50ª MOSTRA DE SP | A Condessa Sangrenta, de Ulrike Ottinger (The Blood Countess, 2026)

O retorno de Ulrike Ottinger ao cinema de ficção esbanja belos visuais e conta com uma boa atuação de Isabelle Huppert, mas decepciona ao divagar sem saber o que deseja contar, ou no que pretende focar.

Após décadas voltando seu cinema diretamente ao documentário, a lendária cineasta alemã Ulrike Ottinger retorna à ficção em A Condessa Sangrenta. Não seria possível esperar por um retorno mais especial do que este, ao contar com a versátil Isabelle Huppert como protagonista em um filme de vampiros. E de certo, é mesmo impossível pensar em um resultado mais excêntrico, combinando atuações e visuais ao formalismo de uma direção capaz de construir um universo que opera sob regras muito particulares.
A beleza dos exuberantes figurinos já é capaz de chamar a atenção logo na primeira cena, que marca o retorno da protagonista de uma espécie de “hibernação” - uma clara referência também à própria diretora -, enquanto navega pelos inundados túneis subterrâneos de Viena em uma grande embarcação escarlate, que se funde ao longo vestido e maquiagem. Uma espécie de livro misterioso, neste mesmo plano inicial, revela a única maneira de vampiros retornarem à forma humana, de meros mortais: caso sobre ele derramem lágrimas sinceras.
Apesar dessa proposta vampiresca e do livro misterioso constituírem elementos interessantes para explorar um universo no qual o passado e o presente se fundem sob um mesmo chão, o roteiro assinado por Ottinger e Elfriede Jelinek nunca consegue decidir o que realmente deseja contar. No decorrer da narrativa, inúmeros personagens surgem a todo tempo, cada qual com suas intenções, conflitos, dramas e sentimentos, enquanto a temida condessa Erzsébet Báthory, vivida por Huppert, corre de um lado para outro investigando o suposto paradeiro do livro, seguindo pistas deixadas por sabe-se lá quem ao longo de séculos.
A ideia da caça ao tesouro, orquestrada até de uma maneira um tanto infantil, proposital para estabelecer uma veia cômica, transpassa um sentimento de que anos sobre as costas não necessariamente são suficientes para o amadurecimento do ser humano. O mesmo também vale aos demais vampiros, divertindo-se recriando passagens de batalhas históricas em um porão, como crianças brincando ao compartilharem memórias por toda a eternidade.
No contraponto do prazer de Báthory pelo sangue humano, seu sobrinho, que assume o protagonismo de outro arco, expõe as contradições da natureza de um ser imortal, enquanto vegetariano, viciado em bolinhos, e extremamente metódico ao ponto de usar roupas de apenas uma única cor. O conhecimento acerca da existência do livro, depois de certo ponto, os unem com objetivos distintos, e contrários, sem que saibam: enquanto ela quer destruir o instrumento que ameaça sua espécie, ele deseja tornar-se humano.
O estranhamento narrativo frente às bizarrices e excentricidades que propõe diante do espectador colocam Huppert em uma personagem cômica com ar de seriedade, sendo ela, de fato, o grande destaque do filme. No entanto, o excesso dos figurinos e da maquiagem muitas vezes escondem suas feições, e não aproveitam completamente a versatilidade de uma atriz que trabalha muito com o olhar e trejeitos específicos.
Da mesma maneira, a narrativa excessivamente ramificada, repleta de personagens aparecendo e desaparecendo a todo tempo leva A Condessa Sangrenta em uma série de divagações que desviam de um objetivo central, resolvido de última hora, em uma conclusão igualmente bizarra, é verdade, mas também pouco memorável, como se faltasse criatividade ou tempo para chegar nela, em um filme naturalmente longo, com quase duas horas de duração. No fim, sobram momentos inesperados e de ousadia estética, como uma passagem musical queer, mas que parecem deslocados até mesmo do universo de fantasia construído. Apesar do coração aberto, demorei muito para me engajar de verdade nesse mundo diante de tanta informação despejada sobre o espectador desde cedo, que, no fundo, pouco nos ajuda a compreender como essa realidade de vampiros funciona, e o que sentem esses personagens. É notório que Ottinger se preocupou mais com a forma e a excentricidade visual do que com aquilo que desejava contar, afastando o público de um filme repleto de boas ideias, que nunca são aproveitadas de verdade, e tampouco chegam a algum lugar.
Avaliação: ★★½
A Condessa Sangrenta (The Blood Countess, 2026)
Direção: Ulrike Ottinger
Roteiro: Ulrike Ottinger e Elfriede Jelinek
Gênero: Comédia, fantasia, terror
Origem: Áustria, Luxemburgo, Alemanha
Duração: 119 minutos (1h59)
50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Sinopse: Décadas após seu misterioso desaparecimento, a Condessa Sangrenta ressurge na Viena contemporânea e reencontra Hermine, sua fiel criada. Juntas, elas partem em busca de um livro capaz de destruir todos os vampiros, incluindo elas próprias. Durante a jornada, recrutam o sobrinho da condessa, Bubi, um vampiro vegetariano, e seu psicoterapeuta, enquanto uma dupla de especialistas em vampiros e um inspetor de polícia seguem seus passos. Inspirado nas lendas de Elizabeth Báthory, o filme mistura humor macabro, fantasia e crítica aos mitos históricos.
English review
Ulrike Ottinger's return to fiction cinema is brimming with beautiful visuals and features a strong performance by Isabelle Huppert, but disappoints as it rambles without knowing what it wants to tell or what it intends to focus on.

