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XXII FANTASPOA | Body Blow, de Dean Francis (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 3 dias
  • 7 min de leitura

Em um neo-noire queer, Dean Francis resgata a estética dos thrillers policiais e eróticos dos anos 1990, e faz de Body Blow uma volta ao passado sob o olhar do presente.



Há algum tempo que venho sentindo falta dos thrillers policiais típicos dos anos 1990/2000, muitas vezes filmes de médio orçamento, boas cenas de ação, tensão sexual, mistério envolvente e cores vibrantes. O cinema contemporâneo, especialmente hollywoodiano, parece ter perdido a empolgação e a paixão desta época, hoje apostando muito mais em fotografias acinzentadas (algo que talvez facilite o trabalho da correção de cor em pós-produção, como bem sugeriu um amigo certa vez), clima deprimente, pouco apaixonados pela realização e muito mais rodados no “automático”, presos a tramas realistas, esquecendo-se da magia do cinema.


Na realização de seu Body Blow, o cineasta australiano Dean Francis demonstrou, de inúmeras maneiras, compartilhar do mesmo sentimento, quando se apoia e se inspira justamente nos longas deste tempo passado para a construção de um thriller erótico policial queer, que sob o aspecto do cinema neo-noire, coloca um policial gay para enfrentar um enorme dilema pessoal de autoaceitação, enquanto uma paixão inesperada o coloca na mão de um mafioso local, que, por debaixo dos panos, é responsável por controlar a cidade.


Ainda que trabalhando elementos de preconceito relacionados à comunidade queer, Francis se esquiva de uma abordagem óbvia quando o mesmo não emana de “fora para dentro”, mas sim do próprio protagonista consigo, em uma batalha de questionamento às próprias escolhas, e o próprio ser. Em um universo com uma divisão LGBT+ dentro da força policial, e detetives também assumidos e casados com pessoas do mesmo sexo, neste mundo onde a homofobia tornou-se, aparentemente, coisa do passado, a encruzilhada a todo tempo mostra-se como algo interno e pessoal, na suposta visão (equivocada) de que, para defender o distintivo que carrega, não pode e nem deve ceder as tentações do prazer sexual.


No entanto, quando a paixão inesperada surge, na forma de Cody, muito bem interpretado pelo estreante Tom Rodgers, e a filosofia celibatária passa a ruir, o protagonista Aiden, também bem vivido por Tim Pocock, em meio à teia de corrupção que o circunda, constantemente passa a repensar as próprias escolhas, em prol do que crê ser o ideal para si, e para o mundo em que vive, onde não existe um pensamento coletivo e tampouco outros policiais preocupados com a proteção da sociedade, senão interessados somente por poder e dinheiro - algo muito distante da visão fantasiosa, e ideal, que nutre da força policial.


A fotografia, no excesso de cores neon, explora essa dúvida do personagem a partir das luzes azul e vermelha. Para além da mera alusão à força policial, é como se, no decorrer do filme, refletissem também a mente do protagonista, dividida entre a desconstrução de sua filosofia ultrapassada e a finalmente libertação aos prazeres da vida - afinal, mais do que identificar-se como alguém perante a sociedade, o passo fundamental é assim pensar com relação a si mesmo. 


Ao abandonar, ao longo da jornada, esse aspecto de “agente duplo” que percorre a própria mente, os gestos românticos tornam-se cada vez mais frequentes neste submundo criminoso e policial onde a desconfiança reina entre as relações. Na descoberta de mentiras espalhadas para todos os lados, e de constantes reviravoltas, típicas também do cinema noventista, resta muito espaço para o erotismo em Body Blow, enquanto, a cada contato físico, encenados e filmados com uma sutil delicadeza pela direção de Francis, os sentimentos em tela transpassam e caminham para o público na sala de cinema, acompanhados pela ótima trilha musical.


Assim, Body Blow se constrói como uma trágica fábula urbana, em um universo verossímil bem estabelecido pelo diretor, no qual o verdadeiro preconceito advém de uma batalha interna do protagonista contra si, e não de um meio externo, liberal e despreocupado com as escolhas dos outros em relação às próprias vidas - como tudo deveria ser. Aos poucos, essa jornada policial, regada à violência, amor e prazer, torna-se também a libertação de uma pessoa reprimida, enquanto confronta valores que cultivou ao longo de anos. É uma homenagem sincera ao cinema policial dos anos 1990, através de uma produção independente, de baixo orçamento, rodada na Austrália, cujo resultado reflete e reforça a existência de cineastas ainda preocupados com uma estética cada vez menos lembrada, entre cores vibrantes, erotismo, e situado em meio à comunidade queer. 


Avaliação: 4.5/5


Body Blow (Idem, 2026)

Direção: Dean Francis

Roteiro: Dean Francis

Gênero: Thriller

Origem: Austrália

Duração: 99 minutos (1h39)

Exibido no XXII Fantaspoa


Sinopse: Um policial novato se infiltra no submundo do crime e conhece um garoto de programa. Envolvido por sentimentos inesperados, ele se vê preso em uma trama de corrupção e perigo que vai além de sua missão original.


Esta crítica é dedicada ao meu amigo Fabio, de quem recebi a notícia do falecimento enquanto escrevia, na manhã do dia 23 de abril de 2026. 


