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TIFF 51 | A Arte de Ser Heumann, de Sian Heder (Being Heumann, 2026)

Foto do escritor: Henrique Debski
Henrique Debski
há 2 dias
6 min de leitura

A Arte de Ser Heumann é eficaz em apresentar ao público a ativista Judith Heumann, mas simplifica seu debate a partir de uma figura vilanesca, e perde a oportunidade de se aprofundar nas falhas estruturais do próprio Estado na garantia de direitos fundamentais. 



Nesses últimos anos, sempre próximo da temporada de prêmios, têm se tornado bastante comum o lançamento de dramas históricos que tratam da luta por direitos sociais nos Estados Unidos. Recentemente, Aaron Sorkin fez sua estréia na direção com Os 7 de Chicago (2020), talvez um dos melhores exemplares desse estilo que vem se tornando popular para mirar premiações, juntamente com Rustin (2023), outro filme também lançado para streaming, que mesmo sem grandes indicações conseguiu emplacar Colman Domingo a disputar por uma vaga na corrida para o prêmio de atuação.


Quatro anos depois de conquistar o Oscar por Coda: No Ritmo do Coração, Sian Heder manteve seu cinema com os olhos voltados às pessoas com deficiência. Deixando de lado a delicadeza do drama familiar, a cineasta optou por uma abordagem mais ágil no drama histórico A Arte de Ser Heumann. Como alguém nascido e criado no século XXI, em tempos nos quais a acessibilidade, ainda que longe de ser perfeita, é um direito garantido e assegurado a todos na maioria dos países, me assusto em pensar no quão recente é um direito tão básico para a existência do ser humano na sociedade.


Na década de 1970, as pessoas com deficiência nos Estados Unidos mal eram tratadas como cidadãs. Renegados da vida em sociedade, excluídos muitas vezes até pelas próprias famílias, nenhum apoio recebiam do Estado e tampouco conseguiam acessar serviços básicos, como educação, saúde de qualidade ou mesmo o mínimo acesso à via pública. Toda a sequência inicial de A Arte de Ser Heumann explora as dificuldades de Judith Heumann em se locomover com sua cadeira de rodas pelas ruas de Nova York nos primeiros anos da década de 1970. Sem conseguir andar pela calçada, era obrigada a seguir pelas ruas, junto de carros, caminhões e ônibus, sendo ofendida e xingada a todo tempo.


Com uma legislação aprovada, de reconhecimento dos direitos das pessoas com deficiência (como se antes não fossem sujeitos merecedores de dignidade), o longa foca em narrar os atos de insistência e cobrança liderados por Heumann para a aprovação orçamentária do pacote de medidas que assegura a acessibilidade aos órgãos públicos do país.


Na contramão de algo mais intimista, como fizera anteriormente, a abordagem de Heder adota um tom mais protocolar, até mesmo na maneira como, juntamente de Rebekah Taussig, articula o roteiro. Pautando-se na ação dos manifestantes, e na reação do governo aos objetivos, constrói todo o debate na insistência de um dos secretários em não assinar o pacote de medidas. Com Heumann ao centro, representando uma voz comum à todas as pessoas com deficiência, busca-se explorar um pouco de cada personagem, no fortalecimento dessa voz coletiva que os move.


A montagem acelerada, que transita entre San Francisco - onde a manifestação acontece, com a ocupação de um prédio público - e Washington, busca por um dinamismo maior ao longa, na medida em que também volta a atenção às razões alegadas pelo secretário para não implementar o projeto, como se também pudéssemos enxergar seu ponto de vista. Mas ao invés de se direcionar à verdadeira complexidade desse debate, a simplificação a partir dessa figura vilanesca vivida por Mark Ruffalo, e das poucas outras figuras políticas, perde a oportunidade de investigar as falhas do próprio Estado. Fica muito fácil apontar dedos para culpados únicos que personificam as engrenagens de uma entidade muito maior e mais complexa do que apenas uma simples assinatura. 


