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XXII FANTASPOA | Dead Eyes, de Richard E. Williams (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • 23 de abr.
  • 5 min de leitura

Dead Eyes se diferencia pela câmera em primeira pessoa, oferecendo uma experiência imersiva à mente de seu protagonista, enquanto lida, no presente, com as consequências de traumas familiares do passado.



Na contramão de uma infinidade de filmes de terror parecidos, e cansado de obras genéricas com pessoas presas em florestas amaldiçoadas ou sendo perseguidas por criaturas assassinas, como já se fizera ao longo de tantos anos das mais variadas formas, Richard E. Williams teve uma boa ideia: por que não um terror em primeira pessoa, transmitindo o medo direto do personagem ao público? Assim, Dead Eyes nasceu da ousadia de colocar a câmera à altura dos olhos do próprio personagem, e não em suas mãos, como muito se faz no found-footage, para uma experiência de terror muito mais pessoal. 


Ou seja, os eventos não são registros daquilo que o protagonista filma, mas precisamente daquilo que ele vê e sente. Com isso, é nítida a liberdade conferida ao cineasta, através do método e ponto de vista adotado, para explorar com mais afinco o drama que envolve o protagonista - e mais, os motivos que o levam a acampar em uma floresta vazia.


A partir de um drama familiar, com feridas abertas na relação entre pai e filho em razão da nunca superação do luto pela perda da irmã mais nova, ainda adolescente, o desaparecimento do genitor, um conhecido médico geneticista, faz com que o protagonista Sean siga para acampar na floresta com sua noiva e um casal de amigos a fim de escapar da correria do dia-a-dia, e também procurar o pai, que poderia estar no local, o qual costumavam frequentar quando jovens.


Contado o passado de Sean superficialmente, em um primeiro momento, a jornada do personagem no decorrer de Dead Eyes se desenrola a partir de sua intimidade. Longe de diálogos expositivos, uma mescla entre memórias e dores pessoais explora de maneira enigmática o que houve nos momentos anteriores, e o como chegaram ao presente distanciamento. Por esta razão, elementos que em outras produções soam apenas passagens forçadas para dar sustos ou criar uma atmosfera de terror passageira para chamar a atenção do espectador, como sonhos ou alucinações, no presente filme encontram a ideal justificativa a partir do momento em que navegamos justamente pela mente do protagonista.


Dessa maneira, enquanto vemos o que vê, e sentimos sempre que possível suas dores a partir dos efeitos em tela (como o sangue caindo sobre os olhos, após um ferimento na cabeça, por exemplo), Richard E. Williams constrói uma relação mais orgânica entre seu personagem e o espectador. Mais do que isso, o uso de efeitos práticos, da violência gráfica e a própria neblina na floresta colaboram para uma experiência ainda mais imersiva, dentro uma mente nebulosa, que se desenrola quase como um jogo de videogame em primeira pessoa, com seus elementos de sobrevivência e quebra-cabeças a serem resolvidos em meio a sequências de perseguição.


Sua maior dificuldade, no entanto, reside no aprofundamento desse pano de fundo que circunda o personagem. Pouco sabemos de fato sobre o que houve com a irmã, assim como não sabemos quanto tempo se passou entre os eventos do passado e o presente, deixando lacunas.


E ainda que a narrativa construa uma relação cíclica, próxima a reta final, que acabe não muito bem trabalhada pelo filme, ao menos existe um espaço para interpretações e debates sobre o que de fato representa os eventos contados em tela. Torna-se uma obra muito interessante pela forma como constrói sua atmosfera de tensão, a partir da imagem em primeira pessoa e do próprio som ambiente amedrontadores, ao passo que a viagem à mente de uma pessoa enlutada e pouco resolvida consigo e com a família oferece uma camada extra a um personagem evidentemente complexo e duvidoso, até em relação aos próprios sentimentos. Uma boa surpresa imersiva neste Fantaspoa, de um filme independente australiano filmado com muita criatividade, poucos recursos financeiros, e de ótimo, e ambicioso, resultado.


Avaliação: 3.5/5


Dead Eyes (Idem, 2026)

Direção: Richard E. Williams

Roteiro: Richard E. Williams

Gênero: Terror, Thriller

Origem: Austrália

Duração: 81 minutos (1h21)

Exibido no XXII Fantaspoa


Sinopse: Após a morte de sua irmã, Sean e seus amigos se aventuram em uma floresta remota em busca de seu pai desaparecido, apenas para descobrir seus segredos sombrios, onde o luto se torna uma ponte entre os vivos e os mortos.


English review


Dead Eyes stands out through its first-person camera, offering an immersive experience into the mind of its protagonist while he grapples, in the present, with the consequences of past family trauma.


Moving against the grain of countless similar horror films - and seemingly tired of generic stories about people trapped in cursed forests or hunted by deadly creatures - Richard E. Williams comes up with a compelling idea: why not a first-person horror film that transmits fear directly from the character to the audience? Thus, Dead Eyes emerges from the bold decision to place the camera at the level of the protagonist’s eyes, rather than in his hands, as is common in found-footage, creating a far more personal horror experience.


In other words, what we see are not recordings made by the protagonist, but precisely what he sees and feels. This grants the filmmaker considerable freedom, through both method and point of view, to delve deeper into the drama surrounding the character - and, more importantly, the reasons that lead him to camp in an isolated forest.


Rooted in a family drama marked by unresolved grief - particularly the strained relationship between father and son after the loss of a younger sister - the disappearance of the father, a renowned geneticist, prompts Sean to venture into the forest with his fiancée and a couple of friends. The trip serves both as an escape from daily life and as a search for his father, who may be in a place they used to visit together in the past.


Initially presenting Sean’s past in a superficial way, the film gradually unfolds through his intimacy. Avoiding expository dialogue, it blends memories and emotional wounds to enigmatically explore what happened before and how the present estrangement came to be. As a result, elements that in other films might feel like cheap devices for jump scares - such as dreams or hallucinations - find a more organic justification here, as we are effectively navigating the protagonist’s mind.


By aligning the viewer with Sean’s perception - even to the point of experiencing his pain through visual effects, like blood dripping over his eyes after a head injury - Williams builds a strong connection between character and audience. The use of practical effects, graphic violence, and the dense fog of the forest further enhances immersion, creating a hazy mental landscape that unfolds almost like a first-person video game, complete with survival elements and puzzle-like progression amid chase sequences.


Its main shortcoming, however, lies in the underdevelopment of the broader backstory. We learn very little about what truly happened to the sister, and the timeline between past and present remains unclear, leaving noticeable gaps.


Even so, as the narrative approaches its final stretch, it attempts to establish a cyclical structure - not entirely successful, but enough to open space for interpretation and debate about what the events truly represent. Ultimately, Dead Eyes becomes a highly engaging work for the way it constructs tension through its first-person imagery and unsettling sound design, while also offering a deeper layer through its exploration of a grieving and emotionally unresolved protagonist - a complex and, at times, unreliable figure even in relation to his own feelings.


It is a surprising and immersive highlight of the Fantaspoa - an independent Australian production made with creativity, limited resources, and striking ambition.


Dead Eyes was screened at XXII Fantaspoa.

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