50ª MOSTRA DE SP | Eklipse, de Manuel Wetscher (Idem, 2026)

Através do olhar de pré-adolescentes no interior de uma Áustria noventista, Eklipse explora a homofobia por meio de suas vítimas indiretas.

Os minutos iniciais de Eklipse serviram quase como um flashback direto à minha infância - quando tinha nove, dez anos, e brincava no prédio com meu grande amigo João. Os protagonistas, Chris e Tommy, brincam em uma floresta, segurando gravetos como se fossem armas de fogo. O clima é tenso, a câmera se desloca lentamente entre as árvores, se posiciona em frente aos garotos, compenetrados em avistar um ao outro, e transita ao redor deles, na construção de um sentimento de paranoia. A seriedade com a qual Manuel Wetscher constrói tal sequência, apenas um momento de diversão, nos serve como porta de entrada ao mundo desses personagens, e à maneira como observam aquilo que há ao entorno - são jovens, pré-adolescentes, imaginando mundos em talvez um de seus últimos momentos antes do baque que estão prestes a levar, rumo ao amadurecimento.
Finda a brincadeira, os personagens passam a ajudar na fazenda em que estão, tratando e ordenhando as vacas, construindo barragens e cuidando do local, durante este aparente período de férias em pleno ano de 1999. Algo, no entanto, paira com incerteza no ar. O pai de Tommy encontra-se no hospital, acometido por uma pneumonia.
Aos poucos, as verdadeiras razões para os amigos estarem na fazenda começa a se materializar em tela. A pneumonia do pai de um deles não é meramente o que parece, mas fruto da “doença gay” a que porta. Em um mundo já naturalmente preconceituoso, e em uma época na qual o acesso à informação era definitivamente mais restritivo, uma afirmação como tal, feita ainda mais para uma criança/pré-adolescente, repercute de maneiras negativas e deixa marcas irreparáveis. A incerteza científica sobre como o vírus HIV se manifestava leva a uma cisão na amizade dos garotos, em razão de um medo motivado puramente por especulações e falácias.
A maneira como o filme articula todo esse cenário passa longe da exposição, e tampouco se preocupa em facilitar a compreensão do espectador. Pelo contrário, caímos de paraquedas a essa realidade específica, e por meio do aspecto observacional da direção de Wetscher, que faz do ar naturalista seu maior atributo, acaba também por posicionar uma barreira invisível que afasta essa aproximação imediata do público com a própria obra. Então, demoramos a identificar, precisamente, exatamente quem é quem nesse lugar, o que representam essas pessoas, onde estão os protagonistas, e até quem seria a pessoa portadora da tal “doença gay”.
Quando, no entanto, depois de decorrido algum tempo de projeção - mais do que o esperado, na verdade - conseguimos nos localizar, o soco no estômago oferecido por Eklipse surge de maneira diferente. Na contramão de abordagens diretas à homofobia, a narrativa nunca materializa em cena a presença da vítima primária, mas explora as consequências do preconceito de maneira indireta àqueles ao seu redor. Em tempos nos quais o acesso à informação era mais remoto, e sobretudo a comunidades rurais, tudo se torna mais doloroso a Tommy, em sua lenta descoberta sobre o que de fato está acontecendo em sua família.
A dificuldade comunicativa da família com o personagem, na base da omissão, faz com que uma jornada de aceitação coletiva se torne um fardo individual a ser carregado em meio à escuridão - e daí que surge, metaforicamente, o título Eklipse. As reações dos personagens são dotadas de sutilezas, em pequenos gestos, que “denunciam” esse medo irracional da homossexualidade entre esses jovens pré-adolescentes, através de falácias sobre a tal “doença gay”. Em certa maneira, lembra bastante do também delicado Close, de Lukas Dhont, em abordagens distintas à temáticas queer semelhantes em uma mesma faixa etária, com até algumas sequências e ideias bastantes parecidas. E apesar dessa barreira inicial construída pelo filme em relação à situação que retrata e seus personagens, o longa seguiu ressoando em minha mente, mesmo depois de alguns dias, e quanto mais penso a respeito, mais gosto.
Avaliação: ★★★½
Eklipse (Idem, 2026)
Direção: Manuel Wetscher
Roteiro: Manuel Wetscher e Bernhard Jarosch
Gênero: Drama
Origem: Áustria, Itália
Duração: 91 minutos (1h31)
50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Sinopse: Em 1999, Tomy e seu melhor amigo Chris passam as férias de verão em uma fazenda nos Alpes tiroleses, ajudando o tio de Tomy com a ordenha e explorando a natureza. Enquanto os dois meninos aproveitam os últimos momentos da infância, a mãe de Tomy esconde dele o verdadeiro motivo da internação de seu pai. Quando Chris descobre que o homem está hospitalizado em decorrência da AIDS, o preconceito e o medo começam a ameaçar a amizade dos garotos, colocando Tomy diante do silêncio e da rejeição de sua própria família.
English review
Through the eyes of preteens in the Austrian countryside of the 1990s, Eklipse explores homophobia through its indirect victims.

