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50ª MOSTRA DE SP | Behemoth! Uma Vida Composta em Peças (Behemoth!, 2026)

Foto do escritor: Henrique Debski
Henrique Debski
há 2 horas
6 min de leitura

Tony Gilroy surpreende pela integração metalinguística entre a vida do protagonista e a trilha musical reproduzida pelo próprio diante das câmeras, em bom drama protagonizado por Pedro Pascal.



A autenticidade narrativa não é exatamente um dos pontos fortes de Behemoth!, drama que fez sua estreia mundial no Festival de Nova York em outubro deste ano. Como um filme que narra a jornada de um violoncelista pelo mar de indecisão e confusão da própria vida, outro longa recente, TÁR, de Todd Field, oferece um estudo de personagem mais profundo a partir da dubiedade de sua protagonista, uma celebrada maestrina egocêntrica de moral duvidosa.


Entretanto, em que pese o aspecto burocrático da história que conta, a qual pouco se esquiva a outros estudos de personagem mais realistas, como pessoas presas e imersas em uma vida repleta de erros e acertos, tristezas e alegrias, arrependimentos e sucessos, confesso que Behemoth! me surpreendeu pela forma como Tony Gilroy, roteirista de sucesso e diretor do longa, conseguiu trabalhar a integração entre os momentos da vida desse personagem falho e humano com a trilha musical, em uma relação direta, quase simbiótica, de seu trabalho enquanto violoncelista.


Construindo sua narrativa a partir de dois tempos distintos, não exatamente de maneira linear, os poucos momentos em que acompanhamos o protagonista no passado servem como justificativa para a presença de elementos inseridos no tempo presente. Tais elementos surgem no presente, posteriormente se materializam no passado, e definem pensamentos que circundam a mente do personagem, que, ao espectador, soam como um mistério a ser revelado, na forma de um quebra-cabeças constituído por memórias e lembranças. A partir desse jogo que se propõe, os pequenos mistérios criados chamam a atenção justamente para fomentar um mergulho a essa mente que tentamos desvendar, esclarecendo cada detalhe no decorrer da projeção, entre surpresas e reviravoltas.


No entanto, essa narrativa fragmentada pela montagem, que evoca uma relação de causa e consequência, também encontra certa dificuldade em manter uma lógica interna, na medida em que os flashbacks não obedecem a uma estrutura específica, senão apenas como uma forma de explicar alguns dos elementos passados que surgem sobre o presente. Não há exatamente uma uniformidade, e determinados personagens exercem funções narrativas que não justificam seus estereótipos até um tanto problemáticos, como toda a presença de Olivia Wilde em cena.


Em meio a esses “mistérios”, o aspecto cômico da proposta de Tony Gilroy se estende com criatividade à forma como se aproveita da trilha musical e da profissão do protagonista para as integrar com uma inesperada quebra da quarta parede, como parte de uma grande brincadeira metalinguística. Correlacionando passagens na orquestra em que toca, como parte da equipe de composição de trilhas musicais para filmes hollywoodianos, com a própria vida presente, torna-se divertido assistir a sequências de “perseguição” e flertes com o cinema de espionagem (claramente em uma minúscula escala, de situações cotidianas) intercalados com o próprio protagonista tocando as músicas que o acompanham.  


Soa muito natural a ideia de que o próprio personagem, em uma tentativa de retormar o controle da própria vida, o faz conscientemente por meio da música que define o tom dos atos que desempenha em frente ao espectador, ao menos inicialmente. No decorrer da própria narrativa, a perda desse controle revela certa volatilidade do protagonista, e mais, os motivos que o levam a se mudar constantemente, como se fugisse sempre que algo se complica. É precisamente quando perde as rédeas das composições musicais, assumidas por outra personagem, próximo da reta final.


Então, Behemoth!, apesar de estereótipos nas personagens femininas, e uma lógica relativamente ausente quanto ao uso de flashbacks, encontra muita inventividade na relação entre montagem, trilha e narrativa por intermédio da metalinguagem. Tony Gilroy acaba construindo um bom personagem que foge constantemente dos problemas da própria vida, na forma de grandes círculos, e com boas surpresas pelo caminho ao público, as preparando como se fosse um quebra-cabeças. E nisso, Pedro Pascal, destaque para o longa na temporada de prêmios, está bem na pele dessa persona tão complicada, tocando seu violoncelo e tentando fugir de suas escolhas.