Ainda que Ruth Madeley esteja muito bem na pele de Judith Heumann, e Heder consiga trabalhar momentos com emoção genuína (como a colocação de uma rampa nas escadas de entrada do prédio ocupado), A Arte de Ser Heumann também é, por outro lado, bastante burocrático na maneira de contar essa história. É interessante pelo olhar que direciona, mas pouco se aprofunda para além dos fatos, e menos ainda para explorar o que existe por detrás das engrenagens do próprio governo, transformado em algo muito fácil e simples. Mesmo que a intenção seja esse diálogo amplo com o maior público possível, ignora uma série de complexidades que diminuem, afinal, toda essa batalha, reduzida a uma mera assinatura e à caricatura de um burocrata. No fundo, é um filme que acaba sendo esquecível, ainda que sirva na apresentação do nome e do legado de Judith Heumann.


Avaliação: ★★★

 

A Arte de Ser Heumann (Being Heumann, 2026)

Direção: Sian Heder

Roteiro: Sian Heder e Rebekah Taussig, adaptado de Judith Heumann e Kristen Joiner (livro)

Gênero: Drama

Origem: EUA

Duração: 127 minutos (2h07)

51th Toronto International Film Festival (TIFF)


English review


Being Heumann is effective in introducing activist Judith Heumann to audiences, but simplifies its debate through a villainous figure, and misses the opportunity to delve deeper into the structural failures of the state itself in guaranteeing fundamental rights.



In recent years, always close to awards season, the release of historical dramas dealing with the struggle for social rights in the United States has become quite common. Recently, Aaron Sorkin made his directorial debut with The Trial of the Chicago 7 (2020), perhaps one of the best examples of this style that has been becoming popular as a way of aiming for awards, alongside Rustin (2023), another film also released for streaming, which, despite not receiving major nominations, managed to put Colman Domingo in contention for a spot in the acting race.


Four years after winning the Oscar for CODA, Sian Heder has kept her cinema focused on people with disabilities. Setting aside the delicacy of the family drama, the filmmaker opted for a more agile approach in the historical drama The Art of Being Heumann. As someone born and raised in the 21st century, in times when accessibility, although far from perfect, is a right guaranteed and secured to everyone in most countries, I am startled to think about how recent such a basic right is to human existence in society.


In the 1970s, people with disabilities in the United States were barely treated as citizens. Renegaded from life in society, often excluded even by their own families, they received no support from the state and were unable to access basic services such as education, quality healthcare, or even minimal access to public roads. The entire opening sequence of Being Heumann explores Judith Heumann's difficulties getting around New York City in her wheelchair during the early 1970s. Unable to travel along the sidewalk, she was forced to make her way through the streets, alongside cars, trucks, and buses, while being insulted and cursed at all the time.


With legislation passed recognizing the rights of people with disabilities (as if they had not previously been people deserving of dignity), the feature focuses on recounting the acts of insistence and demands led by Heumann for the budgetary approval of the package of measures that would ensure accessibility to the country's public institutions.


In contrast to something more intimate, as she had done previously, Heder's approach adopts a more procedural tone, even in the way she and Rebekah Taussig construct the screenplay. Focusing on the actions of the protesters and the government's reaction to their objectives, the entire debate is built around the insistence of one of the secretaries on refusing to sign the package of measures. With Heumann at the center, representing a voice shared by all people with disabilities, the film seeks to explore a little of each character, strengthening this collective voice that drives them.


The accelerated editing, which moves between San Francisco - where the protest takes place, with the occupation of a public building - and Washington, seeks to give the feature greater dynamism, while also turning its attention to the reasons given by the secretary for not implementing the project, as if we could also see his point of view. But instead of directing itself toward the true complexity of this debate, the simplification through this villainous figure played by Mark Ruffalo, and the few other political figures, misses the opportunity to investigate the failures of the state itself. It becomes very easy to point fingers at individual culprits who personify the workings of an entity far greater and more complex than merely a simple signature.


Although Ruth Madeley is very good in the role of Judith Heumann, and Heder manages to create moments of genuine emotion (such as the installation of a ramp on the stairs at the entrance of the occupied building), Being Heumann is also, on the other hand, quite bureaucratic in the way it tells this story. It is interesting for the perspective it adopts, but goes little beyond the facts, and even less so when it comes to exploring what exists behind the workings of the government itself, which is turned into something very easy and simple. Even if the intention is to engage in this broad dialogue with the widest possible audience, it ignores a series of complexities that ultimately diminish this entire battle, reduced to a mere signature and the caricature of a bureaucrat. At its core, it is a film that ends up being forgettable, even if it serves to introduce the name and legacy of Judith Heumann.


★★★


51th Toronto International Film Festival (TIFF) - opening film.

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