TIFF 51 | Toy Gun Bandit, de Rémi St-Michel (Faux Gun Bandit, 2026)

Toy Gun Bandit provoca o espectador a partir de um protagonista inconsequente, em thriller criminal anárquico e imersivo, de jornada caótica.

Na flor da idade, Félix é apenas mais um garoto qualquer de uma classe média canadense. Família aparentemente estruturada, boa relação com os pais, ambiente saudável, e aproximando-se cada vez mais da maioridade definitiva, quando Toy Gun Bandit se inicia justamente no dia de seu aniversário, possivelmente de dezessete ou dezoito anos, considerando que ainda não tem permissão legal para comprar bebidas alcóolicas.
Nos primeiros minutos, até nos importamos com Félix, que parece uma pessoa legal, apesar dos ânimos excessivos, que, por outro lado, se justificam pelo clima de comemoração. Ainda que sua expulsão de uma festa na casa de um colega seja relativamente injusta, quando se coloca na defesa de uma garota desacordada, o andamento do restante daquela noite nos acende um alerta com relação ao personagem. Isto porque, para conseguir bebida, sem ter idade para comprar, acaba “assaltando” uma loja de conveniência em um posto de gasolina, fingindo estar armado, com uma mão por baixo do casaco, e levando, diante do desinteresse do atendente para a situação, um engradado de cerveja e o dinheiro da registradora. Naturalmente, não é algo bem-visto por seus amigos, e a noite esfria entre eles, o levando a conhecer Dave, um sujeito na casa dos trinta anos, casado e com uma filha pequena, usuário de drogas e com problemas financeiros, de certa forma desesperado para se ajustar na vida, na busca de uma solução milagrosa.
É a partir da formação dessa amizade improvável que o longa segue por caminhos imprevisíveis, quando juntos começam a praticar roubos a bancos, buscando por oportunidades em que abastecem seus caixas-eletrônicos e recebem vultuosas quantias em cédula. Aos poucos, a jornada de um adolescente, quase adulto, em busca de emoção se converte em uma grande empreitada criminosa regada à caos e violência, motivada pela inconsequência de um personagem perdido em suas próprias escolhas.
Se tudo inicialmente corre bem, a partir do momento que as coisas saem do controle Félix fica diante das consequências de seus próprios atos, em lições sobre o universo da vida adulta que cobram um preço para o seu futuro. O mais interessante, no entanto, não é necessariamente o que o mundo real ensina para um adolescente que parece acreditar viver dentro de um jogo de videogame, mas a maneira como a direção de Rémi St-Michel não admira seu protagonista, e tampouco o defende diante de suas ações – pelo contrário, a todo tempo faz questão de que enfrente as consequências dos próprios atos.
A partir de uma câmera na mão, circulando livremente pelos ambientes, tal como uma referência ao movimento dinamarquês de Lars von Trier e Thomas Vinterberg, Dogma 95, St-Michel situa sua narrativa em um ambiente puramente anárquico, como se acompanhássemos os personagens em suas empreitadas estando muito próximos a eles, capturando as descargas de adrenalina dos delitos praticados, as feições de desespero quando algo sai errado, e as gotas de suor escorrendo por seus rostos enquanto buscam resolver um problema criando outro. É de uma tensão muito genuína, potencializada pela montagem, assinada pelo próprio diretor, que nunca deixa a narrativa esfriar – pelo contrário, apenas aumenta ainda mais uma bola de neve que desce uma montanha de forma desenfreada.
O afastamento moral entre nós e o protagonista que propõe é compensado justamente pela proximidade da câmera. Sua inconsequência é o pontapé inicial dos conflitos estabelecidos, trabalhados de maneira crescente no decorrer da obra por meio da existência da arma, a qual inclusive se faz presente no próprio título, que avança, progressivamente, de uma mão embaixo do casaco para pistolas de brinquedo, chegando até a submetralhadoras de verdade.
Ainda que o personagem seja cada vez mais detestável, o estreante Félix Munger chama a atenção pela maneira como o interpreta com vivacidade no olhar. Na pele de um verdadeiro “playboy”, com boa casa, condições financeiras e tudo do bom e do melhor, entrando no mundo do crime por puro esporte e diversão, o ator, tanto quanto o diretor, fazem questão de provocar o espectador nesse misto de curiosidade com sua jornada e raiva por assistirmos a uma pessoa sempre fazendo as piores escolhas – como talvez uma versão contemporânea, em um thriller criminal, de Holden Caulfield, protagonista de O Apanhador no Campo de Centeio, escrito por J. D. Salinger e publicada em 1951. É tão curioso que na reta final nem os próprios realizadores parecem conhecer o real destino do personagem, diante do sujeito imprevisível que é, problemático, mas ainda assim, no fundo, de bom coração, que talvez tenha aprendido a lição (ou não). Gosto de como Toy Gun Bandit nos joga essa peteca, sem respostas definitivas, mas sim sugestões. Foi uma ótima surpresa.
Avaliação: ★★★★
Toy Gun Bandit (Faux Gun Bandit, 2026)
Direção: Rémi St-Michel
Roteiro: Rémi St-Michel
Gênero: Thriller, Drama
Origem: Canadá
Duração: 102 minutos (1h42)
51º Toronto International Film Festival (TIFF)
Sinopse: Depois de se gabar por ter roubado uma loja de conveniência, Félix é envolvido pelo novo amigo Dave em um plano para assaltar um banco local. Ávido por reconhecimento, ele embarca na empreitada sem hesitar. Mas a adrenalina dura pouco quando as coisas começam a sair do controle e as armas se revelam reais demais. Esta é quase uma história verdadeira.
English review
Toy Gun Bandit provokes the viewer through an irresponsible protagonist, in an anarchic and immersive crime thriller with a chaotic journey.

