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TIFF 51 | Bunker, de Florian Zeller (Idem, 2026)

Foto do escritor: Henrique Debski
Henrique Debski
há 10 minutos
7 min de leitura

Florian Zeller transforma Penélope Cruz e Javier Bardem num casal em descompasso, em thriller tenso que coloca duas pessoas vivendo sobre os próprios bunkers pessoais, fazendo da incomunicabilidade a causa de atritos.



O som cada vez mais alto e incômodo de marteladas em uma parede de concreto dão início a Bunker como se fossem bombas caindo sobre uma cidade. Na prática, não existem bombas no filme - ao menos literalmente -, mas um casal (Sofia e Miguel) em descompasso, cuja relação está prestes a ceder na primeira oportunidade. Os primeiros minutos mostram os protagonistas em uma mesa de restaurante, acompanhados por amigos, contando sobre como se conheceram, sobre um mal-entendido do destino que acabou os unindo. Enquanto o personagem de Javier Bardem se diverte narrando essa história, rindo com as demais pessoas à mesa (as quais não vemos, ao menos neste momento), Penélope Cruz não parece compartilhar das mesmas impressões do marido neste instante - seu sorriso de canto de boca, e olhar distante, demonstram que repensa sobre todo o relacionamento, sem que o outro se dê conta disso.


Na gigante e espaçosa casa do casal - uma verdadeira mansão em um bairro residencial de Londres -, a incomunicabilidade e a distância reinam. Talvez não percebam de imediato, mas cada um se encontra fechado no próprio universo, de trabalho e problemas pessoais, que, para além do cuidado com as filhas e alguns eventos em conjunto com amigos comuns, pouco conversam de verdade. Não é necessariamente uma falta de amor, mas de paixão pela vida conjunta.


A ideia do bunker, que intitula o filme, surge a partir do trabalho do personagem de Bardem como arquiteto, ao qual é oferecido uma enorme soma em dinheiro para projetar um abrigo antibombas automatizado a um grande CEO da área de tecnologia. Tal evento se torna o catalisador das discussões com a esposa - chefe de departamento em uma grande editora, que não encontra espaço para crescimento profissional em Londres em razão de sua nacionalidade espanhola -, em um conflito que, inicialmente moral, se estende para os meandros do casamento, na medida em que caminha às origens daquilo que os diferencia no momento de vida, em suas filosofias pessoais.


Aos poucos, no decorrer do longa, outros pequenos conflitos cotidianos auxiliam nesse exercício de disrupção proposto por Zeller, como o significado das ideias de um livro publicado pela editora na qual Sofia trabalha, e as demasiadas preocupações com segurança por parte de Miguel, ainda mais quando seu vizinho decide abrir uma grande janela virada para seu quintal, perdendo parte de sua privacidade. 


O diretor, então, nos permite enxergar os personagens sob lentes distintas, a partir das diferentes decupagens que oferece a cada um. Enquanto acompanha Sofia, o peso em seus olhos ilustra uma mulher descontente e em dúvidas sobre o que está fazendo em sua vida, presa a uma cidade que não a abraça de verdade, e a um trabalho que não a permite ascender, com seus planos voltados a construir um sentimento de solidão e abandono, ainda que não efetivo. Já para Miguel a decupagem aposta em mais agilidade, na medida em que o personagem, em seu aspecto paranoico, preocupa-se tanto com o redor que não enxerga o cansaço da própria esposa, com quem pouco fica, ou mesmo às filhas.


Quando chega à reta final, ainda que exista um bunker literal nessa história, o que o título efetivamente se refere é a uma representação da realidade cada um, na maneira como reprimem os próprios sentimentos e não os demonstram uma para com o outro, que, ao longo da projeção, vai-se rompendo. A discussão sobre o projeto arquitetônico megalomaníaco - uma pirâmide invertida - é apenas um pretexto para colocar sobre a mesa tudo o que os personagens sentem e não falam, evitando ofensas e tristezas, enquanto se esgotam por ficar com tanto entalado na garganta. Então, uma bomba final, com os bunkers pessoais desconstruídos, surge para colocar à prova tudo o que disseram. Ainda que para alguns possa soar absurda a escolha de Zeller pelos instantes finais, a mesma aproveita muito bem a tensão e o clima tenso já anteriormente tão bem estabelecido, justamente no momento em que parece esfriar.


Bunker, então, fala muito, dentro de suas próprias metáforas, sobre maneiras de lidar com a vida, entre tocar o “eu” e o “nós” quando dentro de um casamento, sobre cavar buracos ou abrir janelas no mundo. Zeller sabe como manipular em cena esses personagens verossímeis, que se comportam muito adequadamente como pessoas reais enfrentando problemas de verdade, interpretados por um dos melhores casais da vida real - Cruz e Berdem - que, para além da química fora das telas, a abraça diante também diante das câmeras, ainda que dentro de um casamento em crise, cuja narrativa funciona muito bem justamente em razão do conforto de suas atuações em frente às câmeras. É mais um filme que reforça, também, a competência de Florian Zeller na direção de longas, junto do espetacular The Father e do também muito bom The Son - para mim, este fica entre os dois. 


