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CRÍTICA | Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte, de Jane Schoenbrun (Teenage Sex and Death at Camp Miasma, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 11 minutos
  • 6 min de leitura

Jane Schoenbrun reúne elementos temáticos da própria filmografia em Acampamento Miasma, com uma sátira metalinguística ao slasher e à Hollywood sob o enfoque das relações queer.


 

Em meio a uma interminável quantidade de filmes slasher no cinema norte-americano, e a tentativa, de tempos em tempos, de retomar a era de ouro das grandes franquias, Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte pode ser adjetivado de muitas maneiras, mas jamais ser chamado de um “filme genérico”. Perfeitamente alinhado ao cinema desenvolvido por Jane Schoenbrun nos últimos anos, trata-se, na melhor das palavras, de um filme estranho.

 

Apresentando a franquia Camp Miasma ao espectador em seus minutos iniciais, enquanto sobem os primeiros créditos, as inspirações no clássico Sexta-Feira 13 são evidentes desde o princípio. A partir do sucesso do primeiro longa, em meados da década de 1980, as sequências, em sua maioria caça-níquel, tentaram replicar o bom resultado com narrativas cada vez mais fracas e beirando o absurdo. A atriz protagonista, vivida em sua versão envelhecida pela excelente Gillian Anderson, tornou-se reclusa, e longe dos holofotes de Hollywood nunca retornou à franquia ou a qualquer outro filme, ao passo que o estúdio, em plena década de 2020, resolve tentar uma nova entrada, convidando uma jovem cineasta, vivida por Hannah Einbinder, premiada em Sundance, lar do cinema independente norte-americano, para comandar uma “história de origem” voltada às novas gerações.

 

Em um encontro das duas, no local onde fora filmado o primeiro longa Camp Miasma, o choque de experiências e visões de mundo completamente distintas se torna transformadora. Durante boa parcela do tempo, Schoenbrun nos deixa à deriva sobre onde pretende chegar, na medida em que introduz uma série de elementos distintos e aparentemente e desconexos – da antiga franquia, prestes a renascer; o acampamento como espaço físico; a importância de Camp Miasma para cada uma das personagens, e as maneiras como enxergam o filme, especialmente sob uma perspectiva queer, no presente taxada como problemática.

 

Quando os momentos-chave de Camp Miasma, o filme dentro do filme, se tornam o centro das atenções, em uma longa sequência de cenas, enquanto as protagonistas assistem a obra sentadas de frente para um telão e um projetor, rodando o longa em película original, tornava-me ainda mais incerto para mim qual era o objetivo, ainda que mantivesse meu voto de confiança na diretora. Mesmo que em parte seja exaustiva essa excessiva preparação, Acampamento Miasma (agora me refiro ao presente filme, que assistimos) usa da metalinguagem, em diferentes níveis, justamente para trabalhar duas personagens tão parecidas, mas nascidas e criadas em mundos e tempos muito distintos.

 

Enquanto contam sobre suas experiências de vida, a paixão pelo cinema, e as dificuldades em se relacionar – sobretudo sexualmente -, as protagonistas de Einbinder e Anderson começam a se confundir. Mesmo que hoje em dia a liberdade sexual e de gênero seja muito maior do que há quarenta anos, ainda existem travas e reprimendas pessoais, implicadas em especial no seio familiar, que impedem as pessoas de serem o que desejam. De maneiras diferentes, mas sob um mesmo caminho, é justamente o que permeia as duas personagens, que mesmo dentro de um escopo queer, encontram dificuldades para viver em um mundo que as acolha.

 

Ao mesmo tempo, a partir de certo momento, começam também a confundir-se com o próprio assassino mascarado, em uma perspectiva voyeurista. A metalinguagem assume cada vez maior protagonismo enquanto se debate a violência dos sets de filmagem (no século passado e no presente), tal como o destrato tido para com o corpo feminino, muitas vezes objetificado como sinônimo de desejo perante a câmera.

 

O que a princípio parecia loucura torna-se, aos poucos, realidade, e daí se articula a grande sátira de Jane Schoenbrun ao cinema slasher. Como alguém que evidentemente conhece sobre aquilo que debate, a diretora brinca com cada fase do subgênero do terror em Hollywood, e critica a necessidade constante da indústria investir apenas no que já existe, em detrimento de ideias originais e novas propriedades intelectuais. Da mesma maneira, mantém-se firme nas linhas temáticas sobre a qual debruça sua filmografia, ao colocar as relações queer como o centro de uma história sobre aceitação e liberdade. No fundo, a diretora reúne, em Acampamento Miasma, elementos do isolamento e depressão de We’re All Going to the World’s Fair (2021) com a insatisfação com os próprios corpos, e sobre as pressões impostas pela sociedade acerca das escolhas sexuais alheias de Eu Vi o Brilho da TV (2024), agora sob o enfoque do embate entre duas gerações que lidam com os mesmos problemas de maneiras distintas, com duas pessoas, ao fim, se tornando uma. É uma loucura estranha no melhor dos sentidos, e mais um ótimo filme para a conta da diretora.