Conheci o Fabio em 2021, durante as aulas do Clube do Crítico, e nossa amizade tornou-se maior com o passar dos anos. Dedicado à família, um marido amoro e pai incrível, com seu sorriso contagiante, alegria ilimitada, reflexões, conselhos, filosofias e disposição a sempre conversar com quem quer que fosse, e ajudar em qualquer momento, eram apenas algumas características desta pessoa iluminada, de quem me orgulho poder chamar de amigo. Sentirei sua falta, Fabinho, nos encontros presenciais de nosso grupo, das conversas profundas, pessoalmente e por mensagem, das imensas risadas e de todos os momentos que tivemos juntos nos últimos anos. 


Faça sua passagem em paz, e muito obrigado por todas as memórias que criamos, e pelos nossos caminhos cruzados. Você sempre será lembrado como um grande, querido e amado amigo.



English review


In a queer neo-noir, Dean Francis revives the aesthetic of 1990s erotic crime thrillers, turning Body Blow into a return to the past through the lens of the present.



For some time now, I’ve felt the absence of the typical crime thrillers of the 1990s/2000s - often mid-budget films with strong action set pieces, sexual tension, engaging mystery, and vibrant colors. Contemporary cinema, especially in Hollywood, seems to have lost the excitement and passion of that era, now leaning far more toward grayish cinematography (something that perhaps makes color grading in post-production easier, as a friend once suggested), a depressive tone, a lack of enthusiasm for the craft, and films that feel more “on autopilot,” bound to realism and forgetting the magic of cinema.


With Body Blow, Australian filmmaker Dean Francis clearly demonstrates that he shares this sentiment, drawing inspiration precisely from films of that past era to construct a queer erotic crime thriller that, under the guise of neo-noir, places a gay police officer at the center of a profound personal dilemma of self-acceptance - while an unexpected passion places him in the hands of a local mobster who secretly controls the city.


Although working with elements of prejudice related to the queer community, Francis avoids an obvious approach, as the conflict does not come from “outside in,” but rather from within the protagonist himself - a battle of questioning his own choices and identity. In a world where there is an LGBT+ division within the police force, and detectives who are openly gay and married to same-sex partners, homophobia appears to be, at least superficially, a thing of the past. The crossroads he faces is therefore entirely internal and personal, rooted in the (mistaken) belief that, in order to uphold the badge he carries, he cannot and should not give in to the temptations of sexual desire.


However, when unexpected passion emerges in the form of Cody - very well portrayed by newcomer Tom Rodgers - and his celibate philosophy begins to crumble, the protagonist Aiden, also convincingly played by Tim Pocock, finds himself constantly rethinking his choices amid the web of corruption surrounding him. He does so in pursuit of what he believes to be ideal - for himself and for the world he inhabits, where there is no collective sense of duty, and no other officers truly concerned with protecting society, but rather individuals driven solely by power and money - something far removed from the idealized, almost fantastical vision he holds of the police force.


The cinematography, with its heavy use of neon colors, explores this inner conflict through blue and red lighting. Beyond a simple reference to law enforcement, these colors seem to reflect the protagonist’s mind throughout the film - divided between the deconstruction of his outdated philosophy and his eventual surrender to the pleasures of life. After all, more than identifying oneself to society, the fundamental step is to recognize oneself internally.


As he gradually abandons this “double agent” aspect within his own mind, romantic gestures become increasingly frequent in this criminal and police underworld where distrust dominates relationships. Amid the unraveling of lies on all sides and constant twists - also typical of 1990s cinema - Body Blow leaves ample space for eroticism. With each physical interaction, staged and filmed with subtle delicacy by Francis’s direction, the emotions on screen transcend and reach the audience, accompanied by an excellent musical score.


Thus, Body Blow takes shape as a tragic urban fable, set within a believable universe carefully crafted by the director, in which true prejudice stems from the protagonist’s internal struggle rather than from an external environment that is, in fact, liberal and unconcerned with others’ personal choices - as it should be. Gradually, this police journey, infused with violence, love, and desire, becomes the liberation of a repressed individual, as he confronts values he has carried for years. It is a sincere homage to 1990s crime cinema - a low-budget independent production shot in Australia, whose result reflects and reinforces the existence of filmmakers still invested in an increasingly forgotten aesthetic, marked by vibrant colors, eroticism, and rooted in the queer community.


Body Blow was screened at XXII Fantaspoa.


This review is dedicated to my friend Fabio, whose passing I learned of while writing, on the morning of April 23, 2026.


I met Fabio in 2021, during classes at Clube do Crítico, and our friendship grew stronger over the years. Devoted to his family, a loving husband and an incredible father, his contagious smile, boundless joy, reflections, advice, philosophies, and his constant willingness to talk to anyone and help at any moment were just some of the qualities of this remarkable person, whom I am proud to call a friend. I will miss you, Fabinho - our in-person gatherings with the group, our deep conversations, both face to face and through messages, the endless laughter, and all the moments we shared over the past years.


May your journey be peaceful - and thank you for all the memories we created, and for the paths we crossed. You will always be remembered as a great and dearly loved friend.

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