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50ª MOSTRA DE SP | O Filho da Puta, de Otto Guerra, Tania Anaya, Erica Maradona e Sávio Leite (Idem, 2026)

Foto do escritor: Henrique Debski
Henrique Debski
há 1 hora
6 min de leitura

Através da fantasia, a animação O Filho da Puta referencia Graciliano Ramos e Guimarães Rosa em divertida jornada sobre identidade pelo sertão.



Desde de o título que não guarda qualquer pudor e tampouco se importa com o “palavrão” que estampa, ao nome de Otto Guerra como um dos quatro diretores responsáveis pelo projeto, O Filho da Puta distancia-se daqueles casos em que os pais levam as crianças ao cinema para assistir a uma animação, acreditando ser o conteúdo infantil, apenas para se depararem com um filme para adultos, e sentirem-se revoltados com a própria imprudência, se não até irresponsabilidade. Como um formato cinematográfico, como qualquer outro, utilizado para contar uma história, a animação permite seus realizadores a abraçarem a criatividade em prol da construção de novos universos, e, mesmo que pautados na realidade, mantendo certo distanciamento estético ao mundo real.


Voltado justamente ao público adulto, e naturalmente maduro, a inspiração estética e narrativa na literatura de Guimarães Rosa e Graciliano Ramos nos leva ao sertão brasileiro, no estado de Minas Gerais. Na cidade de Veredas, sem grandes oportunidades, Ismael, cuja voz é de Gabriel Martins, um jovem faz-tudo, filho de uma famosa profissional do sexo local, é conhecido como “filho da puta” pelos vizinhos. Cansado do marasmo, junto do cão Bacalhau decide atravessar o país para procurar pelo pai, que nunca conheceu. 


Em estilo 2D, o longa estabelece as regras de seu universo logo na primeira cena, em que sobrevoa a cidade de Veredas enquanto brinca com a cadeia alimentar de alguns animais do sertão. Assim que Bacalhau solta suas primeiras palavras, em tom cômico de xingamento, muito divertidos na ótima dublagem de Matheus Nachtergaele, entendemos que a fantasia é parte integrante daquela realidade, que aos poucos se constrói através de personagens verossímeis e de língua afiada. O retrato proposto se amolda às visões dos autores mencionados, enquanto uma terra de poucas oportunidades.


Quando finalmente o protagonista cria coragem para sair de Veredas e caminhar até o litoral da Bahia, a estrada não pavimentada em seu caminho revela um Estado ausente, pouco preocupado com a população local, sem qualquer representação efetiva em um espaço tomado pela falta de leis. Mulheres carregam espingardas para se proteger, os supostos policiais utilizam-se da força de maneira corrupta, para exigir de cidadãos vantagens indevidas, e a violência é uma realidade tão próxima dos personagens que até mesmo um assaltante cantor usa de sua arte para abrir o coração em relação à própria tragédia.


A discussão sobre a busca de identidade do protagonista em sua jornada pelo sertão se articula conjuntamente com a exploração, em aspectos sociais, do local em que nasceu e desde sempre viveu. Aos poucos, verifica-se o abandono paterno ou a violência contra a mulher como uma constante na vida de quase todos aqueles com quem Ismael cruza pelo caminho, e, que, de uma forma ou de outra, sem nem mesmo se dar conta, ajuda na alimentação de um ciclo vicioso que circunda toda a região. 


Esse ciclo, tão bem elaborado no decorrer da narrativa através das personalidades excêntrico as quais somos apresentados, se materializa em tela de maneira discreta, na medida em que os diretores Otto Guerra, Tania Anaya, Erica Maradona e Sávio Leite costuram as histórias contadas junto a de Ismael, como um retrato de tempo e espaço no qual vivem os personagens, ainda no século XX, sem internet, televisão ou redes sociais. O protagonista é um “filho da puta” dentre tantos no sertão, cuja alcunha é trabalhada nos dois sentidos possíveis - literal e como xingamento. 


O filme, nesse sentido, não minimiza os erros do personagem, mas reconhece como fruto de algo maior e mais complicado, que está além de sua mera existência como pessoa, mas sim imerso em um grande círculo vicioso social. Ao mesmo tempo, trabalha sua história também como uma homenagem histórica à cultura brasileira, de elementos mitológicos, referências literárias e até no próprio traço, que em certa medida lembra das ilustrações impressas na literatura de cordel, típica do sertão. Foi uma surpresa muito agradável, que além de divertido pela fantasia, revela-se também uma obra profunda ao falar sobre identidade.


