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30º FANTASIA FILM FESTIVAL | Unidentified Murder, de Kwok Ka-Hei e Jack Lee Chun-Kit (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • 19 de jul.
  • 6 min de leitura

Sob diversas camadas de manipulação, Unidentified Murder adota estrutura de pontos de vista em uma grande bola de neve repleta de reviravoltas, entre alienígenas, redes sociais, humor e um mistério de duas décadas.


 

É praticamente inevitável o estabelecimento de uma relação, ainda que vaga, entre toda a sequência inicial de Unidentified Murder com a clássica série de televisão noventista norte-americana Arquivo X. Os alienígenas mais genéricos, como imaginamos no presente, derivam notoriamente de uma imagem não necessariamente criada, mas com certeza popularizada pela obra de Chris Carter, enquanto criaturas acinzentadas, de corpos e formatos humanoides, com grandes olhos escuros. As imagens de baixa qualidade geradas por inteligência artificial, que surgem para ilustrar a história do passado que baseia toda a narrativa, em um primeiro momento até me levantou certa preocupação, mas fizeram absoluto sentido quando toda a sequência inicial se trata, na verdade, de um programa transmitido pela internet, sobre vida fora da Terra e aparições extraterrestres.

 

É a partir dele que conhecemos a dupla de protagonistas, que há vinte e cinco anos, ainda crianças, testemunharam uma abdução alienígena em uma floresta de Hong Kong, que não apenas marcou suas vidas, em um dos fenômenos mais misteriosos locais, como também foi responsável pelo desaparecimento de Ho, seu melhor amigo. Todos os elementos típicos de um fenômeno do tipo encontram respaldo em seus relatos, da luz forte à perda de uma hora no relógio entre um momento e outro, do qual pouco se recordam.

 

Partindo de um filme de telas, do computador, na transmissão do programa de internet, ao celular da namorada de um dos protagonistas, o longa abandona tal formato em poucos minutos para uma câmera na mão, a todo tempo próxima da ação, como uma espécie de documentário, repleta de aproximações e “zooms”, acompanhando os personagens de perto. Nas datas anteriores ao aniversário do fenômeno, o dia central do filme, a narrativa se estrutura com inspirações em Hashomon, e caminha até determinados pontos, apenas para oferecer digressões, novamente acompanhando os fatos sob diferentes pontos de vista.

 

Não demora para se revelar, então, uma verdadeira comédia de erros, repleta de manipulações, entre tentativas de pegadinhas simultâneas, segundas intenções, e aos poucos uma cada vez maior proximidade entre as relações de causalidade versando dois tempos distintos – passado-presente –, capaz de revelar verdades ocultas e fatos escondidos nas entrelinhas das histórias contadas.

 

Como um thriller de comédia e ficção científica assumidamente manipulativo, os mistérios não se restringem tão somente aos personagens. A direção da dupla Kwok Ka-Hei e Jack Lee Chun-Kit (o segundo em sua estreia na função, e que trabalhou como diretor assistente do ótimo Stuntman, presente na edição do Fantasia do ano passado, e com crítica por aqui) demonstra cuidado e interesse em transmitir parte desses sentimentos de confusão também ao espectador, porquanto estrutura a narrativa como um grande quebra-cabeças, cujas peças são dadas aos poucos, incentivando e privilegiando as habilidades do público de intuir o que de fato está acontecendo em cena, na medida em que as camadas da confusão vão sendo derrubadas, e as verdades emergem de uma grande bola de neve muito mais complexa do que se imagina.

 

A montagem assinada por Chun-Kong Kwok e Man-Kit Li também assume boa parte do crédito pelo sucesso da obra, na medida em que habilmente insere as digressões e pontos de vista nos momentos-chave para surpreender, sustentando os mistérios, com as implícitas resoluções em um primeiro momento, para posteriormente as revelar em detalhes, encaixando-se com criatividade no desenrolar dos eventos, e na visão geral que temos ao final.

 

O mais interessante, enfim, é que Unidentified Murder vai para muito além de um mero thriller manipulativo. A partir das condições de seus personagens, conhecidos na internet e que usam do espaço como seus meios de vida – algo que até poderia ser melhor trabalhado –, explora as contradições entre as personalidades à frente e por detrás das câmeras, ao mesmo tempo que reflete as mentiras contadas para viralizar. Oferece, no subtexto, a ideia da desconfiança online, ao mesmo tempo que trabalha a força da mentira ao longo de décadas, antes e depois das redes sociais.

