CRÍTICA | As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você, de Diego Freitas (Idem, 2026)

Para muito além do público adolescente, As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você é sobre aprender a viver depois do luto, e se agarrar às oportunidades da vida, para aproveitar enquanto ainda é tempo.

O cinema norte-americano, há cerca de uma década, vem adaptando obras literárias de sucesso, voltadas ao público adolescente, que tem como temática central experiências pouco comuns à essa fase tão inicial da vida. Nenhum jovem merece passar por doenças terminais e lidar com dores emocionais severas, como retratam, por meio de histórias românticas, A Culpa é das Estrelas e A Cinco Passos de Você, que inevitavelmente acontecem como parte incontrolável da vida em um mundo nem sempre justo.
A partir do livro homônimo de Fernanda de Castro Lima, As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você trilha caminhos que se adequam a essa mesma onda, cada vez mais comum ao cinema brasileiro, que em nada deixa a desejar em relação ao país vizinho. Pelo contrário, a realidade trabalhada pelo filme encontra-se com os pés no chão da maneira mais apta a aproximar o espectador da vida da protagonista, uma adolescente paulistana de classe média/alta, tímida e fiel às amizades, que perde sua melhor amiga após um acidente de carro.
O início levemente apressado, que faz um panorama dessa relação de amizade desde a infância até o presente, no final da adolescência, busca não tomar mais tempo que o necessário, e estabelecer as personalidades opostas das personagens, de forma que toda a narrativa se justifique a partir dessas diferenças. A ausência de Julia, muito bem interpretada por Giulia Be, é muito bem explorada pela direção de Diego Freitas através do cuidado na construção da amizade simbiótica com a protagonista Gabi, também excelente na pele de Any Gabrielly, e das cartas deixadas após o falecimento.
Ainda que tenhamos pouco contato, enquanto público, com Julia, sua ausência é sentida, para além da forte presença de sua intérprete em cena, por meio do estado depressivo de Gabi, que se sente culpada por uma tragédia sobre a qual não tinha qualquer controle. Mais do que a verbalização desse sentimento de solidão e tristeza, o cineasta leva para a imagem seu estado de espírito por meio de uma sala escura, de fundo preto e água ao chão, semelhante a lama, como se estivesse atolada em um estado mental que apenas a puxa para baixo todas as vezes que tenta, em vão, se levantar.
As cartas deixadas pela amiga em seu leito de morte, e seu elemento fantasioso pautado na suspensão da descrença, guiam Gabi em uma jornada de superação ao luto e autoconhecimento. O passo a passo é essencial para que a protagonista não apenas se recomponha mentalmente, como também aprenda a viver pelas próprias pernas, experimentar o mundo afora e conhecer outras realidades enfrentando os desafios do mundo - e da vida.
Ao longo do caminho, a narrativa posiciona personagens que servem como aprendizados, como frutos dessas novas experiências que esperam por Gabi. Alguns tornam-se marcantes pelas sabedoria e sensibilidade - como o simpático dançarino vivido por Leo Jaime, uma participação surpreendente -, enquanto os pares românticos de Michel Joelsas e Daniel Rangel, de personalidades distintas (o segundo bastante me representou em tela, inclusive), e também muito bem interpretados, a ensinam sobre as diferentes pessoas que cruzam o caminho da vida, e como colocá-las em seus devidos lugares, o que tem a oferecer e como tratá-las - afinal, paixão e prazer não necessariamente andam lado a lado. O mesmo também vale para às demais amizades posteriores, que se somam ao leque da vida, e não surgem para tomar o lugar ou apagar as memórias tidas com outras.
No fundo, as cartas de As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você são como um guia metafórico levado à realidade para a protagonista aprender a viver a própria vida sem receios, compreender o mundo como ele é, e seguir adiante. Sempre muito próximo de Gabi, o público tem acesso aos seus sentimentos e emoções como uma jovem desnorteada, lidando com o luto e com a perda de sua única amiga de verdade até então, de maneira tão profunda e emotiva que lagrimas naturalmente escorrem por nossos olhos. A direção de Diego Freitas torna essa jornada em algo dinâmico, e ainda que a montagem, nos primeiros minutos, acabe dando spoilers em excesso dos momentos posteriores - como a sequência do salto, que poderia ser facilmente melhor aproveitada se deslocada para a reta final -, o longa se mostra bem mais delicado e profundo do que sua proposta sugere, mesclando drama e comédia romântica que ultrapassam o público adolescente, e sobretudo de alma puramente brasileira, ganhando em muito de longas norte-americanos que trafegam por linhas semelhantes. Por mais filmes assim no cinema brasileiro.
Avaliação: ★★★★
As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você (Idem, 2026)
Direção: Diego Freitas
Roteiro: Diego Freitas e Rod Azevedo, adaptado de Fernanda de Castro Lima (livro)
Gênero: Drama, Comédia
Origem: Brasil
Duração: 106 minutos (1h46)
Nos cinemas.
Sinopse: Gabriela, uma jovem tímida e reservada, fica devastada após a morte de sua melhor amiga de infância, Julia, uma garota extrovertida que sempre a incentivou a sair de sua zona de conforto. Antes de morrer, Julia deixa dez cartas com desafios para Gabi, incentivando-a a enfrentar seus medos, experimentar novas experiências e se abrir para a vida. Com a ajuda de uma nova amiga, ela embarca em uma jornada de autodescoberta, enquanto aprende a lidar com o luto, a saudade e a importância do perdão.
English review
Going far beyond the teenage audience, As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você is about learning to live after grief and holding on to life's opportunities, making the most of them while there is still time.

