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50ª MOSTRA DE SP | Objet A, de Ann Oren (Idem, 2026)

Foto do escritor: Henrique Debski
Henrique Debski
há 7 horas
6 min de leitura

Em meio a uma crise de prazer, Ann Oren aproveita de formalismos estéticos, simbologias e excentricidades para explorar um casal em jornada de reconexão.



Ao som de música instrumental, Ann Oren torna o simples olhar à rotina matinal de um casal uma maneira precisa de estabelecer o formalismo com o qual conduzirá sua narrativa. Ingeborg e Adam, muito bem interpretados por Aenne Schwarz e Louis Hoffmann, são um casal de renomados médicos-cirurgiões excêntricos. Antiquados, rejeitam a tecnologia e a contemporaneidade ao levar uma vida pautada em um estilo muito próximo do século XX.


Toda essa construção inicial, bastante cuidadosa, parte da proposta da cineasta em suscitar o estranhamento por parte do público a essas pessoas tão diferentes, que nutrem entre si uma relação de proximidade muito distante, por mais contraditório que isso possa parecer. Nos momentos que compartilham, pouco falam entre si, senão apenas o estritamente necessário para o trabalho que desempenham. O que os move em conjunto, afinal, é uma questão muito mais física, pautada na dominação-submissão, e nos fetiches que compartilham como meios de satisfação, especialmente na admiração, quase obsessiva, do personagem masculino pela personagem feminina. Entretanto, existe um descompasso que permeia este espaço desde o princípio, talvez fruto de um desgaste na relação, trabalhado até de maneira um tanto discreta, mas ainda assim bastante perceptível.


Após um acidente em uma escada fraturar um osso na perna de Ingeborg, fazendo-a recorrer a uma espécie de mistura entre muleta e perna de pau para conseguir se locomover com o membro imobilizado, de forma a continuar trabalhando enquanto se recupera, uma transformação é promovida na vida desse casal, não apenas com essa nova condição, mas também através da contratação de uma assistente, Gaia, vivida por Simone Bucio, para auxiliá-los temporariamente nesse momento. 


A fixação de Ingeborg pelo inanimado se fortalece quando começa a demonstrar afeição por aquele objeto que a apoia em suas jornadas diárias. A presença de Gaia aos poucos se torna um catalisador dos prazeres desse casal desgastado, enquanto um triângulo amoroso se forma a partir de sua presença e convivência com os protagonistas em seus cotidianos. 


No decorrer da narrativa, as relações são desconstruídas, enquanto uma onda de calor atinge a cidade, fortalecendo um teor de slow-burn que culmina em algo próximo ao estouro de uma panela de pressão nos instantes finais. A diretora é atenciosa enquanto explora essa insatisfação, e usa dos objetos como representantes das relações sexuais, por meio do toque e de movimentos com o corpo que evocam a ideia do prazer.


Se no decorrer da projeção posicionaram-se cogumelos e caracóis em diversas oportunidades, na construção de um simbolismo cíclico com elementos bíblicos, a conclusão busca reforçá-lo ao buscar pelo retorno a um status quo, e não teme a manutenção do padrão de estranhamento proposto desde o princípio, alavancando o próprio uso da fantasia enquanto realinha os pensamentos dos protagonistas, na superação dessa crise matrimonial que os aflige, da qual nunca efetivamente conversam - até por uma opção da própria obra, que relega aos diálogos apenas questões de trabalho ou estritamente necessárias, para justamente explorar mais a fundo as feições e reações de seus personagens, que funciona de maneira exitosa em razão da escolha e dedicação do elenco.


E dessa maneira, Objet A encontra justamente sua originalidade na maneira como representa as relações entre os protagonistas, e sobretudo em como materializa, por meio da imagem, os prazeres e interesses sexuais dessas pessoas, ao passo que posiciona sua câmera com proximidade destes, e se aproveita da fantasia para experimentar com o desenvolvimento desse relacionamento em crise de prazer. Ann Oren busca suas referências em movimentos como a Estranha Onda Grega, e no próprio cinema de David Cronenberg, nessa fixação pelo corpo humano, enquanto provoca o espectador na base de um estranhamento que sustenta do começo ao fim, sem tréguas, como parte essencial de seu universo. 