Avaliação: ★★★★

 

O Filho da Puta (Idem, 2026)

Direção: Erica Maradona, Tania Anaya, Otto Guerra, Sávio Leite

Roteiro: Carla Guimarães

Gênero: Animação, comédia, drama

Origem: Brasil

Duração: 72 minutos (1h12)

50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 


Sinopse: No interior de Minas Gerais, Ismael vive em uma pequena cidade onde sua mãe administra o bordel Casa Rosa, circunstância que lhe rende o apelido de Filho da Puta. Cansado da vida que leva e movido pelo desejo de encontrar o pai que nunca conheceu, ele parte em uma jornada rumo ao litoral acompanhado de seu cachorro, Bacalhau. Ao longo do caminho, encontros e situações inesperadas o obrigam a confrontar a realidade da qual tenta escapar.


English review


Through fantasy, the animated film O Filho da Puta references Graciliano Ramos and Guimarães Rosa in an entertaining journey about identity through the Brazilian backlands.



From its title, which shows no restraint and has no qualms about the “swear word” it displays, to the name of Otto Guerra as one of the four directors responsible for the project, O Filho da Puta (Son of a Bitch) distances itself from those cases in which parents take their children to the cinema to watch an animated film, believing it to be aimed at children, only to find themselves faced with a film for adults and feel outraged by their own recklessness, if not outright irresponsibility. As a cinematic format, like any other used to tell a story, animation allows its creators to embrace creativity in building new universes, even when grounded in reality, while maintaining a certain aesthetic distance from the real world.


Aimed specifically at an adult and naturally mature audience, the aesthetic and narrative inspiration drawn from the literature of Guimarães Rosa and Graciliano Ramos takes us to the Brazilian backlands, in the state of Minas Gerais. In the town of Veredas, where opportunities are scarce, Ismael, voiced by Gabriel Martins, is a young jack-of-all-trades and the son of a famous local sex worker, known by his neighbors as a “son of a bitch.” Tired of the monotony, he decides to cross the country with his dog Bacalhau to look for the father he has never known.


In a 2D style, the feature establishes the rules of its universe in the very first scene, flying over the town of Veredas while playing with the food chain of some animals from the backlands. As soon as Bacalhau utters his first words, in a comedic tone filled with insults, made all the more entertaining by Matheus Nachtergaele's excellent voice performance, we understand that fantasy is an integral part of that reality, which gradually takes shape through believable, sharp-tongued characters. The portrait presented aligns with the views of the aforementioned authors, depicting a land of scarce opportunities.


When the protagonist finally gathers the courage to leave Veredas and walk toward the coast of Bahia, the unpaved road ahead reveals an absent state, with little concern for the local population and no effective representation in a place dominated by a lack of laws. Women carry shotguns to protect themselves, supposed police officers use force corruptly to demand undue advantages from citizens, and violence is such a constant presence in the characters' lives that even a singing robber uses his art to open his heart about his own tragedy.


The discussion of the protagonist's search for identity on his journey through the backlands unfolds alongside an exploration of the social conditions of the place where he was born and has always lived. Gradually, paternal abandonment and violence against women emerge as recurring features in the lives of almost everyone Ismael encounters along the way, people who, in one way or another, without even realizing it, help sustain a vicious cycle that surrounds the entire region.


This cycle, so well developed throughout the narrative through the eccentric personalities we encounter, is subtly brought to the screen as directors Otto Guerra, Tania Anaya, Erica Maradona, and Sávio Leite weave the stories told together with Ismael's own, creating a portrait of the time and place in which the characters live, still in the 20th century, without the internet, television, or social media. The protagonist is one “son of a bitch” among many in the backlands, with the label explored in both of its possible meanings - literal and as an insult.


In this sense, the film does not downplay the character's mistakes, but recognizes them as the result of something greater and more complicated, something that goes beyond his mere existence as a person, as he is immersed in a larger social vicious cycle. At the same time, it also presents his story as a historical tribute to Brazilian culture, incorporating mythological elements, literary references, and even its own drawing style, which in some ways recalls the illustrations printed in literatura de cordel, a form of popular literature typical of the backlands. It was a very pleasant surprise that, beyond being entertaining through its fantasy, also proves to be a profound work about identity.


★★★★

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