jr ao contexto das comunidades religiosas conservadoras e à violência velada contra a população queer por tais grupos é bem trabalhada sob um aspecto claustrofóbico, e de uma perseguição distante e “às escondidas” que incomoda tanto o espectador quanto a protagonista, ao não saber exatamente onde encontram-se as forças antagônicas, ou mesmo seus meios concretos de manifestação. Não é apenas mais um ótimo filme mineiro neste ano tão recheado, como também reforça o protagonismo de Grace Passô como uma das grandes atrizes brasileiras contemporâneas, e a ascensão de Pedro Goifman no contraponto da protagonista, na pele de um vilão provocador. 


Deixo, por fim, como sugestão ao diálogo com A Professora de Francês o excelente longa de terror italiano recente The Holy Boy, de Paolo Stippoli, em abordagem também às comunidades religiosas sob o comportamento de seitas conservadoras, e a dependência de uma fé cega.


Avaliação: ★★★★

 

A Professora de Francês (Idem, 2026)

Direção: Ricardo Alves Jr.

Roteiro: Germano Melo

Gênero: Drama, Thriller, Terror

Origem: Brasil, França, Portugal

Duração: 95 minutos (1h35)

50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 


Sinopse: Graça sobrevive dando aulas particulares de francês em Belo Horizonte, onde vive com sua namorada francesa. Quando uma emergência de saúde envolvendo seu pai a obriga a retornar à casa onde cresceu, no subúrbio da cidade, ela volta a conviver com os vizinhos que lideram uma seita religiosa na comunidade. Gradualmente, Graça se vê enredada pelo fanatismo daqueles que tentam trazê-la de volta “ao seu lugar”, enquanto sua realidade se transforma em um inquietante pesadelo.

 

English review


The French Teacher is built around the claustrophobia of an invisible imprisonment, through brainwashing and homophobia promoted by a conservative cult, in an excellent horror journey starring Grace Passô.



With an aerial shot of the city of Belo Horizonte, accompanied by instrumental music and the opening credits appearing on screen, Ricardo Alves Jr flirts with references that directly evoke European horror cinema of the 1970s and 1980s, even as a nod to Italian filmmaker Dario Argento and others who left their mark on the period and helped shape the genre for posterity. The atmosphere inside the car driven by Graça, a Black, lesbian, middle-class woman, and her French girlfriend Clara, amid a storm, is tense from the very beginning, when they get stuck in a hole and are helped by strangers whose behavior is equally suspicious, leaving them behind as they continue their journey.


The sense of estrangement fully takes hold when they arrive in the neighborhood where Graça's elderly father lives, whom she visits regularly. Having lived in the same house for decades, he relies on the support of his neighbors and the surrounding religious community in emergencies. Initially, Ricardo Alves Jr's direction makes use of this helping hand from the residents of the house next door and other people in the area as a gesture of altruism from these good citizens, whom Graça has known since childhood. When the protagonist then decides to spend a few days at her father's house following a relapse in his health, the situation begins to change.


At first, she ends up taking part in the prayer circles of this community, in which her father seems to place great trust. Eyes begin to turn toward her, an outsider; the words always seem directed at her, in increasingly challenging and enigmatic tones, with predictions and potential threats immersed in biblical metaphors disguised as “self-help.” Then the neighbors begin watching her very closely, always looking for ways to prevent her from leaving the neighborhood. Graça gradually becomes a prisoner of her own surroundings, in her own home, unable to fight against forces far more powerful than herself. Clara's presence is always treated as unwelcome by the locals, and the relationship between the two women in this hostile environment unfolds in secret, even though everyone knows about their emotional bond.


What begins as a reunion with former neighbors and even childhood friends, whom Graça had not seen in a long time, turns into a genuine scenario of repression and imprisonment, socially constructed without the use of bars or any other physical tools, relying instead on the presence of an intolerant community that uses its proximity, persecution, and claustrophobia to threaten the character.


Grace Passô, as Graça, once again proves herself to be one of the great forces of contemporary Brazilian cinema, both as an actress and as a director. Not only does her introverted performance as a character tormented by a conservative community exude a sense of desperation and discomfort that easily extends beyond the screen, but many of her lines are delivered in fluent, natural French, especially when she shares scenes with Jehnny Beth, with whom her relationship feels remarkably organic. The French language itself is put to good use throughout the film, as it is both the protagonist's professional tool as a teacher and a weapon used to provoke her.


This conservative environment, meanwhile, is represented very effectively by Tomás, the young cult leader played by Pedro Goifman. Behind his friendly, seemingly peaceful demeanor, calm gaze, and composed appearance, as well as the gentle way he speaks and delivers his sermons, lies a latent homophobia that emerges more explicitly with each new encounter with Graça. Without a formal community setting, he represents an entire landscape of so-called “gay conversion” practices that remain common among conservative and religious movements, which put on smiles and offer supportive rhetoric as tools for brainwashing.


Although The French Teacher lacks a little tension in certain passages, particularly in its final moments, when it seems to hesitate before fully embracing genre cinema, Ricardo Alves Jr's approach to conservative religious communities and the veiled violence queer people face at the hands of such groups is well developed through a claustrophobic atmosphere and a sense of distant, covert persecution that unsettles both the viewer and the protagonist, who cannot determine exactly where the antagonistic forces lie or even how they concretely manifest themselves. It is not only another excellent film from Minas Gerais in this particularly rich year, but also a reaffirmation of Grace Passô's status as one of Brazil's great contemporary actresses, alongside the rise of Pedro Goifman as a compelling foil to the protagonist, embodying a provocative villain.


Finally, I would suggest pairing The French Teacher with the excellent recent Italian horror feature The Holy Boy, by Paolo Strippoli, which also explores religious communities shaped by conservative cult-like behavior and dependence on blind faith.


★★★★

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