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50ª MOSTRA DE SP | O Sentido da Vida, de Ryûsuke Hamaguchi (All of a Sudden, 2026)

Foto do escritor: Henrique Debski
Henrique Debski
há 11 minutos
8 min de leitura

Em O Sentido da Vida, as mais de três horas de duração passam depressa, e se convertem em uma aula sobre humanidade pelas mãos de Ryusuke Hamaguchi.



Poucos são os cineastas que se equiparam à sensibilidade e domínio de cinema detidas pelo japonês Ryûsuke Hamaguchi. Muito voltado a dramas que colocam a humanidade, enquanto atributo, ao centro das histórias que conta, leva o tempo que sentir necessário para trabalhar suas narrativas, explorando-as de maneiras abrangentes, desde as situações que propõe como problemáticas até as motivações por detrás das escolhas e pensamentos de cada personagem, como se buscasse por uma compreensão geral pelo entorno daquilo que trabalha em seus universos.


Mas diferentemente de Cristian Mungiu em Fjord, em competição na mesma edição do Festival de Cannes, Hamaguchi assume um lado à sua narrativa, que na contramão do observacional e do clima gélido do vencedor da Palma de Ouro (cuja crítica pode ser lida clicando aqui), é explorada não apenas com ternura, mas com um ar sensível e esperançoso. 


O plano inicial de O Sentido da Vida mostra a vista de uma cidade francesa, cuja câmera desce para uma casa de repouso, direcionada à terceira idade. Marie-Lou, muito bem interpretada por Virginie Efira, é diretora do estabelecimento há dois anos, e busca por uma renovação do espaço e do trabalho realizado pelos profissionais a partir do método da humanitude - focado em tratamentos mais individualizados, na autonomia dos residentes e no incentivo que exercitem mais do corpo e da mente, em troca de maior qualidade de vida. O cenário, no entanto, é de resistência por parte das equipes, sobrecarregadas; e dos superiores hierárquicos da protagonista, investidores que não aceitam a diminuição dos lucros, o que já resultou em uma crise. A situação é complicada, enquanto enxerga as pessoas para as quais trabalha - em sua maioria, idosos acometidos por doenças cognitivas, frutos da idade avançada - aprisionados em um sistema que os entende apenas como números e valores, apenas esperando que definhem, tornem-se acamados e partam, eventualmente, desconsiderando todas as suas vivências.


Apesar de soar dramática a situação colocada desta forma, o filme estabelece, com argumentos para ambos os lados, elementos da problemática enfrentada. A decupagem, de câmera, em sua maior parte, estática, filma reuniões entre Marie-Lou e sua equipe; ouve atentamente os questionamentos e reivindicações das pessoas que trabalham no local; coloca sobre a mesa os prós e os contras da adoção do método, e se utiliza de um ar compreensivo para posicionar todas as peças daquele tabuleiro político construído na instituição, em meio a essa interminável queda de braço. 


Toda essa longa introdução serve como forma de explorar a humanidade de sua protagonista, que, na prática, enfrenta uma batalha quase impossível contra o próprio capitalismo, e um sistema indisposto a mudar, para levar mais conforto às pessoas para quem efetivamente trabalha, as quais não enxerga como números ou sequer trabalho. E é justamente no limite do impossível onde, por força de seu altruísmo, em uma situação fora da casa de repouso, acaba chegando a uma peça de teatro, e cuja relação de amizade estabelecida com a diretora Mari, também excelente na pele da japonesa Tao Okamoto, a faz enxergar toda uma nova gama de possibilidades.


