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50ª MOSTRA DE SP | O Outro Lado das Redes, de Aaron Sorkin (The Social Reckoning, 2026)

Foto do escritor: Henrique Debski
Henrique Debski
há 9 horas
7 min de leitura

Aaron Sorkin deixa de lado o drama biográfico e faz de O Outro Lado das Redes um thriller jornalístico sobre o funcionamento dos algoritmos de redes sociais. 



Quando anunciado O Outro Lado das Redes como uma espécie de “sequência” de A Rede Social, a dúvida que se manifestava internamente se referia à maneira como Aaron Sorkin planejava articular a continuidade da história de Mark Zuckerberg, fundador do Facebook. O crescimento meteórico ao longo dos anos deixou para trás toda a polêmica de sua criação quando as redes sociais, potencializadas justamente pela empresa, se tornaram fenômenos à parte, ao serem internalizadas diretamente no cotidiano de grande parte da população mundial.


A proposta do drama biográfico com pitadas cômicas regadas a um sarcasmo afiado deram lugar ao thriller jornalístico em O Outro Lado das Redes, com Zuckerberg transformado em coadjuvante, enquanto o protagonismo acaba assumido por um jornalista do Wall Street Journal, que, acompanhado de uma funcionária idealista do Facebook, acabam por revelar ao mundo uma série de políticas internas da empresa referentes aos algorítmos das redes sociais, capazes de radicalizar pessoas politicamente, e apoiar os extremos ideológicos sem qualquer tipo de filtro ou controle daquilo que é produzido e consumido.


A princípio, a diferença promovida na abordagem oferece a possibilidade de uma discussão mais acentuada a partir desse formato de thriller jornalístico, tanto pelo didatismo que oferece por meio do mistério e das descobertas quanto pelo diálogo com o público geral acerca das redes sociais e seu funcionamento, especialmente diante da necessidade de o roteiro explicar uma série de termos técnicos de maneiras claras e simplificadas. Não é à toa que Sorkin construiu o personagem de Jeremy Allen White, o jornalista Jeff Horwitz, como um sujeito que pouco conhece de tecnologia, e precisa de constante auxílio até mesmo para ligar um GPS dentro do próprio carro. É a justificativa ideal para que, por outro lado, a analista de dados e cientista Frances Haugen, vivida por Mikey Madison, precise a todo tempo destrinchar o funcionamento de um algoritmo, e a estrutura empresarial, como forma de explorar a maneira de funcionamento do Facebook e Instagram.


No decorrer dessas descobertas e diálogos, anos mais tarde, acompanhamos Zuckerberg sendo confrontado com a notícia de uma série de reportagens a serem lançadas a partir dessas conversas e do trabalho conjunto de Horwitz e Haugen, como uma grande bomba prestes a cair sobre tudo aquilo que construiu, e das decisões tomadas. A escolha de Jeremy Strong para substituir Jesse Eisenberg com o personagem nessa outra fase da vida, ainda que eficiente pela composição do ator, excessivamente imune aos sentimentos alheios, voltado para si e levando tudo pelo aspecto da racionalidade, é mais um aspecto que sustenta a ideia de uma sequência mais como jogada de publicidade ao filme do que propriamente de continuidade à narrativa, ainda que mantenha o mesmo roteirista.


Como um filme excessivamente dialético, o texto de Sorkin nem sempre encontra seu melhor aproveitamento enquanto também dirige o filme. Ainda falta habilidade ao cineasta para articular esses tempos narrativos de maneira mais orgânica diante da tela, sem precisar depender a todo momento de uma linha do tempo exposta na tela ou divisões em capítulos para organizar essas ideias. Se ao menos faz essa escolha, poderia ser mais eficiente caso se esforçasse para sustentá-la durante toda a duração, já que, em dado momento, quando abandona tais recursos próximo ao clímax, se atrapalha com uma montagem paralela que sugere, erroneamente, a ocorrência de dois eventos simultaneamente, e mesmo que dentro de uma relação de causa e consequência que encontra respaldo na discussão construída pelo filme, eles não acontecem ao mesmo tempo. Inclusive, a encenação de um desses momentos contrapostos, que envolve uma sequência de ação, também acaba soando exageradamente artificial na medida em que os personagens em tela, na confusão, se portam de maneiras performáticas, e a câmera se mostra muito voltada a planos fechados.


Na prática, O Outro Lado das Redes, ainda que consiga manter certo dinamismo, mostra dificuldades em encontrar personalidade no thriller jornalístico que constrói. Mais preocupado com a discussão que busca estabelecer, e com suas ideias de incentivo aos extremos pelo algoritmo das redes, deixa o desenvolvimento de seus personagens de lado para voltar-se aos diálogos expositivos e explicações constantes sobre como funciona uma rede social. As razões para Horowitz mudar de área dentro do jornal, por exemplo, ou mesmo parte de sua vida social e pensamentos restam escanteadas, tal como o idealismo excessivo de Haugen, que aos poucos se desconstrói, e acontece de maneira repentina, através de situações pouco orgânicas. Ao buscar a alcunha de “filme importante” e conversar com o maior número de pessoas, abandona justamente o que fez de A Rede Social um filme memorável: a preocupação também com a forma cinematográfica por Fincher, e não apenas com o conteúdo, como faz Aaron Sorkin, como vícios de alguém cujo pensamento se faz muito mais voltado a escrita do que à direção. 


