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CRÍTICA | A Morte do Demônio: Em Chamas, de Sébastien Vaniček (Evil Dead Burn, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 1 dia
  • 10 min de leitura

Em A Morte do Demônio: Em Chamas, Sébastien Vaniček recicla mais ideais dos longas anteriores do que traz de novidades, buscando inspiração em Sam Raimi para o longa mais genérico da franquia.


 

No decorrer de seus quarenta e cinco anos, a franquia Evil Dead (A Morte do Demônio) sempre conseguiu se reinventar. Com relativamente poucas entradas, no geral bastante espaçadas, soube aproveitar das oportunidades para provocar o espectador através da violência exagerada e um sentimento de paranoia que circunda seus personagens, a partir do momento em que explora a possessão demoníaca como uma força imaterial que os persegue, e desde o primeiro filme direcionou o olhar da câmera para a ocorrência do sobrenatural, em sua forma mais crua. Não à toa que Sam Raimi é hoje um diretor de terror respeitado – tanto por seus filmes de gênero quanto pela capacidade, demonstrada anos mais tarde, de se amoldar a outros estilos sem perder de sua essência e origens, como fizera na trilogia Homem-Aranha.

 

Fede Alvarez compreendeu o estilo dos filmes oitentistas, que aproveitavam muito da comédia em sua mescla com o horror, para oferecer algo mais dramático na refilmagem de 2013, apostando mais no gore e no psicológico. Dez anos depois, foi a vez de Lee Cronin assumir as rédeas da franquia, em Evil Dead Rise (A Morte do Demônio: A Ascensão), o qual trocou o espaço amplo e horizontal de uma cabana isolada na floresta para a vertical, situando sua narrativa em um prédio residencial condenado, quase aos pedaços, trabalhando a claustrofobia em um ambiente familiar acolhedor, mas enfrentando sérias dificuldades financeiras, contaminado pela possessão – justamente o que tornava a experiência mais dolorosa ao espectador, enquanto havia uma relação de proximidade estabelecida entre os personagens e o público.

 

Agora pelas mãos do cineasta francês Sébastien Vaniček, Evil Dead Burn (A Morte do Demônio: Em Chamas) é, na verdade, uma grande incógnita. Dividido entre os feitos de Fede Alvarez, com a proposta de violência mais realista e menos cômica oferecida; e a narrativa dramática centrada nos laços familiares trazida por Lee Cronin, em espaço diverso dos demais longas, e sem abandonar certos elementos cômicos do cinema de Sam Raimi – reproduzindo até algumas ideias e passagens de outras obras do diretor –, surge um filme que nunca sabe, de fato, o que é, ou para onde deseja seguir com a franquia, ainda se desenvolva com certo isolamento em relação aos demais capítulos.

 

De certa maneira, boas ideias não faltam ao roteiro assinado por Florent Bernard e Vaniček, na medida em que sugerem um aprofundamento da mitologia retornando às origens, do livro dos mortos, o Círculo dos Sábios, a crença no submundo, e uma maneira de derrotar a força antagônica demoníaca. Acontece que propor é uma coisa, e articular tudo dentro de uma narrativa é outra.

 

Se o longa anterior funcionava muito bem pelo estabelecimento do drama familiar, a calma em trabalhar com seus personagens antes da possessão propriamente, e uma aproximação do espectador com aqueles em tela, Em Chamas queima a largada por mais de uma vez. Primeiramente, através de um prólogo violento e deslocado que, no fundo, serve apenas para materializar duas mortes logo nos primeiros minutos, e aumentar uma dose de violência gráfica que o filme não precisava, porquanto já a explora posteriormente por si só; depois, pela pressa em construir o ambiente da família protagonista, justamente o que deveria ser o cerne da obra, cujas relações demoram a ser compreendidas pelo espectador, e a possessão acontece muito rapidamente, tirando um espaço valioso de oportunidade e conexão com aqueles que nos representam em tela.

 

O que se desenrola a partir disso é aquela típica luta por sobrevivência da franquia, enquanto o ambiente se contamina através do sobrenatural. Aos poucos, no entanto, o que surge à superfície é a revelação de uma família problemática, corroída pela violência doméstica, tema que se coloca no centro da discussão. É interessante a maneira como os personagens masculinos reagem aos confrontos entre si, em graus de ascendência e descendência; e como a violência contra as personagens femininas se pratica com muito menos hesitação. Torna-se, também, um embate entre gerações de mulheres, com as mais velhas normalizando tais comportamentos, “passando pano” para os atos praticados por um dos filhos, enquanto as mais novas encaram o cenário de maneira acertadamente reativa, porquanto até vítimas diretas daquele conflito. Demora para o filme estabelecer seu verdadeiro protagonismo, que recai a personagem vivida por Souheila Yacoub, e não ao interpretado por Hunter Doohan, como sugere de início.