Os longos diálogos filosóficos entre as duas, enquanto caminham pelas ruas da cidade, à beira do rio e até pelas instalações da casa de repouso durante a madrugada, são filmados em planos contínuos, quase sem cortes, valorizando a veracidade de suas atuações acima de tudo. Enquanto contam sobre as vidas pessoais, formações, o porquê falam tão fluentemente a língua uma da outra, e discutem os momentos em que se encontram, também refletem acerca do modelo socioeconômico vigente. Sendo uma socióloga e outra antropóloga de formação acadêmica, investigam a questão central da narrativa sob perspectivas históricas, abarcando inclusive elementos da peça de teatro de Mari, um monólogo chamado “De Perto Ninguém é Normal”, a qual fala inclusive sobre os antigos manicômios, que acabam, no decorrer da narrativa, se relacionando diretamente à situação das casas de repouso, como uma herança ao tratamento das pessoas com deficiência.  Talvez seja o único momento em que o longa se torna um tanto cansativo, mesmo que compreenda sua necessidade, ao ponto de até desenhar esquemas em uma lousa, como se ministrassem, juntas, uma aula ao público - e aqui, de certo, houve um certo exagero.


Entretanto, tais conversas tornam-se reveladoras para o detalhamento de toda a narrativa nos momentos posteriores. Primeiramente, pois a partir delas Hamaguchi se aprofunda nas razões pessoais pelas quais as protagonistas pensam da maneira como são, especialmente quando discutem juntas sobre a própria identidade, enquanto mulheres que tiveram seus caminhos desviados por surpresas e infortúnios das próprias vidas. Depois, pela justificativa em como a mudança pretendida na casa de repouso é viável através da negociação, escuta e debate de ideias com a mente aberta, em um exercício de esforço conjunto.


Para o diretor, não existem heróis ou vilões, senão pessoas com visões de mundo distintas, pautadas nas experiências que tiveram ao longo de suas vidas. Ninguém é como um bloco imutável. A partir do debate, da compreensão do outro e do respeito, pontes podem ser construídas entre as maiores distâncias, e o impossível pode se tornar realidade.


Longe da condescendência em colaborar com um sistema desumano, e assumindo os riscos em defender as próprias ideias em prol de uma tentativa de mudança com vistas à humanidade, O Sentido da Vida é de uma delicadeza única, seja pela construção de duas protagonistas incrivelmente humanas, em uma profunda conexão de amizade repentina em um momento de delicadeza para ambas, como pela maneira na qual explora os sentimentos dos personagens em tela, através da direção naturalista de Hamaguchi, que filma à distância, em planos abertos, sem interferir nos eventos que retrata. É um dos filmes mais doces do ano, à sua própria forma, cujas mais de três horas de duração não são sentidas diante de tamanha imersão.


Avaliação: ★★★★★


O Sentido da Vida (All of a Sudden / 急に具合が悪くなる, 2026)

Direção: Ryûsuke Hamaguchi

Roteiro: Ryûsuke Hamaguchi e Léa Le Dimna, adaptado do livro de Maho Isono e Makiko Miyano

Gênero: Drama

Origem: França, Japão, Alemanha, Bélgica

Duração: 196 minutos (3h16)

50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 


Sinopse: Marie-Lou é a diretora de uma instituição para idosos nos arredores de Paris e tenta implementar uma filosofia de cuidado baseada na escuta, na empatia e no respeito à dignidade dos residentes, enfrentando a resistência de parte de sua equipe. Sua rotina muda quando conhece Mari, uma diretora de teatro japonesa que enfrenta um câncer terminal. A partir desse encontro, as duas mulheres desenvolvem uma amizade profunda que transforma suas perspectivas sobre a vida, a morte e o cuidado com o outro.


English review


In All of a Sudden, the runtime of over three hours flies by turning into a lesson in humanity at the hands of Ryūsuke Hamaguchi.



Few filmmakers can match the sensitivity and mastery of cinema possessed by Japanese director Ryūsuke Hamaguchi. His work is largely focused on dramas that place humanity, as a human attribute, at the center of the stories he tells. He takes as much time as he feels necessary to develop his narratives, exploring them comprehensively, from the situations he presents as problematic to the motivations behind each character's choices and thoughts, as though seeking a broader understanding of everything surrounding the subjects he addresses in his cinematic universes.


However, unlike Cristian Mungiu in Fjord, which competed in the same edition of the Cannes Film Festival, Hamaguchi takes a side in his narrative. Contrary to the observational approach and the frigid atmosphere of the Palme d'Or winner (whose review can be read by clicking here), his film is explored not only with tenderness, but also with a sensitive and hopeful tone.