Avaliação: ★★★

 

O Outro Lado das Redes (The Social Reckoning, 2026)

Direção: Aaron Sorkin

Roteiro: Aaron Sorkin

Gênero: Drama, Thriller

Origem: EUA

Duração: 112 minutos (1h52)

50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo  


Sinopse: Frances Haugen, uma jovem engenheira do Facebook, conta com a ajuda de Jeff Horwitz, repórter do The Wall Street Journal, para revelar os segredos mais bem guardados da rede social. Ao expor pesquisas internas sobre os impactos da plataforma, ela desencadeia uma série de consequências que colocam sua carreira e sua segurança em risco.


English review


Aaron Sorkin leaves biographical drama aside and turns The Social Reckoning into a journalistic thriller about how social media algorithms work.



When The Social Reckoning was announced as a sort of “sequel” to The Social Network, the question that arose internally concerned the way Aaron Sorkin planned to articulate the continuation of the story of Mark Zuckerberg, founder of Facebook. The meteoric growth over the years left behind all the controversy surrounding its creation, as social media, empowered precisely by the company, became phenomena in their own right, being directly incorporated into the daily lives of a large portion of the world's population.


The proposal of a biographical drama with comedic touches seasoned with sharp sarcasm gives way to a journalistic thriller in The Social Reckoning, with Zuckerberg transformed into a supporting character, while the protagonist role is ultimately assumed by a Wall Street Journal journalist, who, accompanied by an idealistic Facebook employee, ends up revealing to the world a series of the company's internal policies regarding social media algorithms, capable of politically radicalizing people and supporting ideological extremes without any kind of filter or control over what is produced and consumed.


At first, the difference in approach offers the possibility of a more accentuated discussion through this journalistic thriller format, both because of the didacticism it provides through mystery and discoveries and because of its dialogue with the general public about social media and how it works, especially given the need for the screenplay to explain a series of technical terms in clear and simplified ways. It is no coincidence that Sorkin created the character of Jeremy Allen White, journalist Jeff Horwitz, as someone who knows little about technology and needs constant assistance even to turn on a GPS inside his own car. It is the ideal justification for, on the other hand, data analyst and scientist Frances Haugen, played by Mikey Madison, to constantly have to break down how an algorithm works, as well as the corporate structure, as a way of exploring how Facebook and Instagram operate.


Throughout these discoveries and dialogues, years later, we follow Zuckerberg being confronted with the news of a series of reports to be published based on these conversations and on the joint work of Horwitz and Haugen, like a great bomb about to fall on everything he has built and the decisions he has made. The choice of Jeremy Strong to replace Jesse Eisenberg as the character in this other phase of his life, although effective through the actor's performance, excessively immune to other people's feelings, self-centered and taking everything through the lens of rationality, is another aspect that sustains the idea of a sequel more as a publicity stunt for the film than as an actual continuation of the narrative, even if it retains the same screenwriter.


As an excessively dialectical film, Sorkin's writing does not always find its best use while he also directs the film. The filmmaker still lacks the ability to articulate these narrative timelines more organically on screen, without having to constantly rely on a timeline displayed on screen or chapter divisions to organize these ideas. If he is going to make this choice, it could at least be more effective if he made an effort to sustain it throughout the entire runtime, since, at a certain point, when he abandons these devices near the climax, he gets tangled up in a parallel montage that erroneously suggests the occurrence of two events simultaneously, and even though they exist within a cause-and-effect relationship that is supported by the discussion constructed by the film, they do not happen at the same time. In fact, the staging of one of these contrasting moments, which involves an action sequence, also ends up sounding excessively artificial as the characters on screen, amid the confusion, behave in performative ways, while the camera becomes overly focused on close-ups.


In practice, The Social Reckoning, although it manages to maintain a certain dynamism, shows difficulties in finding personality in the journalistic thriller it constructs. More concerned with the discussion it seeks to establish, and with its ideas about the algorithm-driven encouragement of extremes on social media, it leaves the development of its characters aside in favor of expository dialogue and constant explanations about how a social network works. The reasons for Horowitz changing departments within the newspaper, for example, or even part of his social life and thoughts, are left aside, as is Haugen's excessive idealism, which is gradually deconstructed and happens suddenly, through situations that feel inorganic. In seeking the label of an “important film” and speaking to as many people as possible, it abandons precisely what made The Social Network a memorable film: Fincher's concern with cinematic form as well, and not just with content, as Aaron Sorkin does, revealing the habits of someone whose thinking is much more focused on writing than directing.


★★★

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