50ª MOSTRA DE SP | Summer Drift, de Aline Suter e Céline Carridroit (Virages, 2026)

Summer Drift apresenta algumas propostas formais que fogem ao óbvio, mas pouco se esquiva de uma jornada individual rasa, que beira o esquecível.

Nos últimos anos, admito que ando um tanto saturado de um certo tipo específico de longa que aborda jornadas individuais, de pessoas perdidas pelo mundo, buscando sentido na própria vida. Não é exatamente uma novidade ao cinema, tal como também não é nenhuma novidade ao próprio ser humano, cuja filosofia, desde os mais remotos tempos, se ocupa com questões existencialistas como tais. Acontece que nem todo filme consegue propor algo de interessante a partir dessa proposta de reflexão, que muitas vezes recai sobre lugares comuns, repetindo temáticas, reciclando ideias e pouco conseguindo extrair algo a partir disso.
Summer Drift é um caso que se posiciona no limiar entre o interessante e o desinteressante que segue à risca essa fórmula de pessoas tentando se encontrar no mundo. Na trama, Johanna é uma mulher que trabalha em uma fábrica de relógios de luxo. Quieta, quase não se envolve ou interage com os colegas de trabalho, e carregando consigo traumas passados, demonstra medo até mesmo de revelar ser casada com outra mulher. Enquanto a esposa viaja para o México, a fim de encontrar seus familiares, a protagonista fica sozinha em casa, e decide voltar-se a um hobbie que a define: a corrida de carros.
Todo esse processo decisório é explorado com criatividade formal pelas cineastas Aline Suter e Céline Carridroit, enquanto a protagonista não dialoga explicitamente sobre seu passado, e tampouco se faz uma escolha mais óbvia, como flashbacks, para investigar os traumas. A partir da escrita de uma série de histórias em quadrinhos, colocadas sobre a tela acompanhadas de algumas outras passagens experimentais, vamos compreendendo mais profundamente a identidade de Johanna, as razões pelas quais não costuma se envolver com os demais colegas de trabalho, e o porquê acaba prezando por certa segurança, ao passo que já sofreu diferentes formas de violência no decorrer dos anos.
Essa esquiva aos diálogos genéricos e expositivos auxilia no ritmo mais fluido da própria narrativa, nessa compreensão, por intermédio da empatia, entre nós, espectadores, e a jornada de uma pessoa trans lutando para construir a própria identidade e ser respeitada em um meio intolerante. É o que torna o filme mais memorável, e onde versa sua maior originalidade dentro de uma proposta com uma fórmula já um tanto desgastada.
Por outro lado, em que pese essa relativa inspiração formal, em outros aspectos Summer Drift se alonga para desenrolar uma narrativa que, no fundo, acaba recaindo justamente no lugar comum. Enquanto busca maneiras de reformar seu fusca da década de 1970, e retomar as pistas de corrida, como um retorno aos “velhos tempos” de uma protagonista jovem, é interessante o acompanhamento na aquisição das peças, garimpo em ferro-velho, e a retomada dessa paixão, mas vai perdendo o impacto na medida em que se estende demais em uma grande mesmice, como se apenas aproveitasse da oportunidade para preencher a duração do filme, com observação silenciosa e passagens repetidas.
Quando se aproxima do final, as diretoras não conseguem encontrar uma maneira genuinamente forte para concluir essa jornada de autodescoberta, quando nem mesmo a sequência de corrida é propriamente mostrada pelo filme, justamente um dos momentos que seriam mais importantes pela própria reação da personagem, até bem vivida pela atriz Johanna Schopfer. Então, mesmo que com algumas ideias formais que fogem ao óbvio, Summer Drift pouco faz de diferente em relação a tantos filmes parecidos. Não é necessariamente um filme ruim, mas a não ser pelos quadrinhos em tela, resta pouco a se lembrar.
Avaliação: ★★★
Summer Drift (Virages, 2026)
Direção: Céline Carridroit, Aline Suter
Roteiro: Céline Carridroit, Aline Suter
Gênero: Documentário, drama, autoficção
Origem: Suíça, França
Duração: 91 minutos (1h31)
50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Sinopse: Durante o verão em Genebra, Johanna trabalha na linha de montagem de uma fábrica de relógios de luxo enquanto dedica seu tempo livre à restauração de um antigo Volkswagen Fusca. Ao decidir preparar o carro para participar de uma corrida na Bélgica, ela encontra a oportunidade de confrontar o meio automobilístico machista que a rejeitou após sua transição de gênero. Entre oficinas, amizades e motores, Johanna busca recuperar um espaço do qual foi excluída.
English review
Summer Drift presents some formal approaches that stray from the obvious, but does little to escape a shallow individual journey that borders on forgettable.

In recent years, I admit that I have grown somewhat tired of a certain specific type of feature film that deals with individual journeys, following people lost in the world and searching for meaning in their own lives. This is not exactly new to cinema, just as it is not new to human beings themselves, whose philosophy, since the most distant times, has been concerned with existential questions of this kind. The thing is, not every film manages to offer something interesting through this kind of reflection, which often falls back on familiar territory, repeating themes, recycling ideas, and extracting very little from them.
Summer Drift is a case that stands on the threshold between interesting and uninteresting while following to the letter this formula of people trying to find themselves in the world. In the story, Johanna is a woman who works in a luxury watch factory. Quiet and barely involved with or interacting with her coworkers, she carries past traumas and is afraid even to reveal that she is married to another woman. While her wife travels to Mexico to meet her relatives, the protagonist is left alone at home and decides to turn to a hobby that defines her: car racing.
This entire decision-making process is explored with formal creativity by filmmakers Aline Suter and Céline Carridroit, as the protagonist does not explicitly discuss her past, nor do the directors make the more obvious choice of using flashbacks to investigate her traumas. Through the writing of a series of comic strips, displayed on screen alongside several other experimental passages, we come to understand Johanna's identity more deeply, the reasons why she does not usually engage with her coworkers, and why she ultimately values a certain degree of security, having already suffered different forms of violence over the years.
This avoidance of generic, expository dialogue helps the narrative flow more smoothly, allowing us to understand, through empathy, the journey of a trans person struggling to build her own identity and be respected in an intolerant environment. This is what makes the film more memorable and where its greatest originality lies within a premise built around a somewhat worn-out formula.
On the other hand, despite this relative formal inspiration, Summer Drift drags on in other respects as it unfolds a narrative that ultimately falls right back into familiar territory. As she looks for ways to restore her 1970s Volkswagen Beetle and return to the racetrack, as a way of revisiting the “old days” of a young protagonist, following her efforts to acquire parts, search through scrapyards, and rekindle this passion is interesting, but it gradually loses its impact as it stretches on into a monotonous sameness, as though it were simply taking the opportunity to fill the film's running time with silent observation and repetitive passages.
As it approaches its ending, the directors fail to find a genuinely powerful way to conclude this journey of self-discovery, especially when the racing sequence itself is not even properly shown in the film, despite being one of the moments that should matter most because of the protagonist's own reaction, with the character well portrayed by actress Johanna Schopfer. Thus, even with some formal ideas that stray from the obvious, Summer Drift does little differently from so many similar films. It is not necessarily a bad film, but aside from the comic strips on screen, there is little left to remember.
★★★



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