The opening shot of All of a Sudden shows the view of a French city, with the camera descending toward a nursing home for the elderly. Marie-Lou, very well portrayed by Virginie Efira, has been the facility's director for two years and seeks to renew both the institution and the work carried out by its staff through the Humanitude method - focused on more individualized care, the autonomy of residents, and encouraging them to exercise their bodies and minds more frequently in exchange for a better quality of life. The situation, however, is marked by resistance from the overworked staff and the protagonist's superiors, investors who refuse to accept a decrease in profits, which has already resulted in a crisis. The circumstances are complicated, as she sees the people she works for - most of them elderly individuals affected by cognitive diseases resulting from advanced age - trapped in a system that understands them only as numbers and figures, simply waiting for them to deteriorate, become bedridden, and eventually pass away, disregarding all the lives they have lived.


Although the situation sounds dramatic when presented this way, the film establishes the elements of the problem being faced through arguments on both sides. The cinematography, with mostly static shots, films meetings between Marie-Lou and her team, attentively listens to the questions and demands of those working at the facility, places the advantages and disadvantages of adopting the method on the table, and employs an understanding tone to position all the pieces on the political chessboard constructed within the institution, amid this seemingly endless power struggle.


This entire lengthy introduction serves to explore the humanity of its protagonist, who, in practice, is fighting an almost impossible battle against capitalism itself and a system unwilling to change, in an attempt to provide greater comfort to the people she actually works for, whom she does not see as numbers or even as work. And it is precisely at the limits of the impossible that, through the force of her altruism, an encounter outside the nursing home eventually leads her to a theater play. Her newly established friendship with its director, Mari, also excellent in the role played by Japanese actress Tao Okamoto, allows her to envision an entirely new range of possibilities.


The long philosophical dialogues between the two, as they walk through the city's streets, along the river, and even through the nursing home's facilities during the early hours of the morning, are filmed in continuous shots, with almost no cuts, valuing the authenticity of their performances above all else. As they talk about their personal lives, backgrounds, why they speak each other's languages so fluently, and discuss the circumstances that brought them together, they also reflect on the prevailing socioeconomic model. With one having an academic background in sociology and the other in anthropology, they investigate the narrative's central issue through historical perspectives, even incorporating elements of Mari's theater play, a monologue titled "Nobody Is Normal Up Close," which also addresses the old mental asylums. As the narrative progresses, these institutions become directly connected to the situation of nursing homes, as a legacy of how people with disabilities have been treated. Perhaps this is the only moment when the feature becomes somewhat tiresome, even though I understand its necessity, to the point where they even draw diagrams on a chalkboard, as though jointly teaching a class to the audience - and here, admittedly, there is a certain degree of excess.


Nevertheless, these conversations become revealing in terms of providing further detail for everything that unfolds in the later moments of the narrative. First, because through them Hamaguchi delves into the personal reasons why the protagonists think the way they do, especially when they discuss their own identities together, as women whose paths have been diverted by the surprises and misfortunes of their own lives. Second, because they justify how the intended changes at the nursing home can become viable through negotiation, listening, and open-minded discussion of ideas, in an exercise of collective effort.


For the director, there are no heroes or villains, only people with different worldviews shaped by the experiences they have accumulated throughout their lives. Nobody is an immutable block. Through debate, understanding others, and respect, bridges can be built across the greatest distances, and the impossible can become reality.


Far from being condescending toward collaboration with an inhumane system, and embracing the risks involved in defending one's own ideas in pursuit of a more humane change, All of a Sudden possesses a unique delicacy, whether through the construction of two incredibly human protagonists, brought together by a sudden friendship at a delicate moment in both their lives, or through the way it explores the characters' feelings on screen, via Hamaguchi's naturalistic direction, which films from a distance, using wide shots without interfering with the events it portrays. It is one of the sweetest films of the year in its own way, whose runtime of more than three hours goes completely unnoticed in the face of such an immersive experience.


★★★★★


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