 

Ainda que seja boa como proposta, e trabalhe de maneira criativa tais ideias a partir da ação, o roteiro encontra dificuldades em articular as relações entre todos esses personagens, cujos dramas se tornam superficiais, e, pior, descartáveis. A própria mitologia de Evil Dead, que o filme busca aprofundar, não ultrapassa de um aspecto frágil enquanto apenas cita as mesmas histórias e informações, sem uma evolução no decorrer dos eventos. A verdade é que a tal adaga, capaz de afastar o mal, pouco faz alguma diferença para a história, e o passado da família, em tese o ponto que faz o antagonista os atacar, tampouco se mostra importante, afinal, quando nem a dinâmica de possessão segue regras muito claras, ainda que hajam composições visuais interessantes pensadas pelo diretor.

 

É inegável, então, que Vaniček mantenha o teor de experimentação visual, certa dose de um humor sarcástico – e até mórbido –, e traços de um estilo próprio, característicos à franquia, desde sempre conduzida por cineastas emergentes, como foi o caso de Sam Raimi no início de sua carreira. A maneira como articula a ação volta-se muito às coreografias, e faz bom uso da profundidade de campo para incomodar o espectador, enquanto o mal espreita personagens à frente do plano, que não se dão conta de estarem sendo perseguidos. Mas também se mostra incapaz de produzir novas sequências tão aflitivas quanto as dos longas anteriores, reciclando muitas passagens, ao invés de tentar coisas novas de fato. Dizer que é o filme mais violento de uma franquia já bastante conhecida pela violência é uma jogada de publicidade relativa, porquanto a maior quantidade de gore deste não o torna, necessariamente, o mais impactante – pelo contrário, desde a refilmagem, é o que menos traz novidades, e ainda menos tensão nesse sentido.

 

Então, em que pese certa dose de autoralidade por parte da direção de Sébastien Vaniček, A Morte do Demônio: Em Chamas não consegue se esquivar de reciclar muito mais dos filmes anteriores do que efetivamente trazer novas ideias à franquia – ainda mais quando busca na filmografia de Sam Raimi uma inspiração em excesso (é impossível não traçar paralelos lógicos entre este longa com Arraste-me Para o Inferno, da batalha final ao próprio pôster). Desde o cenário rural óbvio a uma família composta por personagens superficiais e uma mitologia que nunca sai do lugar, tudo acaba se tornando bastante genérico quando falta frescor ao desenrolar dos eventos, e um aprofundamento maior a proposta colocada à mesa, sobretudo quando elege a violência doméstica como o tema da vez, simplesmente escanteado. Tudo isso para, no final, uma cena pós-créditos confirmar o quão descartável é a narrativa, ao propor o retorno espontâneo de uma personagem de outro filme, sem qualquer razão ou justificativa, meramente para agradar fãs, com certo receio de o filme como um todo não ser suficiente. É até divertido, mas não deixa de ser, também, uma decepção, se juntando a Pânico VII como os primeiros filmes sem alma de franquias que nunca conheceram uma entrada genérica (até então).

 

Avaliação: 2.5/5

 

A Morte do Demônio: Em Chamas (Evil Dead Burn, 2026)

Direção: Sébastien Vaniček

Roteiro: Sébastien Vaniček e Florent Bernard

Gênero: Terror, Thriller

Origem: EUA, Canadá, Nova Zelândia

Duração: 110 minutos (1h50)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: Após a morte do marido, uma mulher busca consolo ao lado da família dele. Mas, à medida que seus parentes são possuídos, um a um, ela descobre que os votos que fez em vida se estendem até a morte, e precisa sobreviver, mesmo depois dela.

 

English review

 

In Evil Dead Burn, Sébastien Vaniček recycles more ideas from the previous films than he introduces new ones, drawing excessive inspiration from Sam Raimi for what ultimately becomes the franchise's most generic installment.

 

Over the course of its forty-five-year history, the Evil Dead franchise has consistently managed to reinvent itself. Despite having relatively few entries, generally released years apart, it has always seized the opportunity to provoke audiences through excessive violence and a pervasive sense of paranoia surrounding its characters, exploring demonic possession as an immaterial force that relentlessly hunts them, while, from the very first film, directing the camera's gaze toward the supernatural in its rawest form. It is no coincidence that Sam Raimi is now regarded as one of horror's most respected filmmakers - both for his genre work and for the versatility he would later demonstrate by adapting to entirely different styles without losing the essence of his origins, as he did with the Spider-Man trilogy.

 

Fede Álvarez understood the style of the franchise's 1980s entries, which embraced comedy alongside horror, to deliver something far more dramatic in the 2013 remake, leaning heavily into gore and psychological horror. Ten years later, Lee Cronin took over the series with Evil Dead Rise, replacing the vast horizontal setting of an isolated cabin in the woods with the vertical confinement of a condemned apartment building on the verge of collapse. The film embraced claustrophobia within the warmth of a family home burdened by severe financial struggles, gradually consumed by demonic possession - precisely what made the experience so painful, as the audience had already formed an emotional connection with the characters.