In the prime of his youth, Félix is just another ordinary boy from the Canadian middle class. An apparently stable family, a good relationship with his parents, a healthy environment, and getting closer and closer to full adulthood, when Toy Gun Bandit begins precisely on his birthday, possibly his seventeenth or eighteenth, considering that he is still not legally allowed to purchase alcoholic beverages.
In the first few minutes, we even care about Félix, who seems like a nice person, despite his excessive temper, which, on the other hand, is justified by the celebratory atmosphere. Although his being kicked out of a party at a classmate's house is relatively unfair, when he stands up for an unconscious girl, the rest of that night's events raise a red flag about the character. This is because, in order to get alcohol without being old enough to buy it, he ends up “robbing” a convenience store at a gas station, pretending to be armed, with one hand underneath his coat, and taking, in the face of the attendant's indifference to the situation, a case of beer and the money from the cash register. Naturally, his friends do not approve of this, and the mood between them grows cold, leading him to meet Dave, a man in his thirties, married with a young daughter, a drug user and struggling financially, somewhat desperate to get his life together, searching for a miraculous solution.
It is from the formation of this unlikely friendship that the feature takes unpredictable paths, as the two of them begin robbing banks together, looking for opportunities when they replenish their ATMs and receive large sums of cash. Little by little, the journey of an almost-adult teenager in search of excitement turns into a major criminal undertaking fueled by chaos and violence, motivated by the recklessness of a character lost in his own choices.
If everything initially goes well, once things get out of control, Félix is faced with the consequences of his own actions, in lessons about the adult world that demand a price from his future. The most interesting thing, however, is not necessarily what the real world teaches a teenager who seems to believe he is living inside a video game, but the way director Rémi St-Michel does not admire his protagonist, nor defend him in the face of his actions - on the contrary, he constantly makes sure that he faces the consequences of his own actions.
Through a handheld camera, freely moving through the environments, much like a reference to the Danish movement of Lars von Trier and Thomas Vinterberg, Dogma 95, St-Michel situates his narrative in a purely anarchic environment, as if we were following the characters on their endeavors while remaining very close to them, capturing the adrenaline rushes of their crimes, the desperate expressions when something goes wrong, and the drops of sweat running down their faces as they try to solve one problem by creating another. It is an incredibly genuine tension, heightened by the editing, handled by the director himself, which never lets the narrative cool down - on the contrary, it only makes the snowball rolling down a mountain become increasingly larger and more relentless.
The moral distance between us and the protagonist that he establishes is precisely compensated for by the proximity of the camera. His recklessness is the starting point for the conflicts that are established, progressively developed throughout the work through the presence of the gun, which is even featured in the title itself, gradually progressing from a hand underneath a coat to toy guns, eventually reaching real submachine guns.
Even as the character becomes increasingly detestable, newcomer Félix Munger draws attention through the liveliness of his gaze. Playing a true “playboy”, with a nice house, financial means and all the best things in life, entering the world of crime purely for sport and fun, the actor, just like the director, makes a point of provoking the viewer through this mixture of curiosity about his journey and anger at watching a person constantly make the worst choices - perhaps like a contemporary version, in a crime thriller, of Holden Caulfield, protagonist of The Catcher in the Rye, written by J. D. Salinger and published in 1951. It is so curious that, by the final stretch, even the filmmakers themselves do not seem to know the character's true fate, faced with such an unpredictable, troubled individual who is nevertheless, deep down, good-hearted, and who may have learned his lesson (or not). I like how Toy Gun Bandit tosses this ball back to us, without definitive answers, but rather suggestions. It was a great surprise.
★★★★
Toy Gun Bandit premièred at 51th Toronto International Film Festival (TIFF).



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