The opening minutes of Eklipse felt almost like a direct flashback to my childhood - when I was nine or ten years old and used to play in my apartment building with my close friend João. The protagonists, Chris and Tommy, play in a forest, holding sticks as though they were firearms. The atmosphere is tense, the camera slowly moves between the trees, positions itself in front of the boys, who are intently focused on spotting one another, and circles around them, building a sense of paranoia. The seriousness with which Manuel Wetscher constructs this sequence, which is merely a moment of fun, serves as our gateway into the world of these characters and the way they observe their surroundings - they are young, preteens, imagining entire worlds in what may be one of their last moments before the shock they are about to experience, on the threshold of growing up.
Once playtime is over, the characters begin helping out at the farm where they are staying, tending to and milking the cows, building dams, and looking after the place during this apparent vacation period in the summer of 1999. Something, however, hangs uncertainly in the air. Tommy's father is in the hospital, suffering from pneumonia.
Little by little, the real reasons why the friends are staying at the farm begin to materialize on screen. The father's pneumonia is not simply what it appears to be, but rather the result of the "gay disease" he has. In a world already naturally marked by prejudice, and at a time when access to information was definitely more limited, a statement like this, especially when made to a child or preteenager, has negative repercussions and leaves irreparable scars. Scientific uncertainty surrounding the way the HIV virus manifested itself leads to a rift in the boys' friendship, driven by a fear motivated purely by speculation and fallacies.
The way the film articulates this entire scenario is far removed from exposition, and it makes no effort to facilitate the viewer's understanding. On the contrary, we are dropped into this specific reality without any preparation, and through the observational quality of Wetscher's direction, which makes naturalism its greatest attribute, an invisible barrier also emerges, preventing the audience from immediately connecting with the film itself. As a result, it takes us a while to identify precisely who is who in this place, what these people represent, where the protagonists are, and even who the person with the so-called "gay disease" might be.
When, however, after some time has passed - more than expected, actually - we finally find our bearings, the gut punch delivered by Eklipse takes on a different form. Contrary to direct approaches to homophobia, the narrative never brings the primary victim into the frame, but instead explores the consequences of prejudice among those indirectly affected by it. At a time when access to information was more limited, especially in rural communities, everything becomes even more painful for Tommy as he slowly discovers what is actually happening within his family.
The family's difficulty communicating with the character, rooted in omission, turns a journey of collective acceptance into an individual burden to be carried through the darkness - and this is where the title Eklipse emerges metaphorically. The characters' reactions are marked by subtlety, conveyed through small gestures that "betray" this irrational fear of homosexuality among these preteen boys, fueled by fallacies surrounding the so-called "gay disease." In some ways, the film is quite reminiscent of Lukas Dhont's equally delicate Close, which approaches similar queer themes among characters of the same age through different perspectives, even featuring some remarkably similar sequences and ideas. And despite the initial barrier the film establishes between the audience and the situation it portrays, as well as its characters, the feature continued to resonate in my mind even days after the screening. The more I think about it, the more I like it.
★★★½



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