Avaliação: ★★★½

 

Objet A (Idem, 2026)

Direção: Ann Oren

Roteiro: Ann Oren, Geoffroy Grison

Gênero: Drama, suspense, erótico

Origem: Alemanha, Luxemburgo, Grécia

Duração: 95 minutos (1h35)

50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


Sinopse: Ingeborg e Adam são cirurgiões especializados em mãos cuja relação amorosa é marcada pelo controle e por obsessões particulares. Enquanto ela tem o impulso compulsivo de roubar objetos, ele deseja transformar a si próprio em um objeto. Quando um acidente aproxima o casal da enigmática Gaia, uma jovem que passa a ajudar Ingeborg, novos desejos e fixações emergem, abalando o equilíbrio meticulosamente construído em suas vidas.


English review


Amid a crisis of pleasure, Ann Oren makes use of aesthetic formalism, symbolism, and eccentricities to explore a couple on a journey of reconnection.



To the sound of instrumental music, Ann Oren turns the simple act of observing a couple's morning routine into a precise way of establishing the formalism with which she will conduct her narrative. Ingeborg and Adam, very well portrayed by Aenne Schwarz and Louis Hoffmann, are a couple of renowned, eccentric surgeon-doctors. Old-fashioned, they reject technology and contemporaneity by leading a life shaped by a style very close to that of the 20th century.


This entire initial construction, quite carefully crafted, stems from the filmmaker's intention to evoke a sense of estrangement in the audience toward these very different people, who share a relationship of great emotional distance despite their closeness, however contradictory that may seem. When they spend time together, they barely speak to each other, saying only what is strictly necessary for the work they do. What ultimately brings them together is something much more physical, shaped by dominance and submission, and by the fetishes they share as means of gratification, particularly the male character's almost obsessive admiration for the female character. Nevertheless, there is a disconnect that permeates this space from the very beginning, perhaps the result of wear and tear in their relationship, handled somewhat discreetly but still quite perceptible.


After an accident on a staircase fractures a bone in Ingeborg's leg, forcing her to resort to a kind of hybrid between a crutch and a peg leg to move around with the limb immobilized, allowing her to continue working while she recovers, a transformation takes place in this couple's life, not only because of her new condition but also through the hiring of an assistant, Gaia, played by Simone Bucio, to help them temporarily during this period.


Ingeborg's fixation on the inanimate grows stronger when she begins to show affection for the object that supports her on her daily journeys. Gaia's presence gradually becomes a catalyst for the pleasures of this worn-out couple, as a love triangle forms through her presence and interactions with the protagonists in their everyday lives.


As the narrative unfolds, the relationships are deconstructed while a heat wave hits the city, reinforcing a slow-burn quality that culminates in something resembling a pressure cooker exploding in the final moments. The director is attentive as she explores this dissatisfaction, using objects as representations of sexual relations through touch and bodily movements that evoke the idea of pleasure.


If mushrooms and snails appeared on several occasions throughout the film, as part of a cyclical symbolism involving biblical elements, the conclusion seeks to reinforce this symbolism by pursuing a return to the status quo. It does not shy away from maintaining the sense of estrangement established from the beginning, amplifying the use of fantasy as it realigns the protagonists' thoughts and helps them overcome the marital crisis afflicting them, one they never actually discuss. This is also a choice made by the film itself, which limits dialogue to matters of work or other strictly necessary issues, precisely to explore more deeply the expressions and reactions of its characters. This approach succeeds thanks to the cast's choices and dedication.


In this way, Objet A finds its originality precisely in how it represents the relationships between the protagonists, and above all in how it materializes these people's pleasures and sexual interests through images, positioning the camera close to them and making use of fantasy to experiment with the development of this relationship in a crisis of pleasure. Ann Oren draws on movements such as the Greek Weird Wave, as well as David Cronenberg's cinema itself, in this fixation on the human body, while provoking the viewer through a sense of estrangement that she sustains relentlessly from beginning to end, as an essential part of her universe.


★★★½


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