After decades of directing her attention primarily toward documentary cinema, legendary German filmmaker Ulrike Ottinger returns to fiction with The Blood Countess. It would be difficult to imagine a more special return than this one, with the versatile Isabelle Huppert starring in a vampire film. And indeed, it is hard to imagine a more eccentric result, combining performances and visuals with the formalism of a direction capable of building a universe that operates according to very particular rules.
The beauty of the exuberant costumes is already enough to capture our attention in the very first scene, which marks the return of the protagonist from a kind of "hibernation" - a clear reference to the director herself as well - as she sails through Vienna's flooded underground tunnels in a large scarlet vessel that blends with her long dress and makeup. A mysterious book, introduced in this same opening shot, reveals the only way for vampires to return to human form, becoming mere mortals: if sincere tears are shed upon it.
Although this vampiric premise and the mysterious book constitute interesting elements for exploring a universe in which the past and present merge on the same ground, the screenplay written by Ottinger and Elfriede Jelinek never manages to decide what it actually wants to tell. Throughout the narrative, countless characters keep appearing, each with their own intentions, conflicts, dramas, and feelings, while the feared Countess Erzsébet Báthory, played by Huppert, runs from one place to another investigating the supposed whereabouts of the book, following clues left by who knows whom over the centuries.
The idea of a treasure hunt, orchestrated in a somewhat childish manner, deliberately establishing a comedic streak, conveys the feeling that years of life do not necessarily suffice for a human being to mature. The same applies to the other vampires, who amuse themselves by reenacting historical battles in a basement, like children playing as they share memories throughout eternity.
In contrast to Báthory's pleasure in human blood, her nephew, who takes center stage in another storyline, exposes the contradictions of an immortal creature's nature as a vegetarian, addicted to little cakes, and so methodical that he wears clothes in only one color. The discovery of the book's existence eventually brings them together with distinct and opposing goals, without either of them knowing the other's intentions: while she wants to destroy the object that threatens her species, he wants to become human.
The narrative estrangement produced by the bizarre and eccentric elements presented to the viewer places Huppert in a comedic role that nevertheless maintains an air of seriousness, making her, in fact, the film's greatest highlight. However, the excessive costumes and makeup often conceal her features and fail to fully take advantage of the versatility of an actress whose performance relies heavily on her gaze and specific mannerisms.
Likewise, the excessively ramified narrative, filled with characters who constantly appear and disappear, leads The Blood Countess into a series of digressions that stray from any central objective, which is resolved at the last minute in an equally bizarre conclusion, admittedly, but also a largely unmemorable one, as though the film lacked the creativity or time to reach it, despite being naturally lengthy, running for almost two hours. In the end, unexpected moments and aesthetic boldness abound, such as a queer musical sequence, but they seem disconnected even from the fantasy universe that has been constructed. Despite approaching the film with an open mind, it took me a long time to become genuinely engaged with this world, given the sheer amount of information dumped on the viewer from the outset, which ultimately does little to help us understand how this vampire reality works or what these characters feel. It is clear that Ottinger was more concerned with form and visual eccentricity than with what she wanted to tell, distancing the audience from a film full of good ideas that are never truly developed and never really lead anywhere.
★★½



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