top of page

CRÍTICA | Seven Snipers, de Sandra Sciberras (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 6 dias
  • 7 min de leitura

Seguindo o esqueleto de uma fórmula batida do cinema de ação, Seven Snipers pouco consegue acrescentar a uma trama previsível, repleta de conveniências, e revelações artificiais.


 

Ao longo dos últimos anos, como fã do cinema de ação que sou desde criança, por forte influência do meu pai, criei o hábito de assistir a uma grande quantidade de filmes do gênero no ano. Perdendo apenas para o terror, só no ano passado, por exemplo, foram cerca de sessenta filmes, com propostas diversas e de países diferentes. E dentre muitos filmes B, especialmente norte-americanos, é bastante comum propostas narrativas com espaços reduzidos, concentradas em um único cenário, e muitas vezes versando sobre pessoas presas a determinado lugar, tentando sobreviver aos disparos de um atirador escondido.

 

O longa de ação australiano Seven Snipers, então, parte dessa mesma premissa, na qual uma mãe e filha, no interior do país, em uma zona rural, tornam-se alvos de um misterioso atirador de elite, apelidado “Dragon”, o qual todos achavam estar morto, para um acerto de contas do passado com a genitora. Diante da situação, e utilizando-se de seus contatos, ela chama um amigo, também ex-militar, com uma pequena equipe de snipers, para caçar essa ameaça valada que se esgueira pelo entorno da residência.

 

As longas tomadas aéreas durante os créditos iniciais são uma forma encontrada pela direção de Sandra Sciberras para estabelecer esse ambiente rural no qual se centrará o conflito da narrativa. Para além de uma introdução à protagonista, Kris, vivida por Radha Mitchell, e a relação fria que mantém com a filha Anja, interpretada por Annabel Wolfe, há um interesse em explorar a maneira pela forma como a personagem conhece o espaço geográfico de sua propriedade, bem como uma mãe solteira, e alguém rígida o suficiente para o espectador perceber, desde os primeiros instantes, que guarda feridas de um passado que está prestes a revisitar, na forma de um grande fantasma que a assombra.

 

Ainda que Sevens Snipers, em alguma instância, acrescente temperos próprios a essa premissa já tão dotada de obviedade dentro do próprio gênero, pouco acaba saindo do plano das ideias, em direção a encontrar-se impressa no decorrer do filme como forma de diferenciá-lo de tantos outros parecidos.

 

A ideia, por exemplo, dos sete snipers de proteção à protagonista é uma maneira de conferir dinamismo ao arco da heroína, enquanto estimula diálogos, estratégias, e inclusive possibilita que o roteiro possa tornar a situação um tanto mais complexa à necessidade de proteção da filha adolescente. Ao mesmo tempo, cada baixa no grupo dos “mocinhos” acaba sendo sentida, de alguma forma, pelo espectador em razão da violência e do impacto das balas que a diretora emprega à tela, com certa visceralidade.

 

No entanto, esse leque de possibilidades em explorar o conflito se perde quando diante de um roteiro excessivamente conveniente. Os personagens apenas são atingidos quando interessa a narrativa que sejam descartados, e enquanto ainda agregam algum valor à trama, não apenas são protegidos por uma grande redoma invisível colocada pelo roteirista Andrew O'Keefe, como também jamais apresentam-se à mira do antagonista, ainda que estejam completamente desprotegidos, em campo aberto, e à vista de qualquer pessoa a imensa distância.

 

Aos poucos, vai-se tornando cansativo assistir a um longa que subestima a boa vontade e a suspensão da descrença do espectador a todo instante. Vai além de acreditarmos que tudo acabará bem no final, mas sim de termos a certeza de como tudo caminhará da metade para frente. Até a reviravolta, revelada na segunda metade da obra, através de diálogos expositivos proferidos roboticamente, é facilmente antecipável diante da fragilidade do clima de mistério construído pelo texto, e pela forma como dispõe seus elementos, que, se surpreende, o faz apenas consigo.

 

Inclusive, a revelação dessa “surpresa”, por meio de flashbacks, expõe outra falha do projeto, que se torna crucial para comprometer ainda mais a experiência: a ambição desmedida, frente ao enxuto orçamento que nitidamente dispunha. Ao explorar um cenário de guerra no passado, a câmera praticamente colada no rosto dos personagens demonstra uma economia na articulação da cena e de sua encenação, cujo plano construído não pode abrir, sob o risco de comprometer uma suposta atmosfera que tenta construir. Se não bastassem esses “flashes” do passado, todo o fogo ou explosões se fazem com o uso de efeitos digitais, que pouco combinam com o cenário, ao ponto de distraírem pela discrepância que geram, atraindo o olhar de maneira negativa.

 

Não há como negar, porém, que Sciberras até se esforça para individualizar seu longa, enquanto experimenta com uma câmera subjetiva, sob o olhar das miras dos rifles utilizados pelos personagens, inclusive diferentes, preocupada para que não os confundamos; e um sentimento de paranoia, a partir de planos aéreos, sugerindo que um tiro do antagonista pode correr de qualquer das direções. No entanto, são ideias isoladas, que no todo não impedem Seven Snipers de ser um filme, afinal, genérico, que em muito bebe da fonte dos filmes de ação B do cinema norte-americano, sem quase nada propor de diferente para tornar-se memorável, senão apenas um longa confuso e protocolar, sobre pessoas tentando escapar e lutar sob a mira de um sniper.

