50ª MOSTRA DE SP | The Arab, de Malek Bensmaïl (Idem, 2026)

The Arab se distancia de um contraponto à obra de Albert Camus, e volta sua atenção à transformação de uma Argélia através das décadas, com muitas propostas e sem saber como desenvolvê-las em conjunto.

Após assistir à O Estrangeiro, adaptação dirigida por François Ozon do livro homônimo de Albert Camus, confesso que fiquei muito interessado pela leitura da obra-base. Afinal, muito se falava que a nova versão da história nos cinemas captava, de maneira precisa, a atmosfera de indiferença do protagonista Meursault frente à realidade que o cercava, do falecimento de sua mãe ao homicídio que cometera, do personagem meramente referido pelo livro como “árabe”.
Frente a essa perspectiva de desinteresse, e escanteio, por parte do autor, na exploração desse homem assassinado, que nem mesmo nome no livro possui, o diretor argeliano Malek Bensmaïl decidiu construir uma ficção que girasse no entorno desse personagem. Mas na contramão de oferecer um contraponto a já conhecida história, através de outra perspectiva, o cineasta partiu da vaga adaptação de outra literatura, The Meursault Investigation, de Kamel Daoud, e volta sua narrativa à relação entre o irmão do árabe e um jornalista, o qual tenta convencer a contar sua história, já na década de 1990.
O resultado da proposta, no entanto, é ambíguo, a começar por uma narrativa fragmentada que não parece compreender exatamente o lugar no qual pretende chegar. Por um lado, todo o arco do jornalista, em uma reflexão da Argélia dos anos 1990, no qual é perseguido por discordar dos fundamentalistas religiosos e grupos dominantes, parece servir apenas para que se encontre com Haroun (vivido com paixão pelo veterano Ahmed Benaïssa, em seu último trabalho, lançado postumamente), o irmão do árabe, que contará, aos poucos, sua história de vida – onde realmente existe interesse por parte do texto em se aprofundar.
Quando adentra a esses momentos, nos quais direciona seu olhar ao passado, The Arab também rompe com a obra clássica, ao materializar uma cópia de O Estrangeiro às mãos dos personagens. O irmão de Haroun, Mussa, nesse universo, pode ter sido a inspiração de Camus para a escrita do livro, quando morto pelas mãos de um francês, também de nome Mersault, em uma praia, e com cinco tiros. No entanto, o contexto por detrás é outro, completamente diferente, em que pesem algumas semelhanças. Fato é que “o árabe” segue sendo uma vítima, mas sob uma história que não carrega o peso ou quaisquer ideias do livro – e tampouco o filme também demonstra interesse em se aprofundar.
O que se sucede são as consequências do fato para Haroun e sua mãe, quando decidem sair da capital, rumo ao interior do país para recomeçar a vida. As escolhas formais de Bensmaïl para explorar essas mudanças de ares ao longo da jornada dos protagonistas diferenciam o longa visualmente, provando uma direção consciente dos sentimentos que pretende transmitir a partir da imagem, e de uma trilha instrumental muito bem composta por Nicolas Rabaeus. Se na capital, durante todo o incidente envolvendo a morte do irmão, aplicava-se um filtro preto e branco, como registros de memórias doloridas, em um lugar sem esperança, a chegada ao vilarejo se dá com a retomada da cor, em uma transição espontânea. O mesmo acontece momentos depois, quando a ocupação francesa se encerra na Argélia, e torna-se um território independente – a razão de aspecto, antes fechada e claustrofóbica, que os retratava como pessoas “inferiores” ao olhar do colonizador, se expande, demonstrando uma liberdade que antes, como cidadãos argelianos, não possuíam.
Mas todo esse sentimento de liberdade com uma Argélia independente acaba por colapsar com o próprio desenrolar da narrativa. A sede de vingança ao colonizador é comum, mas que no filme se materializa em uma inversão à obra de Camus, mesclada a um luto jamais trabalhado (spoiler): é o irmão do “árabe”, que, anos mais tarde, junto da mãe, atiram em um francês, sem consequências (fim do spoiler).
Quando Bensmaïl aborda essa alternância entre passado e presente, caminhando da colônia francesa na década de 30/40 até o estado do país na década de 1990, as intenções do cineasta tornam-se duvidosas: seria de seu interesse retratar um país livre e de sentimento anticolonial, ou uma imagem de que, antes da independência, a Argélia, mesmo ocupada por europeus e repleta de segregação, se mostrava um lugar melhor para se viver? Pois na prática, ainda que não tente esconder a realidade local, é o como acaba soando sua obra, ainda mais quando jornalistas são perseguidos, e famílias inteiras são mostradas falecidas, ao chão, de maneira violenta.
Assim, quanto mais The Arab tenta se tornar um filme complexo, de abordagem multifacetada, especialmente à imagem do país, mais se atrapalha, também, em estabelecer o foco do que realmente pretende contar. Torna-se uma oportunidade perdida de fazer justiça ao “árabe” de Camus, como sugere o título, sem nada acrescentar à sua persona, e baseia toda a estratégia de divulgação e sinopse do filme em festivais em uma ideia que reflete apenas parte da obra; ao passo que também cai nas armadilhas da própria crítica da ausência de nome ao personagem, quando a mãe do protagonista no presente filme igualmente permanece inominada.
Avaliação: ★★½
The Arab (Idem, 2026)
Direção: Malek Bensmaïl
Roteiro: Malek Bensmaïl, Jacques Fieschi
Gênero: Drama, policial, histórico, suspense
Origem: Argélia, França, Suíça, Arábia Saudita, Bélgica
Duração: 106 minutos (1h46)
50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Sinopse: Em 1996, na cidade argelina de Orã, o jornalista Kamel conhece Haroun, um homem recluso que afirma ser irmão de Moussa, o árabe assassinado por Meursault no célebre romance O Estrangeiro, de Albert Camus. Ao recontar os acontecimentos de 1942 a partir da perspectiva de sua família, Haroun resgata a história de uma vítima cujo nome foi apagado da narrativa original, confrontando as marcas do colonialismo, a memória e a identidade argelina.
English Review
The Arab distances itself from being a counterpoint to The Stranger, instead turning its attention to the transformation of Algeria across the decades, with many ideas but little clarity on how to develop them together.