For about a decade now, American cinema has been adapting successful literary works aimed at teenage audiences, whose central themes revolve around experiences that are rather uncommon at such an early stage of life. No young person deserves to go through terminal illnesses and deal with severe emotional pain, as portrayed through romantic stories in The Fault in Our Stars and Five Feet Apart, which inevitably happen as part of life's uncontrollable circumstances in a world that is not always fair.
Based on Fernanda de Castro Lima's book of the same name, As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você follows a path that fits within this same wave, increasingly common in Brazilian cinema, which has nothing to envy of its neighboring country. On the contrary, the reality explored by the film remains grounded in a way that is particularly effective in bringing the viewer closer to the life of its protagonist, a middle- to upper-class teenage girl from São Paulo, shy and devoted to her friendships, who loses her best friend following a car accident.
The slightly rushed beginning, which provides an overview of this friendship from childhood to the present, at the end of adolescence, seeks not to take more time than necessary while establishing the characters' opposing personalities, allowing the entire narrative to be justified through these differences. Julia's absence, very well portrayed by Giulia Be, is effectively explored through Diego Freitas's direction, particularly in his careful construction of her symbiotic friendship with protagonist Gabi, also excellent in Any Gabrielly's performance, and through the letters left behind after her death.
Although we have little contact with Julia as an audience, her absence is deeply felt, beyond the strong presence of her performer on screen, through Gabi's depressive state, as she feels guilty about a tragedy over which she had absolutely no control. Beyond simply verbalizing this feeling of loneliness and sadness, the filmmaker brings her state of mind into the imagery through a dark room, with a black background and water covering the floor, resembling mud, as though she were stuck in a mental state that only pulls her down every time she tries, unsuccessfully, to get back up.
The letters left by her friend on her deathbed, and their fantastical element based on the suspension of disbelief, guide Gabi on a journey of overcoming grief and self-discovery. This step-by-step process is essential for the protagonist not only to mentally recover, but also to learn how to stand on her own two feet, experience the world beyond her familiar surroundings, and discover other realities while facing the challenges of the world - and of life.
Along the way, the narrative introduces characters who serve as lessons, emerging as products of the new experiences awaiting Gabi. Some become memorable for their wisdom and sensitivity - such as the charming dancer played by Leo Jaime, in a surprising appearance - while the romantic interests portrayed by Michel Joelsas and Daniel Rangel, with their distinct personalities (the latter particularly resonated with me on screen, incidentally), and both very well performed, teach her about the different people who cross our paths in life, and how to put them in their proper places, what they have to offer, and how to treat them - after all, passion and pleasure do not necessarily go hand in hand. The same applies to the other friendships that come later, adding to the spectrum of life rather than appearing to take anyone's place or erase the memories shared with others.
Deep down, the letters in As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você work as a metaphorical guide brought into reality, allowing the protagonist to learn to live her own life without fear, understand the world as it is, and move forward. Always very close to Gabi, the audience gains access to her feelings and emotions as a disoriented young woman dealing with grief and the loss of her only true friend up to that point, in such a profound and emotional way that tears naturally roll down our cheeks. Diego Freitas's direction turns this journey into a dynamic experience, and although the editing, in the opening minutes, ends up giving away too many spoilers about later moments - such as the jumping sequence, which could easily have been put to much better use if moved toward the final stretch - the feature proves to be far more delicate and profound than its premise might suggest, blending drama and romantic comedy in a way that reaches beyond teenage audiences. Above all, it possesses a genuinely Brazilian soul, standing far above many American films that explore similar territory. May Brazilian cinema continue to produce more films like this.
★★★★



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