 

Now in the hands of French filmmaker Sébastien Vaniček, Evil Dead Burn is, in truth, a major question mark. Torn between Fede Álvarez's more realistic and less comedic approach to violence and Lee Cronin's emotionally driven narrative centered on family bonds, while relocating the story to yet another new setting and still preserving certain comedic elements characteristic of Sam Raimi's cinema - even reproducing specific ideas and sequences from some of his films - it ultimately becomes a film that never truly knows what it wants to be or where it intends to take the franchise, even while remaining relatively isolated from the previous chapters.

 

In some respects, the screenplay by Florent Bernard and Vaniček is not lacking in compelling ideas, suggesting a deeper exploration of the mythology by returning to its origins - the Book of the Dead, the Circle of the Wise, beliefs surrounding the underworld, and a possible means of defeating the demonic force. The problem is that proposing ideas is one thing; successfully integrating them into a coherent narrative is another.

 

If the previous film worked so well because of its carefully established family drama, taking its time to develop the characters before possession took hold and allowing the audience to grow emotionally attached to them, Burn rushes the process more than once. It begins with a violent and disconnected prologue that, in reality, serves little purpose beyond delivering two deaths within the opening minutes and increasing the amount of graphic violence the film hardly needed, since it would naturally embrace it later anyway. It then hurries through the establishment of the protagonists' family dynamic - the very core the film should have been built upon - leaving the relationships difficult to grasp before possession arrives almost immediately, wasting valuable opportunities to connect the audience with those representing them on screen.

 

What follows is the franchise's familiar fight for survival as the environment gradually becomes consumed by supernatural evil. Little by little, however, the story reveals a deeply troubled family eroded by domestic violence, a theme that moves to the forefront of the narrative. It is interesting to observe how the male characters respond to one another's confrontations across different generations, and how violence against the female characters is carried out with far less hesitation. It also becomes a conflict between generations of women, with the older ones normalizing such behavior, excusing the actions of one of the sons, while the younger women react far more appropriately, especially as direct victims of that very conflict. The film also takes a long time to establish who its true protagonist actually is, ultimately revealing that role to belong to Souheila Yacoub's character rather than Hunter Doohan's, as initially suggested.

 

While the premise itself is strong and these ideas are explored creatively through the action, the screenplay struggles to properly articulate the relationships among its characters, whose dramatic arcs become superficial and, worse, disposable. Even the Evil Dead mythology, which the film attempts to deepen, never evolves beyond a fragile framework that merely repeats familiar stories and information without meaningfully expanding upon them. The supposed dagger capable of driving away evil ultimately has little real impact on the story, while the family's past - theoretically the reason the antagonist targets them - proves equally irrelevant, especially when the mechanics of possession never seem to follow any clearly established rules, despite some visually compelling compositions conceived by the director.

 

There is no denying that Vaniček preserves the franchise's spirit of visual experimentation, its dose of sarcastic - and at times morbid - humor, and traces of his own directorial identity, fitting for a series that has always entrusted emerging filmmakers with carrying its legacy forward, just as Sam Raimi once did at the beginning of his own career. His staging places considerable emphasis on choreography, while making effective use of depth of field to unsettle the audience, allowing evil to lurk behind characters who remain oblivious to the threat closing in. Yet he also proves unable to craft sequences as genuinely distressing as those found in previous installments, choosing instead to recycle familiar moments rather than genuinely attempting something new. Claiming it is the most violent entry in a franchise already renowned for its brutality ultimately feels like little more than a marketing strategy, since the increased quantity of gore hardly makes it the most impactful - quite the opposite. Since the 2013 remake, this is the installment that brings the fewest new ideas and, consequently, the least tension.

 

Thus, despite the undeniable traces of authorship in Sébastien Vaniček's direction, Evil Dead Burn cannot escape the fact that it borrows far more from previous entries than it contributes to the franchise - especially as it leans so heavily on Sam Raimi's filmography for inspiration (it is impossible not to draw obvious parallels with Drag Me to Hell, from the climactic battle to the film's very poster). From its predictable rural setting to a family populated by underdeveloped characters and a mythology that never truly progresses, everything ultimately feels remarkably generic due to the lack of freshness in how the story unfolds and the refusal to meaningfully develop the ideas placed on the table, particularly after choosing domestic violence as its central theme only to push it aside. To make matters worse, a post-credits scene ultimately confirms just how disposable the narrative truly is, proposing the spontaneous return of a character from another film without any real reason or justification, existing solely as fan service, as though the filmmakers themselves feared the film would not be enough on its own. It remains entertaining, but it is also a disappointment, joining Scream VII as one of the first soulless entries in franchises that, until now, had never produced a truly generic installment.

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