After watching The Stranger, directed by François Ozon and based on the novel by Albert Camus, I found myself particularly interested in reading the original work. Much has been said about how this new version captures the protagonist Meursault’s indifference toward the world around him - from his mother’s death to the murder he commits against a character referred to only as “the Arab.”
Faced with this marginalization and lack of interest in exploring that murdered man - who is not even given a name in the novel - Algerian director Malek Bensmaïl sets out to build a fiction around him. However, rather than offering a true counterpoint to the well-known story from another perspective, the filmmaker loosely adapts The Meursault Investigation, shifting the focus to the relationship between the Arab’s brother and a journalist who, in the 1990s, tries to convince him to tell his story.
The result is ambiguous, beginning with a fragmented narrative that never seems to fully understand where it wants to go. On one hand, the journalist’s arc - reflecting on 1990s Algeria, where he is persecuted for opposing religious fundamentalists and dominant groups - feels like little more than a narrative device to bring him to Haroun (passionately portrayed by Ahmed Benaïssa in his final, posthumous performance), the Arab’s brother, whose life story becomes the true focal point.
When the film shifts its attention to the past, it also breaks from Camus’ work by materializing a copy of The Stranger within its own universe. Haroun’s brother, Moussa, may have served as Camus’ inspiration, having been killed by a Frenchman named Meursault on a beach, shot five times. Yet the surrounding context is entirely different. While “the Arab” remains a victim, his story lacks the thematic weight of the original novel - and the film itself shows little interest in deepening it.
What follows are the consequences of this event for Haroun and his mother, as they leave the capital to rebuild their lives in the countryside. Here, Bensmaïl’s formal choices stand out: the visual language shifts alongside the emotional journey. The capital is rendered in black and white, evoking painful memories and a sense of hopelessness, while the move to the village restores color in a natural transition. Later, with Algeria’s independence from French occupation, the aspect ratio expands - previously tight and claustrophobic, reflecting their inferior status under colonial rule, it opens up to suggest newfound freedom.
However, this sense of liberation ultimately collapses as the narrative progresses. The desire for revenge against the colonizer emerges, culminating in a mirrored act of violence (spoiler): years later, Haroun and his mother kill a Frenchman without facing consequences (end of spoiler). This moment, blending vengeance with unresolved grief, further complicates the film’s thematic direction.
As Bensmaïl moves between past and present - from colonial Algeria in the 1930s/40s to the turbulent 1990s - his intentions become increasingly unclear. Is he aiming to portray a liberated nation shaped by anti-colonial sentiment, or suggesting that, despite segregation and occupation, the country was once a better place to live? In practice, the film often leans toward the latter impression, especially as it depicts journalists being hunted and entire families brutally killed.
Thus, the more The Arab attempts to position itself as a complex, multifaceted work - particularly in its portrayal of the country - the more it struggles to define its true focus. It becomes a missed opportunity to do justice to Camus’ “Arab,” as its title suggests, adding little to the character while marketing itself around an idea that represents only a fraction of what the film actually explores. In doing so, it also falls into the very trap it critiques: just as the original novel leaves its victim unnamed, so too does this film leave the protagonist’s mother without a name.
★★½



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