 

Avaliação: ★★★½

 

Unidentified Murder (Idem, 2026)

Direção: Kwok Ka-Hei e Jack Lee Chun-Kit

Roteiro: Jack Lee Chun-Kit, Choi Ka-Hang, Kwok Ka-Hei e Ho Siu-Hong

Gênero: Comédia, Thriller, Ficção Científica

Origem: Hong Kong

Duração: 86 minutos (1h26)

Exibido no 30º Fantasia Film Festival

 

Sinopse: Quando a pegadinha de um casal de influenciadores termina com uma morte, chantagem, alienígenas e conexões com o caso de uma criança desaparecida há 25 anos vêm à tona, lançando todos os envolvidos em uma intrincada teia de mistérios.

 

English review

 

Beneath multiple layers of manipulation, Unidentified Murder adopts a multi-perspective structure that gradually snowballs into a whirlwind of twists involving aliens, social media, comedy, and a two-decade-old mystery.



It is practically impossible not to draw at least a loose connection between the opening sequence of Unidentified Murder and the classic 1990s American television series The X-Files. The generic image of extraterrestrials as we commonly imagine them today is undeniably derived from - if not created, certainly popularized by - Chris Carter's series, depicting gray-skinned, humanoid creatures with oversized dark eyes. At first, the low-quality artificial intelligence-generated images used to illustrate the backstory that drives the narrative raised some concerns, but they ultimately make perfect sense once it becomes clear that the entire opening sequence is actually part of an internet program dedicated to extraterrestrial life and alien encounters.

 

It is through this show that we meet the two protagonists, who, twenty-five years earlier as children, witnessed an alien abduction in a forest outside Hong Kong - an event that not only shaped the rest of their lives as one of the region's greatest unsolved mysteries, but also resulted in the disappearance of their best friend, Ho. Every hallmark of a classic abduction case appears in their testimony, from the blinding light to the unexplained missing hour they can barely remember.

 

Beginning as a screenlife film, shifting between a computer monitor broadcasting the internet show and the cellphone of one protagonist's girlfriend, the film abandons that format within minutes in favor of a constantly moving handheld camera that stays close to the action like a documentary, filled with close-ups and frequent zooms that relentlessly follow the characters. In the days leading up to the anniversary of the incident - the central day on which the film unfolds - the narrative embraces a structure inspired by Rashomon, repeatedly advancing to certain points only to circle back through digressions, revisiting the same events from different perspectives.

 

It does not take long for the film to reveal itself as a genuine comedy of errors, built upon layers of manipulation involving simultaneous prank attempts, hidden agendas, and an ever-growing web of causal connections linking two different timelines - past and present - gradually uncovering concealed truths and facts hidden beneath the stories being told.

 

As an openly manipulative blend of thriller, comedy, and science fiction, its mysteries are not limited solely to the characters themselves. Directors Kwok Ka-Hei and Jack Lee Chun-Kit (the latter making his feature directorial debut after serving as assistant director on the excellent Stuntman, which screened at last year's Fantasia Festival and was previously reviewed here) clearly demonstrate an interest in extending that same confusion to the audience. They construct the narrative like an elaborate puzzle whose pieces are revealed little by little, rewarding viewers who attempt to deduce what is truly unfolding on screen as each layer of deception is stripped away, allowing the truth to emerge from a snowball of events far more intricate than it initially appears.

 

The editing by Chun-Kong Kwok and Man-Kit Li also deserves much of the credit for the film's success, skillfully inserting its digressions and shifting perspectives at precisely the right moments to maximize surprise. By initially implying certain resolutions before later revealing them in full detail, the editing allows every narrative thread to fall creatively into place, ultimately reshaping the audience's understanding of the entire story.

 

Most interesting of all, however, is that Unidentified Murder becomes far more than simply another manipulative thriller. Through protagonists who have built public identities on the internet and rely on online platforms for their livelihoods - an idea that admittedly could have been explored in greater depth - the film examines the contradictions between the personalities people project in front of the camera and who they truly are behind it, while simultaneously reflecting on the lies manufactured for the sake of going viral. Beneath its surface, it offers a thoughtful meditation on online distrust while demonstrating the enduring power of deception across decades, both before and after the rise of social media.


★★★½

 

Unidentified Murder was screened at 30th Fantasia Film Festival.

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