 

Avaliação: ★★★½

 

Behemoth! Uma Vida Composta em Peças (Behemoth!, 2026)

Direção: Tony Gilroy

Roteiro: Tony Gilroy

Gênero: Drama

Origem: EUA

Duração: 126 minutos (2h06)

50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 


Sinopse: Alex Serian é um talentoso violoncelista e ex-prodígio musical que retorna a Los Angeles após passar duas décadas viajando pelo mundo. De volta à cidade natal, ele reencontra sua família de músicos e começa a trabalhar na gravação de trilhas sonoras para filmes de Hollywood. Entre flashbacks e lembranças despertadas pela música, Alex confronta os traumas que o afastaram de casa e embarca em uma jornada de autoconhecimento, enquanto redescobre sua relação com a arte e com o próprio passado.

 

English review


Tony Gilroy surprises with the metalinguistic integration between the protagonist's life and the musical score performed by the character himself on screen, in a good drama starring Pedro Pascal.



Narrative authenticity is not exactly one of the strengths of Behemoth!, a drama that made its world premiere at the New York Film Festival in October this year. As a film that follows a cellist's journey through the sea of indecision and confusion surrounding his own life, another recent feature, Todd Field's Tár, offers a deeper character study through the ambiguity of its protagonist, a celebrated and egocentric conductor of questionable morals.


Nevertheless, despite the somewhat formulaic nature of the story it tells, which does little to distinguish itself from other, more realistic character studies about people trapped and immersed in lives filled with mistakes and achievements, sadness and happiness, regrets and successes, I must admit that Behemoth! surprised me with the way Tony Gilroy, a successful screenwriter and the film's director, managed to integrate moments from this flawed and human character's life with the musical score, in a direct, almost symbiotic relationship with his work as a cellist.


Building its narrative around two distinct timelines, though not exactly in a linear fashion, the few moments in which we follow the protagonist in the past serve to justify the presence of elements introduced in the present. These elements first emerge in the present before subsequently materializing in the past, defining thoughts that surround the character's mind and sound like mysteries waiting to be revealed to the viewer, in the form of a puzzle made up of memories and recollections. Through this proposed game, the small mysteries created throughout the narrative draw attention precisely because they encourage us to delve into this mind we are trying to unravel, clarifying every detail as the film progresses, through surprises and twists.


However, this fragmented narrative structure, shaped by the editing and evoking a relationship of cause and consequence, also struggles to maintain an internal logic, insofar as the flashbacks do not follow any specific structure, serving only as a way of explaining some of the past elements that emerge in the present. There is no real consistency, and certain characters perform narrative functions that do not justify their somewhat problematic stereotypes, as is the case with Olivia Wilde's entire presence on screen.


Amid these "mysteries," the comedic aspect of Tony Gilroy's proposal creatively extends to the way he takes advantage of the musical score and the protagonist's profession to integrate them with an unexpected breaking of the fourth wall, as part of a larger metalinguistic game. By correlating passages involving the orchestra in which he plays, as part of the team responsible for composing scores for Hollywood films, with his own present life, it becomes amusing to watch "chase" sequences and flirtations with spy cinema (clearly on a much smaller scale, involving everyday situations) interspersed with the protagonist himself performing the music that accompanies him.


The idea that the character himself, in an attempt to regain control of his own life, consciously does so through the music that defines the tone of the actions he performs in front of the viewer, at least initially, feels quite natural. As the narrative unfolds, the loss of this control reveals a certain volatility in the protagonist and, more importantly, the reasons that lead him to move constantly, as though he were always running away whenever something becomes complicated. This becomes particularly evident when he loses control over the musical compositions, which are taken over by another character closer to the final stretch.


Thus, despite the stereotypes surrounding its female characters and a relatively absent logic in its use of flashbacks, Behemoth! finds considerable inventiveness in the relationship between editing, musical score, and narrative through metalinguistic elements. Tony Gilroy ultimately constructs a good character who constantly runs away from the problems of his own life, going around in circles, while offering the audience some pleasant surprises along the way, setting them up as though assembling a puzzle. And in this respect, Pedro Pascal, a highlight of the film during awards season, is very good as this complicated persona, playing his cello and trying to escape the consequences of his own choices.


★★★½

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