 

Avaliação: ★★★★

 

Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (Teenage Sex and Death at Camp Miasma, 2026)

Direção: Jane Schoenbrun

Roteiro: Jane Schoenbrun

Gênero: Terror, Thriller, Drama, Romance

Origem: EUA, Canadá, Reino Unido

Duração: 112 minutos (1h52)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: Após anos de sequências desleixadas, a franquia Camp Miasma é entregue a uma jovem diretora entusiasmada para ser revitalizada. Mas ao visitar a estrela do filme original, hoje uma atriz reclusa e envolta em mistério, as duas mergulham em um mundo ensanguentado de desejo, medo e delírio.

 

English review

 

Jane Schoenbrun brings together thematic elements from her own filmography in Acampamento Miasma, with a metalinguistic satire of the slasher genre and Hollywood through the lens of queer relationships.


 

Amid an endless number of slasher films in American cinema, and the periodic attempts to revive the golden age of major franchises, Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte can be described in many ways, but never as a "generic film." Perfectly aligned with the cinema Jane Schoenbrun has developed in recent years, it is, in the best sense of the word, a strange film.

 

Introducing the Camp Miasma franchise to the audience in its opening minutes, as the first credits roll, its inspirations from the classic Friday the 13th are evident from the very beginning. Following the success of the first film in the mid-1980s, the sequels, mostly cash grabs, attempted to replicate its success with increasingly weaker and increasingly absurd narratives. The leading actress, played in her older version by the excellent Gillian Anderson, became a recluse, and far from Hollywood's spotlight, never returned to the franchise or to any other film, while the studio, now in the 2020s, decides to attempt a new installment, inviting a young filmmaker, played by Hannah Einbinder, a Sundance award winner, the home of American independent cinema, to direct an "origin story" aimed at new generations.

 

When the two meet at the location where the first Camp Miasma film was shot, the clash between their completely different experiences and worldviews becomes transformative. For a good portion of the film, Schoenbrun leaves us adrift as to where she intends to go, introducing a series of distinct and seemingly disconnected elements - the old franchise, about to be revived; the camp as a physical space; the importance of Camp Miasma to each of the characters, and the ways in which they view the film, especially from a queer perspective that is now considered problematic.

 

When the key moments of Camp Miasma, the film within the film, become the center of attention in a long sequence of scenes, as the protagonists sit facing a screen and projector showing the film on its original print, I became even more uncertain about what the objective was, although I continued to place my trust in the director. Even if this excessive preparation is somewhat exhausting, Acampamento Miasma (now referring to the present film we are watching) uses metalinguistic devices, on different levels, precisely to explore two characters who are very similar, yet were born and raised in completely different worlds and eras.

 

As they recount their life experiences, their passion for cinema, and their difficulties in relationships - especially sexually - the protagonists played by Einbinder and Anderson begin to blur into one another. Even though sexual and gender freedom is much greater today than it was forty years ago, there are still personal inhibitions and reprimands, particularly within the family, that prevent people from being who they want to be. In different ways, but following the same path, this is precisely what permeates the two characters, who, even within a queer framework, struggle to live in a world that embraces them.

 

At the same time, from a certain point onward, they also begin to become confused with the masked killer himself, through a voyeuristic perspective. Metalinguistic elements take on an increasingly prominent role as the film discusses violence on film sets (both in the past and present), as well as the mistreatment of the female body, often objectified as synonymous with desire before the camera.

 

What initially seemed like madness gradually becomes reality, and from there Jane Schoenbrun's great satire of the slasher genre takes shape. As someone who clearly understands the subject she is discussing, the director plays with every phase of the horror subgenre in Hollywood, criticizing the industry's constant need to invest only in what already exists, at the expense of original ideas and new intellectual properties. At the same time, she remains faithful to the thematic concerns that run throughout her filmography, placing queer relationships at the center of a story about acceptance and freedom. Ultimately, in Acampamento Miasma, the director brings together the isolation and depression of We're All Going to the World's Fair (2021) with the dissatisfaction with one's own body, and the pressures imposed by society regarding other people's sexual choices, from I Saw the TV Glow (2024), now through the lens of the clash between two generations dealing with the same problems in different ways, with two people ultimately becoming one. It is a strange kind of madness in the best possible sense, and another excellent film to add to the director's filmography.

 

★★★★

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