 

Avaliação: 2/5

 

Seven Snipers (Idem, 2026)

Direção: Sandra Sciberras

Roteiro: Andrew O'Keefe

Gênero: Ação, Thriller

Origem: Austrália

Duração: 98 minutos (1h38)

Disponível: Plataformas digitais (EUA e Canadá)


Sinopse: Quando uma ex-atiradora de elite passa a ser caçada por um impiedoso senhor da guerra que um dia a manteve em cativeiro, ela precisa lutar para proteger a filha que criou escondida em uma fazenda remota na Austrália.

 

English review

 

Following the skeleton of an overused action-movie formula, Seven Snipers adds very little to a predictable narrative filled with conveniences and artificial revelations.

 

Over the past few years, as someone who has loved action cinema since childhood - largely due to my father’s influence - I developed the habit of watching a considerable number of films within the genre every year. Second only to horror, I watched around sixty action films last year alone, ranging across different styles and countries. And among the countless B-movies, especially from the United States, narratives centered around confined spaces have become particularly common: stories about characters trapped in a specific location while trying to survive against a hidden sniper.

 

The Australian action film Seven Snipers builds itself upon precisely this premise. In the rural interior of the country, a mother and daughter become targets of a mysterious sniper known as “Dragon,” a figure everyone believed to be dead, who returns seeking revenge against the mother over unresolved events from the past. Faced with the threat, and making use of her contacts, she calls upon a former military friend and his small team of snipers to hunt down the hidden danger lurking around the property.

 

The long aerial takes during the opening credits serve as Sandra Sciberras’ way of establishing the rural setting where the narrative conflict will unfold. Beyond introducing the protagonist Kris, played by Radha Mitchell, and the cold relationship she maintains with her daughter Anja, portrayed by Annabel Wolfe, the film shows clear interest in exploring how familiar the protagonist is with the geography of her land. At the same time, Kris is presented as a rigid single mother whose demeanor immediately suggests unresolved traumas from a past she is about to confront once again in the form of a haunting ghost.

 

Even though Seven Snipers occasionally attempts to add its own twists to such an inherently familiar premise, very little ultimately escapes the realm of ideas and materializes in a meaningful way throughout the film so as to distinguish it from the countless similar productions within the genre.

 

The concept of the seven snipers assigned to protect the protagonist, for instance, is an effective way of bringing dynamism to the heroine’s arc, encouraging strategic conversations and allowing the screenplay to complicate the mission through the added necessity of protecting a teenage daughter. Likewise, every casualty among the “good guys” carries a certain emotional weight due to the violence and visceral impact with which Sciberras depicts gunfire on screen.

 

However, this range of possibilities for exploring the conflict is undermined by an excessively convenient screenplay. Characters are only hit when the narrative decides they are no longer useful, while those who still serve a purpose are protected by an invisible shield imposed by screenwriter Andrew O’Keefe. Not only do these characters somehow never fall within the antagonist’s line of sight, but they also remain untouched even while standing completely exposed in open fields, visible from enormous distances.

 

Gradually, it becomes exhausting to watch a film that constantly underestimates the viewer’s goodwill and suspension of disbelief. It goes beyond merely assuming everything will turn out fine in the end; the audience can practically predict exactly how the story will unfold from the halfway point onward. Even the major twist revealed during the second half - delivered through stiff, robotic exposition-heavy dialogue - becomes easily foreseeable due to the weakness of the mystery established by the screenplay and the clumsy way it positions its narrative elements. If the film surprises anyone, it seems to surprise only itself.

 

The revelation of this “twist,” conveyed through flashbacks, also exposes another critical flaw in the project: excessive ambition in relation to the visibly limited budget at its disposal. While depicting wartime scenarios from the past, the camera remains almost glued to the characters’ faces, revealing an economic approach to staging and choreography that avoids wider shots at all costs, presumably to preserve the atmosphere the film tries to create. As if these flashbacks were not problematic enough, every explosion and burst of fire relies heavily on digital effects that fail to blend convincingly with the environment, becoming distracting due to their artificial appearance and drawing attention for all the wrong reasons.

 

That said, it is undeniable that Sciberras makes an effort to individualize the film. She experiments with subjective camerawork through the perspective of different rifle scopes, carefully distinguishing each character’s viewpoint, while also creating a sense of paranoia through aerial shots that suggest the antagonist’s bullets may come from any direction at any moment. Still, these are isolated ideas that, in the larger picture, cannot prevent Seven Snipers from ultimately feeling generic - a film deeply indebted to American B-action cinema while offering almost nothing distinctive enough to become memorable, beyond functioning as a rather confused and formulaic story about people trying to survive under the scope of a sniper rifle.

 

Seven Snipers will be released on digital at the United States and Canada on June 5th.

Comentários


© 2024 por Henrique Debski/Cineolhar - Criado com Wix.com

bottom of page