Avaliação: ★★★★

 

Bunker (Idem, 2026)

Direção: Florian Zeller

Roteiro: Florian Zeller

Gênero: Drama, Thriller

Origem: França, Espanha

Duração: 126 minutos (2h06)

51th Toronto International Film Festival (TIFF)


Sinopse: Em um casal aparentemente distante, o marido , arquiteto, aceita um projeto polêmico para construir um bunker de sobrevivência para um bilionário tecnológico. Essa decisão leva sua esposa a questionar o casamento.


English review


Florian Zeller transforms Penélope Cruz and Javier Bardem into a couple out of sync, in a tense thriller that places two people living inside their own personal bunkers, making a lack of communication the cause of friction.



The increasingly loud and disturbing sound of hammers striking a concrete wall opens Bunker as if bombs were falling on a city. In practice, there are no bombs in the film - at least not literally -, but a couple (Sofia and Miguel) out of sync, whose relationship is about to give way at the first opportunity. The opening minutes show the protagonists at a restaurant table, accompanied by friends, talking about how they met, about a misunderstanding of fate that ended up bringing them together. While Javier Bardem's character enjoys telling the story, laughing with the other people at the table (whom we do not see, at least at this moment), Penélope Cruz does not seem to share her husband's impressions at this moment - her half-smile and distant gaze demonstrate that she is reconsidering the entire relationship, without the other realizing it.


In the couple's huge and spacious house - a true mansion in a residential neighborhood of London -, a lack of communication and distance reign. Perhaps they do not realize it immediately, but each is closed off in their own universe, of work and personal problems, and beyond taking care of their daughters and attending some events together with mutual friends, they hardly talk to each other in any meaningful way. It is not necessarily a lack of love, but a lack of passion for their life together.


The idea of the bunker, which gives the film its title, arises from Bardem's character's work as an architect, when he is offered a huge sum of money to design an automated bomb shelter for a major technology CEO. This event becomes the catalyst for discussions with his wife - a department head at a major publishing house, who finds no room for professional growth in London because of her Spanish nationality -, in a conflict that is initially moral but extends into the intricacies of the marriage, as it moves toward the origins of what differentiates them at this point in their lives, in their personal philosophies.


Little by little, throughout the film, other small everyday conflicts assist in this exercise of disruption proposed by Zeller, such as the meaning of the ideas behind a book published by the publishing house where Sofia works, and Miguel's excessive concerns about security, especially when his neighbor decides to open a large window facing his backyard, causing him to lose part of his privacy.


The director then allows us to see the characters through distinct lenses, based on the different découpage he offers to each of them. As he follows Sofia, the weight in her eyes illustrates a dissatisfied woman who is uncertain about what she is doing with her life, trapped in a city that does not truly embrace her, and in a job that does not allow her to advance, with her plans focused on constructing a feeling of loneliness and abandonment, even if it is not actually the case. For Miguel, on the other hand, the découpage opts for greater agility, as the character, in his paranoid nature, worries so much about his surroundings that he cannot see his own wife's exhaustion, with whom he spends little time, or even that of his daughters.


When it reaches its final stretch, even though there is a literal bunker in this story, what the title actually refers to is a representation of each person's reality, in the way they repress their own feelings and do not express them to each other, something that gradually breaks down throughout the film. The discussion about the megalomaniacal architectural project - an inverted pyramid - is merely a pretext for putting on the table everything the characters feel but do not say, avoiding offenses and sadness, while becoming exhausted from keeping so much bottled up inside. Then, a final bomb, with the personal bunkers deconstructed, emerges to put everything they have said to the test. Although Zeller's choice in the final moments may sound absurd to some, it makes very good use of the tension and tense atmosphere that had already been so well established, precisely at the moment when it seems to cool down.


Bunker, then, says a great deal, within its own metaphors, about ways of dealing with life, between touching upon the “I” and the “we” within a marriage, about digging holes or opening windows onto the world. Zeller knows how to manipulate these believable characters on screen, who behave very convincingly like real people facing genuine problems, played by one of the best couples in real life - Cruz and Bardem - who, beyond their chemistry off-screen, also embrace it in front of the cameras, even within a marriage in crisis, whose narrative works very well precisely because of the comfort of their performances in front of the cameras. It is yet another film that also reinforces Florian Zeller's competence as a feature-film director, alongside the spectacular The Father and the also very good The Son - for me, this one falls somewhere between the two.


★★★★



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